10 de julho de 2011
15° Domingo do Tempo Comum
Mt 13,1-23


Bem-aventurados os que ouvem a Palavra e a compreendem (cf.vv.16-17) A parábola do semeador, ou melhor, das sementes produtivas e improdutivas, refere-se às diferentes reações à pregação de Jesus sobre o Reino dos Céus. Com efeito, Ele experimentou um doloroso fracasso em sua missão, pois os líderes judeus O hostilizavam e combatiam e a multidão, antes entusiasta, começou a abandoná-Lo (cf. Jo 6,60-71). É nesse contexto de crise caracterizada por oposição e deserção que Jesus conta a parábola do semeador, para afirmar que, embora sua missão tenha sofrido um duro revés, não foi terminantemente aniquilada. Pois Ele mesmo é o semeador que espalhou generosamente as sementes do Reino de Deus na história humana e nada poderá impedir que sua força salvífica se irrompa no futuro. Assim como entre a semeadura e a colheita há uma ligação estreita e necessária, também entre sua missão e a vinda do Reino há um vínculo indissolúvel. Na perspectiva eclesial do evangelho de Mateus, a questão central da parábola é a “escuta da Palavra do Reino”. Tal escuta opera uma clara distinção entre a multidão a quem Jesus fala em parábolas, à beira da praia, e os discípulos a quem Jesus, em casa, explica os “mistérios do Reino”. Para Mateus, esse grupo privilegiado se identifica com os doze discípulos, que se tornam, na verdade, o modelo ideal de Igreja, a quem é dirigido o Evangelho, pois à comunidade cristã é dado entender “os mistérios do Reino dos céus” (v.11), quer dizer, o projeto secreto e definitivo de Deus sobre a história humana, sua realeza e senhorio no mundo, revelado e realizado por Jesus Cristo, em seu destino misterioso e paradoxal de rejeição, sofrimento e humilhação. Os discípulos são bem-aventurados, portanto, por ver, escutar e compreender a Palavra de Jesus que os torna herdeiros do Reino. Os judeus são cegos e surdos, estranhos à revelação salvífica de Deus, exatamente por não acolherem tal palavra. Assim, os vários tipos de terreno, que indicam as diferentes acolhidas da palavra, resumem-se, na verdade, a apenas dois: quem ouve a palavra e não a compreende (cf. v.19) e quem a ouve e compreende (cf. v.23). “Quem ouve a Palavra do Reino de Deus” é o fiel, membro da comunidade, que acolheu o primeiro anúncio do Evangelho e também recebeu ulteriores ensinamentos, mas não os compreendeu. Não se trata, obviamente, de uma compreensão intelectual, mas de uma assimilação personalizada, amadurecida na experiência, que leva a um agir correspondente. A partir da realidade da comunidade de Mateus, há duas principais ocasiões em que o fiel é posto à prova na escuta e entendimento da Palavra: a primeira é motivada pelo ambiente externo de tribulações e perseguições que o levam a abandonar o testemunho da fé cristã; a segunda possui uma causa interna: é quando o cristão se envereda na busca de bens materiais e nas preocupações do mundo de modo a sufocar em si a Palavra, impedindo-a de dar frutos (cf. v.22). O ouvinte bem-aventurado, simbolizado pelo terreno bom, é quem escuta a Palavra e a compreende, isto é, ele a põe em prática de modo ativo e perseverante, sem se deixar vencer pelo medo das provações e sem permitir que outras coisas tomem o lugar de Cristo em sua vida.


17 de julho de 2011
16° Domingo do Tempo Comum
Mt 13,24-43

O joio em meio ao trigo: o problema do mal Vivemos em um mundo onde estão presentes o bem e o mal. Nossa tendência imediata seria fazer uma rígida “purificação”. Somos como os empregados da parábola que dizem ao patrão: “Queres que vamos e arranquemos o joio do meio do trigo?” (cf. v.28b) O sábio dono da plantação tem plena noção de que esse não é o melhor procedimento. Ao arrancar o joio, pode-se arrancar também o trigo, isto é, ao preocupar-se demais em combater o mal, pode-se acabar por esquecer-se de praticar o bem. A melhor maneira de vencer o joio é cultivar bem o trigo para que ele fortaleça suas ramagens e dê boa colheita. Como o Senhor diz no Evangelho, o campo semeado é o mundo (cf. v.38a), somos nós mesmos. Ao olharmos em torno de nós, constataremos, certamente, muitos males horríveis no mundo e tantas contradições em nós mesmos, que nos impedem de viver a mensagem do Evangelho. Embora conscientes de tudo isso, é necessário não perdermos de vista que neste mundo onde está presente o mal também está lançada a boa semente que o Filho do Homem semeou (v.37a). Para ela, temos de dirigir toda a nossa atenção, cultivá-la bem para que cresça e dê colheita abundante. Em outras palavras, por mais que encontremos dificuldades para viver a mensagem de Jesus Cristo, não devemos nos preocupar demasiadamente em como eliminá-las. Aliás, isto não é mesmo possível, pois enfrentar dificuldades faz parte do caminho no seguimento de Jesus, que é como o trigo que cresce em meio ao joio. Felizmente, não temos de ficar nos desgastando para eliminar nossos pecados na esperança de atingir um elevado estado de perfeição para, então, sermos dignos de seguir o Senhor, pois Ele mesmo disse ter vindo, exatamente, para chamar os pecadores e salvar o que estava perdido (cf. Mt 9,13; Lc 19,10). Portanto, podemos nos aproximar d’Ele na certeza de sermos aceitos como somos e transformados no que Ele nos deseja.

24 de julho de 2011
17° Domingo do Tempo Comum

Mt 13,44-52

A mensagem cristã: um tesouro incomparável A vida cristã, sem dúvida, implica uma conduta moral específica, em normas concretas de vida. Mas estas são consequências de uma experiência anterior: a do Amor gratuito de Deus, que nos amou quando éramos ainda pecadores (cf. Rm 5,8). Nós, às vezes, ofuscamos esse brilho incomparável da mensagem cristã quando a reduzimos a mero cumprimento de preceitos morais e religiosos, que derivam dela, mas não constituem seu núcleo. O Evangelho, quando entendido e assimilado propriamente, tem um forte poder de atração. Quando o encontram, as pessoas são capazes de deixar tudo e reorientar a própria vida, assumindo uma nova conduta que brota da mensagem cristã. É como alguém em busca de um grande tesouro que, quando encontra um de grande valor, vende tudo o que tem para comprá-lo. Ora, esse desfazer-se de tudo o que se tem para adquirir o tesouro encontrado não é sacrifício, esforço extenuante e desagradável de quem é obrigado a aplicar-se em causa alheia. Há, certamente, grande empenho e engajamento pessoal, mas como resultado de grande realização e envolvimento da alma em uma nova dimensão, que cria um novo céu e uma nova terra (cf. Ap 21,1a), isto é, todo um mundo de novas relações em que passado, presente e futuro são relidos em uma perspectiva diferente. “É como um pai de família que tira de seu tesouro coisas novas e velhas” (v.52).

31 de julho de 2011
18° Domingo do Tempo Comum
Mt 14,13-21


“Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16b) Jesus vai, de barco, a um lugar deserto e afastado. Ao desembarcar, Ele se depara com as multidões que, intuindo para onde ia, o anteciparam, vindo a pé das cidades. Ao vê-las, Jesus é tomado de compaixão por elas e cura os doentes. As pessoas passaram muito tempo com Jesus e as horas avançaram. Sendo o lugar deserto, os discípulos ficaram preocupados com a alimentação e pediram a Jesus que mandasse todos embora a procurar alimento para não desfalecerem de fome. Jesus sabe muito bem de qual pão as multidões estão realmente famintas, por isso responde aos discípulos: “Não é preciso que vão embora. Vocês mesmos deem de comer a elas”. Afinal, o pão que aquelas pessoas estão procurando está bem ali. É o próprio Jesus, Palavra encarnada do Pai que desceu do céu para dar vida ao mundo (cf. Jo 6,33). Com efeito, o homem não vive somente de pão, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus (cf. Dt 8,3). Os discípulos não podem mandar as pessoas embora porque foi Jesus mesmo que as convocou dizendo-lhes: “Vinde a mim vós todos que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,18). É desse alimento salutar que todos somos famintos. Portanto, os discípulos não têm de se preocupar com o que dar às multidões, pois a missão deles é tão somente distribuir a refeição eucarística em que Jesus é o único a se dar como Pão da Vida. Tal Pão será sempre suficiente para saciar toda a humanidade, desde que haja discípulos que, pelo anúncio e pelo testemunho da Palavra, façam-na chegar aos confins da terra (cf. Mt 28,19-20).

7 de agosto de 2011
19° Domingo do Tempo Comum
Mt 14,22-33


Coragem! Sou Eu! (cf. v.27) Jesus fica rezando sozinho, enquanto os discípulos vão-se embora de barco. No meio da noite, houve uma tempestade no mar e a barquinha em que estavam era perigosamente sacudida pelas ondas. Então, Jesus foi-lhes ao encontro caminhando sobre as águas. Todos ficaram com medo pensando que fosse um fantasma. Jesus, porém, lhes diz: “Coragem! Sou eu! Não tenham medo!” (cf. v.27). Pedro pede a Jesus para ir encontrá-lo caminhando também sobre as águas e Jesus o atende. Mas, ao perceber o fragor das ondas que o ameaçavam, Pedro sente medo, começa a afundar e grita: “Senhor, salva-me!” O Senhor toma-o pela mão e os dois entram na barca e a tempestade se acalma. Então todos se prostram em adoração diante de Jesus dizendo: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!” (cf. Mt 14,28-33). Essa cena, muito significativa, exprime a realidade da vida dos discípulos de Jesus, ou seja, da Igreja e da sua relação com Ele. A barquinha com os discípulos, sacudida pela violência do vento e das ondas, é imagem da Igreja tão pequenina e frágil ameaçada pelas gigantescas forças contrárias. Quantos cristãos desde Santo Estevão, o primeiro mártir, até hoje, tiveram de pagar com a própria vida o preço de ser cristão? Não se sentiram eles como barquinhas frágeis e solitárias agitadas pelas forças monstruosas das ondas de um mar tempestuoso? Não é assim que tantas vezes nos sentimos diante dos grandes problemas da vida que não conseguimos resolver? Se estivéssemos mesmo a sós, a situação seria deveras desesperadora, mas a fé, da qual a Igreja vive, abre-nos um novo horizonte: Jesus vem ao nosso encontro! E isto não é ilusão. É presença verdadeira! Ele vem caminhando mesmo sobre o mar agitado. Ora, o mar, na simbologia bíblica, é a habitação das forças malignas, representadas pelo terrível monstro Leviatã (cf. Jó 40,25). Assim, o caminhar de Jesus sobre as águas demonstra que os aguardados tempos messiânicos, em que todas as forças malignas seriam vencidas, realizaram-se definitivamente. Ele é Aquele a quem tudo foi entregue (cf. Mt 28,18), cujos inimigos foram colocados debaixo de seus pés (cf. Mt 22,44). Vindo ao encontro dos discípulos em dificuldade, Jesus dirige-lhes uma palavra de esperança: “Coragem! Sou Eu! Não tenham medo!”. Ora, “Sou Eu” é o próprio nome de Deus como Ele o revelou a Moisés: “Eu Sou Aquele que Sou” (Ex 3,14). Portanto, a presença do Deus Salvador, que outrora ouviu o clamor do povo oprimido no Egito e desceu para libertá-lo (cf. Ex 3,7-8), faz-se viva e atuante, agora, na pessoa de Jesus (cf. Mt 1,21). Assim, na vida cristã, podemos passar por aflições e sentir medo, mas sem sermos vencidos pelo desespero. Pois, se de um lado sabemos ser barquinha frágil navegando em um mar agitado, do outro temos certeza de que não estamos sozinhos, abandonados às nossas pobres forças. Temos Jesus, o Deus Salvador, que está sempre vindo ao nosso encontro para dizer-nos: “Coragem! Sou eu! Não tenha medo!”. E podemos sempre gritar-Lhe: “Senhor! Salva-me!”, na confiança de encontrá-Lo sempre pronto a nos estender a mão!

14 de agosto de 2011
20° Domingo do Tempo Comum
Mt 15,21-28


“Mulher, grande é tua fé!” (v.28) Este trecho relata uma questão muito debatida na comunidade cristã primitiva: o anúncio do Evangelho é só para os judeus ou também para os povos estrangeiros? Quem não é judeu pode ser cristão? O texto dos Atos dos Apóstolos (At 10,1-11,18) é um evidente testemunho da dificuldade de a comunidade cristã primitiva, composta, inicialmente, de convertidos do judaísmo, aceitar a participação de membros não judeus. Portanto, a resposta antipática que Jesus dá à pobre mulher estrangeira, que lhe implora a cura da filha: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-los aos cachorrinhos” (v.26) refere-se à polêmica da aceitação dos pagãos, muito candente na comunidade de Mateus. Na tradição judaica antiga, que ecoa em algumas passagens bíblicas, o termo “cachorro” aplicava-se aos inimigos, aos pecadores e aos povos pagãos idólatras (cf. Sl 22[21],17.21; Ap 22,15). Em outros temos, a fala de Jesus reacende a antiga questão: os estrangeiros têm direito a partilhar do banquete messiânico reservado aos judeus? O evangelho de Marcos, dirigido a uma comunidade formada predominantemente de pagãos convertidos, aponta a solução reconhecendo a precedência dos judeus: primeiro devem ser saciados os filhos (cf. Mc 7,27). Com isso, ele quer dizer que o anúncio do Reino, feito primeiro aos judeus, herdeiros da Promessa, foi, depois, partilhado com os não judeus. Trata-se, portanto, de uma precedência apenas cronológica. O cumprimento da Promessa, portanto, realizou-se para povo eleito, não para retê-la como propriedade exclusiva, mas para que se tornasse seu embaixador, comunicando-a a todos os povos. Destinado a uma comunidade de judeus convertidos, muito resistentes à admissão de membros estrangeiros, o evangelho de Mateus defende a possibilidade da participação deles no Reino anunciado por Jesus, desde que tenham fé. A questão não era fácil. Muitas pessoas influentes na comunidade justificavam o fechamento aos pagãos fundamentando-se nas próprias palavras de Jesus: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel” (v.24). O evangelista reage aceitando as palavras do Senhor, mas fazendo observar que, exatamente, seu comportamento justifica a abertura aos estrangeiros, pois, no final, Ele atendeu ao pedido da mulher cananeia por causa de sua fé (cf. v.28). Embora enredada na polêmica da admissão dos gentios na comunidade cristã, esta passagem se refere, essencialmente, à fé em Jesus Cristo. A mulher cananeia, mesmo reconhecendo-se estrangeira e excluída dos dons messiânicos reservados aos judeus, recorre a Jesus, prostrando-se diante d’Ele como a seu Senhor e Salvador (cf. v.25). Ela não se deixou intimidar com a resposta dura que recebeu, mas reagiu demonstrando uma fé inquebrantável: “É verdade, Senhor, mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!” (v.27). Por isso, não só obteve o que procurava, como também recebeu um elogio de Jesus: “Mulher, grande é tua fé! (v.28). Desse texto resultam, pelo menos, duas consequências concatenadas: a pertença ao novo povo de Deus, herdeiro das promessas messiânicas, não se dá mais por meio de uma nacionalidade específica, mas é consequência direta da acolhida de Jesus na fé. A segunda consequência, decorrente da primeira, é que a fé em Jesus supera todas as exclusões e discriminações, como afirma o apóstolo Paulo: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3,28). A fé cristã, portanto, bem assimilada e testemunhada, continua a ser uma alavanca poderosa para remover as numerosas exclusões e discriminações que prejudicam tantas pessoas e ameaçam a paz no mundo de hoje.

21 de agosto de 2011
Assunção de Nossa Senhora
Lc 1,39-56


“Elevada ao céu” Tradicionalmente, fala-se da Assunção de Maria como sua elevação ao céu acompanhada por coros de anjos, ou seja, pelo poder de Deus. Nisso se diferencia da Ascensão de Jesus que subiu ao céu pelo próprio poder. A Assunção de Nossa Senhora ao céu, porém, como a própria palavra indica, significa que ela foi, de modo inefável, assumida, isto é, admitida a tomar parte na realidade divina, na redenção realizada por Cristo em favor de toda a humanidade. Completa-se, portanto, sua participação jubilosa na redenção com a qual esteve ligada desde o início. Pois com o seu: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38), realizou-se a profecia do Emanuel (cf. Is 7,14), o Verbo Eterno encarnou-se em seu seio, unindo-se, sem se confundir, à nossa humanidade e se tornando-se o Deus-Conosco (cf. Mt 1,23). Ora, uma vez que a divindade se uniu definitivamente à humanidade, na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, já não se pode separar o humano do divino, como no filho não é mais possível separar pai e mãe, pois, no filho, ambos se tornaram um único ser. No filho, patenteia-se a unidade que Deus quis para os esposos e que é símbolo da sua Aliança com seu povo e da ligação de Cristo com a sua Igreja, pois no filho pai e mãe são, de fato, uma só carne inseparavelmente. A Assunção de Maria é, portanto, a expressão indizível do Amor de Deus que desposou a humanidade e se ligou a ela em uma unidade indivisível na Pessoa do seu Filho feito Homem. Graças à docilidade ao Espírito de Deus, Maria gerou o Verbo Eterno do Pai, pelo qual Deus se tornou uma só carne conosco e nós nos tornamos um só espírito com Ele. Assim, ninguém mais pode separar aquilo que Ele mesmo uniu (cf. Gn 2,24; Rm 8,31-39). A Assunção de Maria exprime, portanto, a fidelidade do Amor de Deus que desposou a humanidade com amor incondicional e em Aliança Eterna. Jesus, com frequência, comparou o Reino dos Céus a uma festa de casamento. Pois bem, a Assunção de Maria exprime o festim das núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19,7.9) com toda a humanidade, ou seja, assim como o fim de Maria não foi a corrupção do corpo, mas a assunção na realidade divina, a participação plena na Vida definitiva, também nós haveremos de ter o mesmo destino como humanidade redimida por Cristo.

28 de agosto de 2011
22° Domingo do Tempo Comum
Mt 16,21-27

“Vai-te atrás de mim, e não sejas Satanás!” Seguir Jesus não significa somente estar na companhia dele, mas implica uma “participação real” em seu destino. A exortação a tomar sobre si a própria cruz e segui-Lo pertence a esse contexto de participação em Seu destino. Em todos os três evangelhos sinóticos, tal exortação vem logo depois da profissão de fé de Pedro na região de Cesareia, que responde à interrogação de Jesus a seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16,13). Os discípulos responderam-lhe: “Uns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros, ainda, que é Jeremias ou um dos profetas” (Mt 16,14). Jesus, porém, devolveu-lhes a pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). Pedro, em nome dos demais, respondeu-lhe: “Tu és o Messias o Filho do Deus vivo!” (Mt 16,16). E o Senhor acrescentou: “Feliz és tu, Simão...” (Mt 16,17a). Essa resposta de Pedro tão bem formulada, que lhe valeu o elogio de Cristo, não o poupou, porém, de severa reprimenda posterior: “Vai atrás de mim, Satanás... porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!” (Mt 16,23). Com efeito, tal pergunta só pode ser respondida mediante o seguimento do Filho de Deus, que se encaminha para a paixão e morte de cruz (cf. Mt 16,21), o que Pedro rejeita de forma categórica, ao dizer: “Que Deus te livre, Senhor! Isto jamais te aconteça!” (Mt 16,22). Ora, com tal rejeição, ele deixa oca, desprovida de conteúdo a resposta bem formulada que dera antes. Por isso, a resposta do Senhor visa restabelecer Pedro como discípulo: “Vai atrás de mim, Satanás!”, quer dizer: seja-me um seguidor, não um opositor, alguém que faz o percurso comigo, não quem me barra o caminho; isso equivale a pensar como Deus, não como homem (cf. Mt 16,23). Somente passos concretos feitos no seguimento de Cristo podem nos dar o timbre de Sua identidade. Portanto, toda pergunta e toda resposta sobre a identidade de Cristo, desvinculadas do compromisso de Seu seguimento, permanecerão uma evasão que escamoteia o nosso pensar como homens, confinando-nos a um horizonte sombrio, sem o fulgor da luz admirável a que fomos chamados (cf. 1Pd 2,9). Com efeito, Jesus Cristo será sempre o que fizermos dele no percurso de nossa vida, ou seja, o significado de Sua Pessoa só se nos ficará evidente e tangível na história de um relacionamento com Ele, dedicando-lhe tudo, inclusive a própria vida (cf. Mt 16,24-25). A importância de Cristo para nós será, pois, proporcional ao que lhe dedicarmos (cf. Mt 16,25). Disse Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe: “É o tempo que perdeste com tua rosa que a tornou tão importante”. Portanto, a importância da rosa só é acessível pela dedicação a ela no transcurso do tempo, sem o que as perguntas formais: “O que é a rosa? ou para que serve?” permaneceriam mera especulação estéril, sem possibilidade de resposta.

4 de setembro de 2011
23° Domingo do Tempo Comum
Mt 18,15-20

Reunidos em nome de Jesus O que caracteriza a comunidade de Jesus é a pertença a Ele, a união no Seu nome. Mas, entre os discípulos, podem surgir discórdias e conflitos que ameaçam a integridade desse vínculo. Quando isto ocorre, é necessário empregar todo esforço na reconciliação. O fato de o texto dizer que, após as fracassadas tentativas de reconciliação, deve-se apelar para a Igreja significa que tal unidade entre os discípulos é tão vital, que todos devem se empenhar para buscá-la até as últimas consequências. Esta norma de conduta não é mera escolha subjetiva, mas é eclesial e sancionada pela autoridade divina, como se evidencia pela garantia do atendimento da oração dos dois discípulos que estão de acordo sobre alguma coisa, aqui na Terra (cf. v.19). Com efeito, o que se ressalta aqui não é, obviamente, o valor da oração comunitária, mas sim da concórdia restabelecida, que o texto original chama de “sinfonia”. Esta dá eficácia à oração. A sublimidade da união dos discípulos é manifestada também na última frase que soa como uma promessa: “Onde dois ou três estiverem reunidos no meu nome eu estarei no meio deles” (v.20). Os cristãos reunidos no nome de Jesus formam a comunidade escatológica na qual o Senhor está presente, conforme predisseram os profetas. Tal reunião é constituída pela própria relação com Jesus, o Filho de Deus e Senhor, que é a razão profunda de eles estarem juntos e assim quererem permanecer, superando divisões e discórdias que derivam do pecado. Uma comunidade que busca, a todo custo, viver reconciliada entre si e unir-se ao Senhor, mediante a oração, é o lugar perfeito para a presença de Deus, que se revelou como Salvador em Jesus Cristo.