SÃO FRANCISCO
DE ASSIS: O MODO EVANGÉLICO DE SER IGREJA.
A Restauração
da Igreja.
Introdução
Em uma época de inversão de valores,
onde a Igreja primitiva estava perdendo espaço
para a Igreja do poder institucional, e conseqüentemente
o surgimento de um clero cada vez mais decadente
e opressor. No meio deste caos surgem vozes proféticas,
capazes de denunciar aquilo que os cristãos
estavam vivendo não era a Igreja de Cristo.
Entre essas vozes uma que se destaca, não
pela eloqüência ou pela retórica
que pronuncia seus discursos, mas pela simplicidade,
humildade, pobreza e obediência de sua vida.
Este é Francisco de Assis, um homem que transformou
a história, pois queria ser como Cristo:
pobre e crucificado.
Este homem que restaurou a história da Igreja
e da humanidade, denunciando e ensinando com seus
atos e gestos, com o mais sincero desejo de amar.
Por isto, para podermos entender um pouco melhor
esta visão de Cristo e como conseqüência
de Igreja que Francisco propõem, temos que
entender primeiramente o contexto histórico
em que sua Igreja estava passando.
Analisaremos um pouco, no primeiro capítulo,
a situação da Igreja, veremos como
era o comportamento do clero e do papa perante seu
rebanho e a evangelização, o desejo
de reforma, a personalidade do papa Inocêncio
III e as mudanças que a sociedade estava
sofrendo.
No segundo capítulo veremos o contexto mais
intimo de Francisco, ou seja, o início de
sua vocação, as conseqüências
de sua conversão, seu grande esforço
de imitar Cristo pobre e crucificado. Entenderemos
o verdadeiro valor que move Francisco a ser um outro
Cristo: viver segundo o Santo Evangelho de nosso
Senhor Jesus Cristo.
Finalizando este trabalho no terceiro capítulo
veremos que a proposta de Francisco não parou
na Idade Média, pois como o evangelho é
proposta para todos os tempos, Francisco ainda hoje
é testemunho de uma vida voltada aos valores
evangélicos. Neste terceiro capítulo
compararemos alguns ideais de Francisco com os ideais
do Concílio Vaticano II, e iremos entender
a grande proposta de salvação à
biodiversidade para os dias de hoje: a irmandade
universal.
Assim como a semente do Verbo se espalha em todo
o mundo, Cristo se faz presente também em
sua Igreja que somos nós e o Evangelho que
é sempre atual nos impulsiona a sermos "outros
cristos", como São Francisco. Busquemos
entender neste trabalho aquilo que este jovem de
Assis intuiu e que o mudou sua vida, para assim
entendermos o verdadeiro sentido de ser cristão
e de amar a Igreja como Francisco fez.
CAPÍTULO
I
A situação da Igreja no fim do século
XII e século XIII.
Como uma época
pode ser mística e ao mesmo tempo depravada,
santa e ao mesmo tempo pecadora? Essa é a
Idade Média e é nesse contexto que
vamos conhecer melhor a realidade de uma igreja
e de um povo.
Esta época é marcada por várias
alternâncias de comportamento no clero e nos
religiosos em geral, muitos daqueles que se diziam
consagrados de corpo e de alma no projeto do evangelho
estavam promovendo um verdadeiro anti-testemunho
perante a sociedade; o povo estava cada vez mais
desolado com as atitudes de seus pastores, que em
vez de anunciar a Boa-Nova com suas pregações
e seu modo de viver, estavam na verdade mostrando
a parte podre de uma classe desorientada. No entanto,
neste ínterim muitos religiosos no meio do
caos mostraram também que não se deve
perder as esperanças:
Reportando-nos apenas
aos textos de testemunhas indiscutíveis,
traçaríamos um quadro atroz dum clero
ignorante, cúpido, libidinoso, por vezes
mesmo criminoso, quadro que, evidentemente, devia
ser equilibrado pelos muitos retratos desses padres,
desses monges e desses bispos, conhecidos ou anônimos,
que foram santos e deram testemunho das mais elevadas
virtudes.
A situação
dos curas nos séculos XII e XIII, na grande
maioria, era de pura libertinagem onde os padres
(curas) eram ignorantes e buscavam somente satisfazer
seus negócios e prazeres:
Desde a Cúria
romana, da qual Jacques de Vitry dizia: 'que todos
estavam ali tão ocupados com negócios
temporais e mundanos que as coisas espirituais eram
totalmente passadas em silêncio', até
esses curas que São Bernardo havia retratado
como 'escravizados pela avareza, governados pelo
orgulho e que ostentavam as suas abominações
até nos santos lugares', ninguém está
indemne (íntegro) .
E ainda, os padres
não tinham uma educação adequada,
em seminários e nem formação
capaz de fazer do sacerdote um verdadeiro pastor,
mas pelo contrário, o clero era somente um
instrumento para levar alguns sacramentos sem qualquer
preparação ao povo:
A ignorância
é geral no baixo clero, que está,
pouco mais ou menos, ao nível das suas ovelhas.
Muitos curas conheciam apenas as grandes linhas
do Evangelho, ou certos episódios mais impressionantes
que, mesmo assim, misturavam mais ou menos com lendas.
Quanto à teologia moral, nem disso se falava.
Os grandes males
que assolavam grande parte do clero, em conseqüência
da má formação dos padres,
eram a simonia e o concubinato:
Estava mal armado
para se defender contra as duas tentações
do homem: a da carne e a do dinheiro. (...) Reportando-nos
ao século XIII, podemos coligir, em menos
de vinte anos, uma centena de documentos pouco edificantes:
em Nórvico, há padres que se casam;
em Tournai, outros têm concubinas; em Ratisbona,
há curas que são pais de numerosas
famílias, e não é evidentemente
por acaso que o concílio de Paris de 1212
fulmina com severas sanções as 'faltas
carnais contra a natureza', cometidas por clérigos.
Quanto à
simonia, era comum "solicitar um cargo eclesiástico
em troca de bens temporais," os sacerdotes
procuravam vender os sacramentos, cargos e outras
coisas ditas sagradas, pois a avareza, o gosto pelo
luxo e a falta de honestidade imperavam em certo
lugarejos da Europa medieval.
a) O desejo da reforma.
Com a decadência
dos Cristãos, porém, surge o espírito
da reforma, que buscava a renovação
do cristianismo, pois esta mesma Igreja estava sentindo
que não se vivia o seu carisma, o seu verdadeiro
modo de ser na terra, a Igreja em todo o seu conjunto,
leigos, padres, religiosos, bispos e papas queriam
redescobrir a vocação de ser cristão:
Surgiram então,
nas fileiras dos cristãos, almas heróicas,
cheias de amor de Cristo e respeito pela Igreja,
que não tinham verdadeiramente outro desejo
senão o de Deus e da sua justiça,
que se identificavam visivelmente com os crentes
dos primeiros tempos, os Mártires e os Apóstolos,
e nem um só momento pensaram em fugir à
obediência. Esses homens chamar-se-ão
sucessivamente Gregório VII, São Bernardo,
São Bruno, São Norberto, São
Francisco de Assis e São Domingos: foi por
seu intermédio que se realizou a 'revolução
permanente cristã', sem soçobrar na
vã anarquia .
No meio da busca
por uma reforma de toda a Igreja, surgiu o papa
Gregório VII que lutou com todas as suas
forças para essa reforma, pois via a Igreja
adoecida e acreditava poder melhorar se realizassem
uma verdadeira reforma em seu interior, nos membros
do corpo místico de Cristo. A reforma gregoriana
tinha o desejo de retornar a vida evangélica
dos apóstolos, considerada modelo e norma
para toda a Igreja. A reforma não teve somente
"momentos evangélicos", especialmente
quando buscou interpretar a função
do papa e do imperador na sociedade:
Podemos ainda considerar
a reforma gregoriana como um esforço cujo
objetivo era separar os campos do temporal como
um espiritual; ficava entendido que o Papa era o
pai de todos, com especial referência ao imperador,
que exercia seu poder como uma função
em benefício da Igreja, e podia ser censurado,
excomungado e até deposto se deixasse de
ser conveniente ao bem comum. Os grandes papas do
século doze, principalmente Adriano IV e
Alexandre III, fizeram progredir esta tese, de modo
especial na lua contra o imperador Frederico I Barbarruiva.
Com o passar dos
tempos os papas buscaram uma restauração
de toda a Igreja, e assim surgiu uma grande preocupação
na questão moral e disciplinar dos padres,
muitos deles se revoltaram contra a reforma, pois
ela os atingia diretamente.
A ação
dos papas com as decisões conciliares, encontravam
a resistência, que nem sempre era tácita
dos interesses e das paixões. Em princípio,
a simonia e o casamento dos padres estavam, desde
o princípio do século XIII, considerados
por toda a parte como condenados, e isso era já
uma grande aquisição. Na prática,
as coisas não corriam tão bem
Estamos em uma
época muito importante para toda a Europa,
é uma época de profundas mudanças,
inclusive de paradigma social, onde o sistema feudal
está se rompendo por causa da introdução
do dinheiro como instrumento econômico. Além
de que o surgimento das comunas rompe a estrutura
de sustentação do sistema feudal :
no fim do século XII, se produzem profundas
transformações na sociedade, que nela
se introduziram novos costumes, trazidos do Oriente
pelos cruzados e viajantes, e que o enorme desenvolvimento
do comércio fez afluir o dinheiro e os seus
perigos. É o momento em que o regime feudal
começa a declinar; os servos emancipam-se,
as cidades desenvolvem-se e os espíritos
modificam as suas atitudes fundamentais, trabalhados
por novas curiosidades. Literalmente o mundo europeu
mudou as bases.
A crise interna
da Igreja mais a mudança de mentalidade da
sociedade geraram críticas para condenar
a Igreja e todo o seu sistema, surgiram vários
pregadores não autorizados, contestadores
da hierarquia eclesiástica e heterodoxos,
que propunham aos cristãos novas formas de
se viver o cristianismo, criticando severamente
aquela atual forma institucional da Igreja:
As causas que levaram
estes pregadores e seus movimentos ao caminho da
heterodoxia foram a recusa em aceitar a legislação
da Igreja que restringia a pregação
aos clérigos ou a quem recebia autorização
(concedida aos leigos com dificuldade até
o fim do séc. XII); a insistência em
opor sua vida evangélica, apostólica
e pobre, à vida da Igreja institucional (bispos,
monges, clero); a justa exigência de uma vida
moral digna por parte de quem administrava os sacramentos,
fez afirmar que bispos, padres e monges, indignos
não tinham o direito de pregar, nem de administrar
os sacramentos, enquanto os que levavam vida 'pobre,
apostólica e evangélica' tinham estes
direitos, ainda que não ordenados. O povo
cristão não tinha como distinguir
entre a certa e falsa doutrina; era mais atraído
pelo rigorismo moral e pela vida pobre que tais
grupos conduziam do que por sua doutrina.
Surge uma reformulação
da reforma, "essa reforma devia visar uma restauração
dos valores morais, uma reanimação
da massa pelo fermento do entusiasmo e da fé,
mas devia corresponder também às novas
expectativas." Assim a igreja deveria se preocupar
com a falta de moralidade de seus padres e ao mesmo
tempo combater os hereges que procuravam destruir
a sua integridade institucional.
b) Inocêncio
III
O papa Inocêncio
III ( pontífice de 1198 a 1216) surge neste
contexto e, como seus antecessores, continuou o
pensamento da reforma, "por isso, desde o início
do seu reinado, as bulas hão de manifestar
uma vontade inexorável de combater os velhos
erros, a simonia e o nicolaísmo."
Esse, com certeza, foi um dos maiores papas da Idade
Média, e talvez o mais poderoso de toda história
da Igreja, preocupando-se muito em defender os interesses
de poder em seu pontificado. "Inocêncio
III defendeu desde o início de seu pontificado
a origem divina dos dois poderes, o espiritual e
o temporal, sendo que o espiritual é superior
ao temporal em dignidade e extensão"
. Inocêncio III, em suas cartas, demonstrava
que o poder da Igreja era superior a todos os poderes
que existiam na terra, e por ser o papa, ele era
o mais poderoso de todo o planeta, era uma mentalidade
que colocava Cristo como o rei do universo e o papa
como seu principal representante aqui na terra,
superior a todos os reis:
O Papa é
o vigário de Cristo, o vigário de
Deus, está colocado acima dos povos e dos
reis para arrancar e destruir, edificar e plantar,
com uma plenitude de poder que é mais divina
que humana. O poder do Papa está para o Imperador
como o sol para a lua; sua luz não apenas
é mais fraca, mas é participação
da luz do sol .
Assim o papa político
e oportunista conseguia levar a idéia de
um Deus rico e poderoso que nenhum rei na terra
poderia superar, que em sua cátedra pontifícia
poderia levar até as últimas conseqüências
seus argumentos para justificar o seu poder: "Cristo,
como Deus, é a cabeça e o rei supremo
de todos os homens; ora, ele deu a Pedro e aos seus
sucessores todos os poderes; portanto..." o
papa é a cabeça e o rei supremo de
todos dos homens na terra.
Mas, por outro lado, também não podemos
esquecer que esse Papa teve uma grande sensibilidade
em acolher movimentos (Ordens Mendicantes) que estavam
surgindo no seio da Igreja, que sem o seu consentimento,
nunca teriam subsistido. Esses movimentos vinham
de acordo com a carência que o povo estava
sofrendo perante a tantas heresias e desorientação
do clero.
Verificou que, para
lutar contra a heresia e para misturar o fermento
na massa cristã, não bastariam os
antigos métodos, e isso fez-lhe nascer o
projeto de suscitar uma nova forma de pregação,
mais próxima do povo e melhor armada. Imaginou
homens de grande fé, cheios de ideal evangélico,
desprendidos dos bens do mundo e capazes de irem
até aos humildes com as mão abertas,
para lhes voltarem a dizer as palavras do amor e
da verdade
E em meio ao caos
e a tanta turbulência, eis que surge um rapaz
franzino, dos arredores da Umbria, da cidade de
Assis, cidade marcada pela guerra: "em 1199-1200
foi travada a guerra civil entre os nobres e a burguesia
aliada com o povo, para a destruição
de castelos e torres dos feudatários no território
entre Assis e Perúsia" , mas que revelou
em um de seus filhos, Francisco, a esperança
para uma melhor compreensão da igreja e da
sociedade. Como esse jovem foi capaz de mudar os
rumos da história do cristianismo, de mostrar
o caminho no meio da escuridão, capaz de
ser referencial até os dias de hoje?
CAPÍTULO II
O perfeito seguimento a Cristo.
1- Francisco e sua
grande descoberta
São Francisco
é com certeza, não só para
os cristãos, mas para toda a humanidade,
uma grande personalidade, um exemplo e modelo para
todos aqueles que buscam a "paz e o bem"
consigo, com os outros, com a natureza e com Deus.
Qual foi o grande mistério que ele conheceu?
Qual foi a grande descoberta feita por este homem
da Idade Média, para poder ser referencial
até os dias de hoje?
a) Francisco e o
encontro com o Senhor.
Francisco foi um
jovem comum de sua época, tinha vários
amigos, era um bom comerciante de tecidos, gostava
de festas, comidas, bebidas, roupas finas, jogos
e cânticos: "liberalíssimo nos
gastos, a tal ponto que gastava em jantares e outras
coisas tudo que podia ter e lucrar" . E ainda
mais, tinha um grande sonho, queria ser cavaleiro.
Passado algum tempo de sua vida, durante a Guerra
entre Perusa e Assis, foi preso pelo exército
de Perusa e ali passou cerca de um ano, onde adoeceu
gravemente. Resgatado por seu pai mediante pagamento
de fiança, não se deixou abater, mas
apegado aos "sonhos de nobreza", com o
ideal de se tornar um cavaleiro, ei-lo a caminho
de outra Guerra: a das Púlias, quando surge
um outro sonho que muda completamente sua vida:
No entanto, preocupado
com sua viagem, quando se entregava ao sono ouviu,
ainda semidormente, alguém perguntar-lhe
aonde desejava ir. Tendo-lhe Francisco exposto seu
plano completo, aquele acrescentou: 'Quem te pode
fazer melhor? O Senhor ou o servo?' ao responder-lhe:
'O senhor', disse-lhe de novo: 'Por que, pois, deixas
o Senhor pelo servo e o príncipe pelo vassalo?'
E Francisco disse: 'Senhor, que queres que eu faça?'
- 'Volta para tua terra (...)'
Francisco abandona seus projetos, suas "seguranças"
de um futuro promissor como nobre e cavaleiro para
escutar uma voz misteriosa, aquela voz lhe provoca
no íntimo a dar um passo a mais na caminhada
de fé.
Pode-se dizer que este foi o primeiro chamado que
Deus lhe fez: o de abandonar todos os planos que
não levam ao verdadeiro "Senhor".
Estava em jogo por tanto, a conversão de
Francisco, é aqui que ele começa a
descobrir uma nova imagem de Deus mais evangélica
e um Senhor diferente dos senhores medievais. Mas
a verdadeira conversão de sua vida ainda
estava para acontecer, quando este Senhor o chama
a vencer-se a si mesmo, por ter horror a leprosos;
é quando o amargo em sua vida se tornaria
doce:
(...) fazendo violência
a si mesmo, apeou do cavalo e ofereceu-lhe um denário,
beijando-lhe a mão. Recebendo dele o ósculo
da paz, montou de novo e seguiu seu caminho. (...)
Dias depois, tomando bastante dinheiro, dirigiu-se
para o hospital dos leprosos e, reunindo todos juntos,
deus a cada um uma esmola, beijando-lhes a mão.
Ao se afastar, realmente o que antes lhe era amargo,
saber, ver e tocar leprosos, mudou-se em doçura
O encontro com o
leproso é um marco de mudança radical
em sua vida, de agora em diante ele não é
o mesmo, ele vê o mais pobre dos pobres de
sua sociedade com um Amor que só Deus poderia
ter.
Após abandonar os projetos que não
levam ao verdadeiro Senhor, e ver no mais pobre
e excluído a doçura do Amor, é
que se pode então escutar a voz do crucificado:
"Francisco, não vês que minha
casa está se destruindo? Vai, pois, e restaura-a
para mim". Mal sabia ele de qual restauração
Cristo estava falando! Entendendo inicialmente que
se tratava daquela igrejinha, põe-se a reconstruí-la,
para só bem mais tarde compreender que se
tratava de reconstruir, a partir de si e de sua
Ordem, a pureza evangélica na Igreja de Cristo,
longe do dinheiro e do poder que corrompe.
b) Francisco seguidor
de Cristo.
"Cristo era
tudo para Francisco. (...) em Francisco, sua doutrina
sobre Cristo (cristologia) se converte em biografia
e, por este motivo, Francisco foi definido como
um outro Cristo".
Jesus se encarnou para revelar a verdadeira face
de Deus, um Deus que não fica preso às
determinações dos homens: "O
Deus de Jesus é livre para ser o que ele
é, e nesse sentido não se submete
às nossas manipulações: ele
não é manipulável; é
o Deus dos pequenos, dos pecadores, um Deus próximo
da humanidade, o Deus do Reino". Jesus Cristo
teve como missão mostrar a todos que Deus
é Pai e, para isso teve como tema central
o anúncio o Reino de Deus:
Jesus com o seu
modo de dizer e fazer as coisas não revela
apenas que o Reino está iminente, mas o contém
em germe: o início e o desenvolvimento do
Reino acontecem juntamente com a Palavra e o gesto
de Jesus, capaz de fazer com que o homem com boas
disposições entre no senhorio do Pai.
Francisco foi aquele que quis conhecer profundamente
este Reino que Jesus anunciava:
Se o reino de Deus significou a experiência
originária de Jesus Cristo, e se Reino de
Deus quer dizer total reconciliação,
paz, senhorio absoluto de Deus sobre todas as coisas,
libertando-as definitivamente de tudo o que é
inimigo para deixar Deus ser tudo em todas as coisas
(cf. I Cor 15,28), então devemos dizer que
foi exatamente esta a experiência buscada
e realizada por São Francisco.
Em toda sua vida de convertido, Francisco buscava
se confrontar com Cristo, e se conformar a Ele,
seguindo de forma radical tudo aquilo que encontrava
no Evangelho com confiança total nos projetos
que o Pai lhe propunha: deixar dinheiro, fama, poder
e prazeres para abraçar a cruz como fonte
e cume de toda a Revelação.
Como diz Tomás de Celano:
Sua maior aspiração,
seu mais vivo desejo e mais elevado propósito
era observar o Evangelho em tudo e por tudo, imitando
com perfeição, atenção,
esforço, dedicação e fervor
os 'passos de nosso Senhor Jesus Cristo no seguimento
de sua doutrina'. Estava sempre meditando em suas
palavras e recordava seus atos com muita inteligência.
Gostava tanto de lembrar a humildade de sua encarnação
e o amor de sua paixão, que nem queria pensar
em outras coisas.
Francisco tinha
tão profundamente o desejo de seguir Jesus
nos seus atos e na sua vida que para ele o seguimento
do modo exterior: pregar de dois a dois, viver pobre,
repetir a última ceia, servir o outro lavando
os pés, etc, era somente o modo de expressar
aquilo que sentia em seu interior: "A pobreza
(...) é a forma mais perfeita da imitação
de Jesus Cristo que foi pobre interior e exteriormente.
Esvaziou-se, pela encarnação, de forma
completa e total. Pela pobreza, Francisco quis pôr-se
nesta mesma experiência."
Francisco conhecia muito bem o que era ter dinheiro,
apesar de não ser nobre de sangue, seus pais
sempre lhe deram uma vida de príncipe, tinha
muito e principalmente gastava muito. Essa radical
conversão em sua vida, de ser totalmente
pobre, revelou-lhe um tesouro muito maior que todos
os que já teve em sua vida.
Esse jovem de Assis descobre na pobreza algo de
tão extraordinário que chocou seus
pais, a sociedade e a Igreja de sua época,
pois todos tinham nas riquezas a certeza das bênçãos
de Deus. Francisco, ao contrário, via na
imitação de Cristo pobre, a certeza
da riqueza de Deus (o Reino de Deus), como o próprio
Francisco diz em sua Regra não Bulada: "Cuidemos,
portanto, nós, que tudo abandonamos, que,
por tão pouco (dinheiro), não percamos
o Reino dos Céus."
Francisco busca na pobreza dos bens temporais a
riqueza de ser livre, desapegado de todas as coisas,
sendo simplesmente aquilo que ele é: irmão
de toda criatura. Ele sabia que quanto mais vazio
e pobre for naquilo que o prende em seu egocentrismo
mais espaço vai haver para viver a riqueza
do Reino, ou seja, ser realmente Filho de Deus.
Francisco queria que todos os seus irmãos
vivessem como pobres e com os pobres, para assim
viver a experiência de ser como Cristo, totalmente
desapegado de si mesmo, entregue aos desígnios
do Pai. Por isso, Francisco deixa para seus irmãos
como regra:
Todos os irmãos
empenhem-se em seguir a humildade e a pobreza de
nosso Senhor Jesus Cristo e recordem-se de que nada
mais nos importa ter do mundo inteiro, a não
ser como diz o Apóstolo: 'tendo alimentos
e com que nos vestir, estejamos contentes com isto'(1Tm
6,8). E devem alegrar-se quando estiverem entre
pessoas vis e desprezadas, pobres e débeis,
enfermos, leprosos e mendigos de rua. E quando necessário
recorram às esmolas. (...)E a esmola é
a herança e a justiça devida aos pobres.
A qual nos adquiriu nosso Senhor Jesus Cristo (...)
porque tudo o que os homens deixarem no mundo perecerá,
mas da caridade e das esmolas que fizeram, terão
o prêmio do Senhor.
A diferença
de Francisco para os outros movimentos que pregavam
a pobreza era que Francisco queria viver como Cristo
pobre na cruz e não usar da pobreza como
arma de condenação para os outros,
sendo testemunha viva de Cristo em sua época:
Em sua caminhada
pessoal, Francisco logrou mergulhar de tal forma
no Mysterium Paupertatis do Filho de Deus que pôde
torná-lo visível aos seus contemporâneos
que puderam reconhecer nele a epifania do crucificado.
Quando Francisco descobre esse grande tesouro de
sua vida, ou seja, a pobreza de Cristo, contempla-a
de um modo tão intenso, com tanto amor, que
em tudo podia contemplar Cristo, principalmente
nos pobres:
Pai dos pobres,
o pobre Francisco queria viver em tudo como um pobre:
sofria ao encontrar quem fosse mais pobre do que
ele, não por vanglória, mas por íntima
compaixão. (...) Costumava dizer: 'Quem amaldiçoa
um pobre injuria o próprio Cristo, de quem
é sinal, pois ele se fez pobre por nós
neste mundo.'
Francisco teve
em Cristo, não um Deus distante, que está
somente atrás das paredes das Igrejas, onde
o procuram somente no momento que precisam. Para
Francisco, Jesus não é um resolvedor
de problemas e sim a imagem do pobre e crucificado
e o Deus revelado nas Sagradas Escrituras, às
quais amava e meditava continuamente a ponto de,
em sua hora extrema, dizer a um de seus frades:
"Eu já de tanta coisa das Escrituras
que tenho o suficiente para recordar e meditar.
Não preciso de mais nada, filho. Conheço
o Cristo pobre e crucificado".
Por isto podemos dizer como Boff:
Francisco se constitui assim um espelho de Cristo
porque para ele Cristo foi um espelho no qual se
espelhou e, ao longo da vida, descobriu sua própria
identidade. Ao espelhar-se em Cristo, pôs-se
no caminho de seu assemelhamento, até o ponto
de poder reproduzir em si a imagem do próprio
Cristo. Então espelho e imagem, sem perderem
sua identidade própria, chegaram a uma identificação.
2- Francisco descobre
em Cristo a Imagem do Pai.
A idéia
de pai que Francisco tinha desde sua juventude era
de um pai autoritário e preocupado muito
em ganhar dinheiro, poder-se-ia dizer, com base
nos escritos franciscanos, que toda ambição
do pai de Francisco, Pedro de Bernardone, como de
qualquer comerciante, era ser poderoso e rico. Francisco
se despiu em praça pública e se despe
também dessa compreensão de pai, e
revela o Pai que conheceu a partir do encontro com
o crucificado:
Até agora,
chamei Pedro de Bernardone meu pai, mas porque me
propus servir a Deus, devolvo-lhe o dinheiro, por
cuja causa estava perturbado, e todas as vestes
que obtive com seus bens, querendo sem demora dizer:
Pai nosso que estás nos Céus, não
pai Pedro Bernardone.
Francisco após
ter acolhido o chamado de Cristo é uma nova
pessoa que encontrou um grande tesouro, o seu seguimento
é totalmente de íntimo contato com
o mistério de Jesus Cristo. A sua cristologia
é a do seguimento a Cristo. E nesse confronto,
Francisco encontra a principal revelação
de Cristo para a humanidade, Francisco descobre
em Cristo a imagem do Pai:
Em razão
da paternidade divina revelada por Jesus, todos
os que fazem do Evangelho sua única 'regra
e vida' (RB1) devem viver como 'familiares (fraternidade)
entre si'(RB6) e assim a comunidade franciscana
deve ser como uma mãe, cujos filhos devem
amar-se mutuamente como irmãos (...). Identificando
a observância do Evangelho com a imitação
da doutrina e dos exemplos do Senhor Jesus, Francisco
se sente principalmente atraído pela 'humildade
da Encarnação e pela caridade da Paixão'(ICel
84).
Na época
de Francisco (como na maioria das épocas)
a diferença social era muito grande, com
o início da sociedade artesanal-comercial,
com o surgimento das cidades com uma economia mercantilista,
na qual o trabalho dos comerciantes servia como
meio de acumulação e enriquecimento;
aqueles que vinham do meio rural, de dentro do sistema
feudal entravam em uma realidade totalmente nova:
A estratificação
social pela linhagem de sangue do sistema feudal
foi substituída pela hierarquização
econômica. Formou-se uma grande massa de "menores",cuja
situação ficou pior que antes , pois
com a quebra do juramento de fidelidade ao senhor
feudal tinha perdido o amparo que este lhes assegurava
em tempos de precisão. No meio rural normalmente
o pobre tinha o que comer e vestir. Na cidade, porém,
o empobrecimento por falta de trabalho, exploração,
remuneração insuficiente para as necessidades
de uma pessoa ou de uma família, não
tinha outra solução a não ser
a mendicância, algumas vezes como único
meio de subsistência e outras como "renda"
auxiliar integrativa do salário insuficiente.
Depois dos leprosos e dos banidos pelas autoridades
públicas, os menores eram os verdadeiros
pobres do tempo.
É nessa
realidade que Francisco vivia e será com
esses pobres que vai conhecer o sentido de ser pobre.
É com o nome de menores* que ele identifica
a sua Ordem, e vai ser nesse constante confronto
com os pobres que Francisco vê o Deus de Jesus
Cristo como Pai: "Francisco, no momento de
ruptura definitiva com seu 'mundo' (...) chama,
como Jesus, Deus de seu Pai, porque Deus é
Pai de verdade, que rompe com um mundo contrário
ao Amor Fraterno entre os homens".
A pobreza de Jesus Cristo para Francisco é
o desapegar total do egoísmo, da ganância,
do sentido do poder e da riqueza que levam à
marginalização, a exclusão
e a pobreza do indigente.
Quando Francisco descobre na pobreza de Cristo crucificado
o verdadeiro sentido do "ser de Deus",
descobre que Deus é despojamento do seu próprio
egocentrismo, é pura gratuidade, simplicidade,
humildade:
O despojamento de
Francisco e sua total disponibilidade aos irmãos,
segundo a imitação de Cristo, cresce
proporcionalmente à sua contemplação
do Deus revelado em Jesus Cristo humilhado e crucificado
pelos homens, porque somente esta atitude prática
torna possível a percepção
da absoluta 'alteridade de Deus'.
Francisco entendeu de Cristo que para fazer a vontade
do Pai se tem que esquecer de si mesmo ("Meu
Pai se é possível, que passe de mim
este cálice: contudo, não seja como
eu quero, mas como tu queres." ) e tomar a
cruz todos os dias, como Tomás de Celano
escreve: "Viveu sempre na cruz, sem fugir jamais
das fadigas ou sofrimentos, para poder cumprir por
si mesmo e na sua pessoa a vontade de Deus."
Só se busca seguir alguém quando se
encontra neste "alguém" algo que
fascina tanto que não se consegue ficar longe,
é algo que cativa na profundeza do mais intimo.
Francisco queria que toda a sua fraternidade fosse
imagem de Cristo, e para isto deveriam viver na
mesma forma do Santo Evangelho: "E depois que
o Senhor me deu irmãos, ninguém me
mostrou que deveria fazer, mas o próprio
Altíssimo me revelou que eu deveria viver
segundo a forma do Santo Evangelho".
Viver segundo a forma do Santo Evangelho é,
para Francisco, antes de tudo, viver na prática,
no dia-a-dia, os ensinamentos de Cristo. Para Francisco,
não adianta nada saber interpretar o Evangelho
numa pregação e não saber interpretá-lo
na vida. O Reino de Deus acontece quando há
conversão, quando há mudança
de mentalidade (metanóia). Há conversão
de uma pessoa quando esta sai daquela mentalidade
de querer ser o "todo-poderoso", capaz
de destruir o próximo para atingir os seus
objetivos e atingir uma nova mentalidade: a mentalidade
do amor ao próximo, do perdão, da
gratuidade, ou seja, de um amor semelhante ao amor
que Deus tem para com a humanidade: amor comprometido,
gratuito ao outro (principalmente ao mais pobre).
A preocupação principal de Francisco
foi pregar pelas obras *.
Francisco buscou na sua vida tamanha imitação
a Cristo nos gestos, nas palavras, no modo de viver
que em um monte chamado Alverne:
(...) se torna perfeita
imitação de Cristo, ele também
suspenso entre a terra e o céu, em arroubo
estático. Chegou a este ponto precisamente
porque viveu aquilo que é o cerne do Evangelho,
vivendo, como Jesus, totalmente esquecido de si
para acolher o Deus de absoluta novidade, como irmão
amoroso dos miseráveis e sofredores.
Francisco viveu
e contemplou em sua vida a humildade de Cristo,
e é esta característica de Deus que
ele mais admira e imita:
"Humildade no hábito, mais humilde no
sentimento e muito mais humilde no conceito que
fazia de si mesmo, nada se percebia que este príncipe
de Deus fosse um prelado, a não ser por esta
claríssima jóia: conseguira ser o
mínimo entre os menores".
É nesse Deus pobre e humilde, que se encarnou
para mostrar à humanidade o Amor do Pai que
Francisco procura amar, servir e imitar:
Francisco vê,
admira e é fascinado pelo Amor Divino que
se revela pobre e humilde: no menino de Belém
representado em Greccio; no conviver, conversar
e agir entre os homens por parte de Jesus pobre,
peregrino, hóspede; na doação
radical de Jesus na cruz como 'entrega' da própria
vontade para realizar a vontade Salvífica
do Pai, na contínua presença e oferta
de Jesus aos homens também agora, em forma
humilde, pobre, escondida - sendo já o Senhor
glorioso - na sua Palavra, na Igreja, nos sacerdotes,
nos pobres, nas espécies eucarísticas.
Em todos esses lugares e essas formas de presença,
vê, admira e convida a contemplar e a louvar
o amor humilde de Deus revelado no Filho e por Ele,
se sente chamado, atraído a corresponder
a um tal amor divino.
E foi exatamente
na pobreza e humildade de Deus que Francisco mostra
a toda sociedade de sua época uma "redescoberta"
dos verdadeiros valores do Reino, um cristianismo
vindo diretamente da fonte:
Esta lição
que Cristo deixou aos seus seguidores: amar os próprios
irmãos por amor a Deus a ponto de morrer
por eles para não ofender o amor fraterno
(Cf. Adm 3,9). Francisco desejava instaurar de novo
a relação originária com Deus
rompida pelo pecado, imitando perfeitamente Jesus
Cristo no despojamento total de todo o ter e na
recusa radical de um modo de vida que, na Sociedade
Medieval, era causa de tantos sofrimentos para os
menos afortunados e para os marginalizados de toda
espécie e que transformava essa sociedade
numa realidade completamente oposta à Família
Trinitária.
3- Francisco intui
um "jeito novo" de ser Igreja.
Como foi visto
no capítulo I, a situação da
Igreja na época de Francisco não era
das mais santas, era uma Igreja preocupada com o
poder e com riquezas.
A Igreja desde Teodóseo I, quando se tornou
a Igreja oficial do Império teve que assumir
a condição política e cultural
do Ocidente e, com isso, progressivamente, foi assumindo
o poder civil e religioso de toda Europa:
A partir do século VIII, ele (clero) foi
se constituindo num corpo sociológico à
parte até realizar seu pleno domínio
sob Gregório VII e Inocêncio III, na
época de S. Francisco. Erige-se então
o clericalismo que significa a concentração
total do poder sagrado nas mãos do clero.
Com o clericalismo,
a Igreja primitiva dos apóstolos é
praticamente esquecida, ou deixada de lado, ultrapassada.
O objetivo, agora que estão no poder, não
é mais refletir sobre aquele Jesus de Nazaré
que viveu no meio do povo, foi pobre e despreocupado
em buscar poder entre os homens. O cristianismo
quando ganha o poder na sociedade, esquece os ensinamentos
de Cristo que diz:
"Aquele que quiser tornar-se grande ente vós
seja aquele que serve, e o que quiser ser o primeiro
dentre vós, seja o vosso servo. Desse modo,
o Filho do Homem não veio para ser servido,
mas para servir e dar sua vida como resgate por
muitos".
A Igreja quando ganha o poder esquece de sua vocação
de serviço de misericórdia, de amor
para com o próximo e se volta somente à
busca de adeptos. Tenta-se cristianizar o máximo
possível para que cada vez mais o Império
cresça e assim se torne mais forte e poderoso,
o interesse era conquistar e dominar o mundo:
Não se reflete
mais a partir do Jesus histórico, fraco em
poder e forte no serviço, deixando a utopia
de uma comunidade de irmãos (cf. Mt 23,8),
mas a partir da Unicidade de Deus, Criador do Cosmo.
Este Deus único é representado pela
única cabeça do Papa, 'Deus visível
sobre a terra', como dizia o Papa Gregório
II. Ou então em termos cristológicos:
a única cabeça invisível do
corpo da Igreja, Cristo, se torna visível
no Papa cabeça visível da Igreja.
Percebe-se com
a clericalização um grande distanciamento
do povo como agente membro vivo da Igreja, e passam
a serem considerados simples leigos onde seu papel
restringe em assistir as missas, sacramentos, pagar
dízimos e ofertas. A Igreja se torna a dos
clérigos, os padres são os verdadeiros
"donos" da Igreja, e o papa é o
grande representante de Deus na terra, por isto
podiam usar o silogismo:
Deus é dono de tudo.
O papa é o representante de Deus na Terra.
Logo o papa era dono de tudo.
Com isto o papa era considerado o mais poderoso
governador de todo o mundo.
A atitude de Francisco perante essa Igreja leva
ao questionamento os maiores protestantes e revolucionários
que criticavam a instituição naquela
época. Francisco não criticava a Igreja
com cartas, com debates em praça pública,
com exposições contra e sim denunciava,
criticava os exageros, a síndrome de status
e riquezas com sua maneira de viver. Não
precisava escrever nada, só o seu jeito de
ser levava as mais altas autoridades da Igreja ao
questionamento.
Francisco tinha consciência de que existiam
muitos sacerdotes pecadores, mas mesmo assim pede
para seus confrades a terem reverencia aos clérigos:
Bem-aventurado o
servo que põe fé nos clérigos
que vivem retamente segundo a forma da Igreja Romana.
Ai daqueles que os desprezam! Pois, embora sejam
pecadores, ninguém deve julga-los, porque
o próprio Senhor reserva só para si
o poder de julga-los. Pois, quanto maior é
o seu serviço ao santíssimo corpo
e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que eles
recebem e só eles ministram aos outros, tanto
mais pecado possuem os que pecam contra eles do
que os que pecam contra todos os outros homens deste
mundo.
Francisco sabia que existia uma Igreja pecadora,
mas não se desespera com isto, antes, ele
quer viver a Igreja do Mistério, do perdão
e dos sacramentos, por isto "os ideais que
a Igreja anuncia em sua pregação e
celebra em suas ações litúrgicas
são entendidas por Francisco como algo diretamente
dirigidos a ele" , por isto existe um sentimento
de compromisso e respeito para com o sagrado e para
quem ministra este sagrado.
A Igreja como estava muito preocupada em administrar
e adquirir bens, que esqueciam dos "menores",
aqueles que estavam saindo do Sistema Feudal e estavam
chegando na cidade, por serem muitos, não
encontravam trabalho na cidade e por isto mendigavam.
Assim com a falta de empenho para a evangelização
da Igreja oficial, surgem vários movimentos
religiosos liderados por leigos, muitos foram considerados
heréticos.
Francisco inicia a sua vida de religioso na periferia,
na pequena porção de terra, na igrejinha
de Nossa Senhora dos Anjos, a Porciúncula.
Este jovem de Assis não quis ser padre nem
monge, buscou uma vida toda própria, quis
viver pobre segundo a forma do Santo Evangelho *.
A Igreja do papa e dos bispos procuravam e queriam
o poder supremo tanto civil como sagrado:
"Contrariamente a isto, Francisco vive o projeto
da loucura, o caminho do seguimento de Cristo crucificado
em absoluta pobreza simplicidade. Não é
uma Igreja dos senhores e dos maiores que o seduz,
mas uma Igreja dos servos, dos minores".
Este modo de agir de Francisco foi a melhor forma
de protesto, de denúncia que alguém
poderia fazer; de forma sincera e límpida,
como diz Joseph Ratzinger: "O não de
Francisco àquele tipo de Igreja não
poderia ser mais radial, é o que chamaríamos
de protesto profético" . Com certeza
Francisco foi um grande profeta, que mesmo vendo
a Igreja na decadência é capaz de ter
fé e acreditar que Deus está por detrás
desta Igreja, e que Ele não deixa o seu povo
(apesar de ser um povo de cabeça dura).
Francisco realmente amava a Igreja, podemos facilmente
encontrar em seus escritos muitos relatos, pedidos
e exortações a favor da Igreja, inclusive,
naquilo que é mais precioso para a vida religiosa,
ou seja, a regra de sua vida, Francisco escreve
no início e no fim aquilo que é mais
essencial para a sua Ordem:
A Regra e a Vida
dos Frades Menores é esta: observar o Santo
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo
em obediência, sem nada de próprio
e em castidade. Frei Francisco promete obediência
e reverência ao senhor Papa Honório
e a seus sucessores canonicamente eleitos e à
Igreja Romana. E os outros Irmãos atenham-se
em obediência a Frei Francisco e a seus sucessores.
E assim, sempre súditos e sujeitos aos pés
da mesma santa Igreja, estáveis na fé
católica, observemos a pobreza e a humildade
e o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo,
que firmemente prometemos.
Podemos perceber
tanto na primeira quanto na última regra
algo de comum que caracteriza o "ser"
do Frade Menor. Francisco queria que seus frades
amassem a Igreja de forma obediente e reverente,
como servos, pois é nessa Igreja que se encontra
o verdadeiro fundamento: o Evangelho de Nosso Senhor
Jesus Cristo. O que destaca em Francisco é
esse amor puro e sincero de querer viver a pobreza
e a humildade de Cristo revelado no Evangelho principalmente
a Cruz, a Encarnação e a Eucaristia,
que faz "esquecer" os pecados da Igreja,
pois revelam o verdadeiro valor desta mesma Igreja:
ser ponte de Cristo aqui na terra.
Em sua vida Francisco forma um novo jeito de ser
religioso, ele mostra que para proclamar o Evangelho
não precisa ser monge, preso em seu mosteiro,
e nem padre secular, determinado ao Templo e aos
Sacramentos. Francisco busca uma vida itinerante,
de levar o Evangelho de forma simples a toda pessoa
humana e a toda criação, onde ela
estiver:
Francisco dá
origem a uma vida religiosa no meio do povo; a cela
é o mundo, os confrades são todos
os homens, principalmente os pobres. Peregrinam
pelos burgos, de dois em dois, anunciando um Evangelho
sem glosas e comentários mirabolantes da
exegese simbólica do tempo. Vive-se do trabalho
do dia-a-dia em pobreza, simplicidade e alegria.
Francisco queria
tanto levar para todos o Evangelho, que vai para
as missões em terras estrangeiras e não
cristãs. Nesta época existiam as cruzadas,
que buscavam defender os territórios cristãos
contra os mulçumanos, era uma guerra que
banhava a terra com sangue e ódio. Francisco
vem mostrar que para pregar o Evangelho e defender
a fé não precisa pegar em armas, não
precisa partir para a violência e para a guerra,
pois só se anuncia o Evangelho promovendo
a paz.
No décimo
terceiro ano de sua conversão, foi para a
Síria e, embora recrutassem cada dia terríveis
e duros combates entre cristãos e pagãos,
não teve medo de se apresentar ao sultão
dos sarracenos, levando um companheiro. (...) Foi
maltratado por muitos que eram hostis e adversos,
mas o sultão o recebeu muito bem. Reverencio-o
quanto lhe foi possível e lhe ofereceu muitos
presentes (...) Mas, quando viu que ele desprezava
valentemente todas as coisas como se não
passem de esterco, ficou admiradíssimo e
olhava para ele como um homem diferente. Ficou muito
comovido com suas palavras e o ouviu de muito boa
vontade.
Por isto Francisco
é um referencial de missionário em
terras estrangeiras, um precursor do "diálogo
inter-relgioso", aquele que busca mostrar com
coerência o Evangelho. Francisco com essa
atitude, mostra para a Igreja das Cruzadas e das
mortes, uma outra Igreja, a da humildade e do diálogo.
Como vimos no decorrer deste trabalho o sistema
Monárquico de Igreja era muito forte, ou
seja, papa era o grande representante da Igreja
e o seu pai, onde os filhos não participavam
dos mesmos direitos, eles são somente súditos,
organizados em hierarquia descendente.
Francisco vive outra
experiência de fé, ligada às
fontes mais genuínas do Novo Testamento.
Porque é pobre e desarmado, não procurando
impor-se a ninguém mas servir a todos, até
aos animais, descobre a radical fraternidade de
todos os seres da criação. Deus não
deixa de ser Pai. Mas este Pai possui um Filho unigênito
que é sua imagem substancial e o único
representante do Pai. Este Filho se encarnou e está
no meio dos filhos adotivos. É o grande Irmão
no meio dos irmãos. Francisco vive esta experiência
de Cristo como Irmão. Daí resulta
a descoberta dos laços umbilicais que unem
todos os homens entre si; aflora a consciência
da Igreja como fraternidade e da confraternização
universal. Todos representam o Pai na medida em
que todos são filhos no Filho que está
em nosso meio; esta representação
não é mais monopolizada por ninguém
e, se por ventura persistir (como certa compreensão
dos ministérios eclesiais postula), deverá
ser vivida no interior da comunidade de iguais e
de irmãos e não acima dela.
O que se admira em Francisco é a capacidade
de amar, respeitar, obedecer a essa Igreja e ao
papa. Em seus escritos é muito clara a preocupação
de mostrar a seus irmãos a submissão
ao clero, que até em seu Testamento sustenta
aquilo que sentia a respeito:
Depois, o Senhor
me deu e me dá tanta fé nos sacerdotes,
que vivem segundo a forma da santa Igreja Romana,
por causa de suas ordens que, mesmo se me perseguissem,
quero recorrer a eles (...) E a eles e a todos os
outros quero temer, amar e honrar como meus senhores.
E neles não quero considerar pecado, porque
neles diviso o Filho de Deus, e são meus
senhores.
Mas essa profunda
obediência a Igreja não lhe impe de
ser ainda mais profundo no seu carisma, a sua intuição
ultrapassava qualquer barreira que mesmo no leito
da irmã morte, em suas últimas palavras
diz aquilo que deve estar em primeiro lugar: o Evangelho.
"Estendeu a fala sobre a paciência, a
pobreza, e a fidelidade à Igreja de Roma
a serem observadas, colocando o Santo Evangelho
à frente de qualquer instituição".
Por isto a ordem do crucificado dado a Francisco
para reconstruir a sua Igreja que estava em ruínas
era restaurar a Igreja no Evangelho e no amor a
humildade do Cristo pobre e crucificado:
A função
da comunidade pobre e fraterna de Francisco é
realizar a Igreja dos pobres, Igreja que pertence
somente a Deus porque se desnudou de todos os bens
terrenos (por isto pobre) e pobre porque se libertou
de toda propriedade e vive somente com aquilo que
é indispensável a uma existência
nua.
Podemos dizer assim
que a Igreja intuída por Francisco é
a Igreja pobre, ou seja, uma Igreja que não
possui sentido de poder a todo custo, de egoísmo,
de prepotência, de corrupção,
de mentiras, etc, mas somente o essencial: o Evangelho
de Nosso Senhor Jesus Cristo, humilde, pobre e crucificado.
CAPÍTULO
III
A proposta continua para hoje: Concílio Vaticano
II faz reviver Francisco de Assis.
Após analisarmos
um pouco a imagem de Cristo revelada por Francisco
e conseqüentemente a Igreja "reformada"
por ele como resposta ao pedido do crucificado,
podemos entende-lo como um profeta, alguém
que está na frente de seu tempo, um "antecipador"
dos ideais do Concílio Vaticano II, que é
a restauração da Igreja para os tempos
de hoje.
Como vimos, Francisco foi um homem totalmente evangélico,
sua vida foi escutar, meditar e viver o Evangelho.
Toda a Teologia do Concílio é uma
volta aos valores evangélicos, é uma
retomada as fontes, o ponto de partida para todo
cristão é Cristo, e é isto
que Francisco mais desejava em sua vida, ser como
Cristo. Por isto podemos dizer que o Concílio
Vaticano II faz reviver São Francisco.
Outro ponto que se assemelha muito entre Francisco
e o Concílio é o que marcou muito
este trabalho, ou seja, a questão do poder
do clero. Mudou-se o significado de poder, que era
entendido como adquirir exércitos, riquezas,
expansão territorial e ideologias alienantes,
para um poder "fraco", o poder que Francisco
pregava, aquele que tem como sinônimo o serviço:
Francisco dizia:
"Os que estão constituídos sobre
os outros, gloriem-se tanto dessa superioridade
como se estivessem encarregados do ofício
de lavar os pés dos irmãos."
O Concílio
diz:
Os bispos receberam o encargo de servir a comunidade,
com os seus colaboradores, presbíteros e
diáconos, e presidem em nome de Deus à
grei, de que são pastores, com mestres da
doutrina, sacerdotes do culto sagrado e ministros
do governo da Igreja.
Este sentido de
poder como serviço nada mais é que
aquele revelado por Cristo, um poder que se entrega
na cruz por amor, Aquele que tem mais poder do que
tudo se encarnou para mostrar o jeito de ser de
Deus, pura humildade, gratuidade, simplicidade.
Este poder é algo que muda todas as nossa
concepções de poder, como diz Paulo:
"Com efeito, a linguagem da cruz é loucura
para aqueles que se perdem, mas para aqueles que
se salvam, para nós, é poder de Deus."
E Jesus mesmo diz, quando é questionado pelos
fariseus, o verdadeiro sentido do poder que vai
além te toda Lei e até dos Profetas:
Mestre, qual é
o maior mandamento da Lei? Ele respondeu: Amarás
a Senhor teu Deus de todo o teu coração,
de toda a tua alma e todo o teu espírito.
Esse é o maior e primeiro mandamento. O segundo
é semelhante a esse: Amarás o teu
próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos
depende toda a Lei e os Profetas.
Com isso entendemos
um pouco o verdadeiro sentido de ser Igreja: o serviço,
que se dá no amor a Deus e a próximo,
que pode chegar ao extremo em uma cruz. E a Igreja
aprende com isto a ser cada vez mais membros ativos,
construtores de uma sociedade mais fraterna, onde
todos têm o seu lugar. O Concílio vem
mostrar que a Igreja é lugar para todos,
como diz Dom Aloísio Lorscheider: "A
pastoral eclesiológica do Vaticano II não
é uma pastoral de segregação,
mas de co-paticipação profunda da
condição humana na qual estão
inseridos todos os membros da Igreja."
Podemos dizer assim que com o Concílio Vaticano
II, a idéia de Igreja clericalizada caiu
para se formar um novo jeito de se ver a Igreja,
Igreja como povo de Deus, Igreja que tem uma só
vocação: viver o Amor (Caridade);
para isto todos são chamados a esta mesma
santidade:
Uma mesma santidade
é cultivada por todos aqueles que, nos vários
gêneros de vida e nas diferentes profissões,
são guiados pelo Espírito de Deus
e, obedecendo à voz do Pai e adorando-o em
espírito e verdade, seguem a Cristo pobre,
humilde e carregando a cruz, para merecerem participar
da sua glória. Cada um, segundo os dons e
as funções que lhe foram confiados,
deve enveredar sem hesitação pelo
caminho da fé viva, que excita a esperança
e opera pela caridade.
Francisco também
queria que todos participassem do grande tesouro
descoberto, desta santidade que vem do Cristo. Por
isto em suas mãos nascem três ordens:
a dos Frades Menores, a das Damas Pobres (Clarissas)
e dos Irmãos da Penitência (hoje a
Ordem Franciscana Secular), na qual podiam entrar
casados, solteiros (as), leigos (as), clérigos
seculares, virgens. Todos estavam sedentos para
seguir um exemplo que fosse sincero, transparente
e comprometido para com o Reino de Deus, quando
saiam para pregar a Palavra de Deus, muitos ficavam
admirados com a proposta dos frades e queriam segui-los,
por isso:
Levavam ao Bem-aventurado Francisco aqueles que
recebiam na Ordem, para dele receberem, humilde
e devotamente, o hábito da Religião.
Não apenas homens se convertiam assim à
Ordem, mas também muitas virgens e viúvas,
compungidas pela pregação deles, seguindo
seus conselhos se enclausuravam nos mosteiros, nas
cidades e povoados, para fazerem penitência
(...). De modo semelhante, também homens
e mulheres casados, (...) entregavam-se a uma penitência
mais rigorosa em seus próprios lares.
O modo de Igreja
que Francisco vive é de uma Igreja de amor
ao próximo, uma Igreja para os pobres, principalmente
o mais fraco e excluído (leprosos), uma Igreja
que reflete na humildade de Cristo encarnado, pobre
e crucificado para assim imitá-lo perante
a sociedade em que vive. Uma Igreja que "reconhece
nos pobres e nos que sofrem, a imagem do seu Fundador,
pobre e sofredor, esforça-se por aliviar-lhes
a indigência, e neles querer servir a Cristo."
A Igreja de Francisco é também uma
Igreja do diálogo com o diferente, com o
não cristão (sultão) e principalmente
é uma Igreja do serviço, de anúncio
da Boa-Nova, uma Igreja itinerante que vai ao encontro
das pessoas, propagando a penitência (como
um clamor a todos para viver o Amor que não
é amado) e a paz.
A Igreja de Francisco é a Igreja do serviço,
como ele diz a seus frades:
Do mesmo modo, neste
gênero de vida, nenhum irmão tenha
poder ou dominação, principalmente
entre si. Pois como diz o Senhor no Evangelho: os
príncipes dos povos os dominam e os que são
maiores exercem poder sobre eles, assim não
será entre os irmãos. Mas, todo aquele
que quiser tornar-se maior entre eles, seja Ministro
e servo deles. E quem entre eles é maior
faça-se como o menor.
O modo de ser Igreja
proposto pelo Concílio "é todo
um estilo novo de ser Igreja: o estilo do diálogo,
da valorização e do respeito pelo
ser humano, da cooperação com todos
para o bem da verdade, da liberdade e da justiça,
para o progresso e a paz".
Por isto podemos dizer que tanto a reforma da Igreja
proposta por Francisco quanto a proposta pelo Vaticano
II é uma retomada, uma volta aos valores
evangélicos, onde o centro é o Cristo.
A Igreja durante a sua história, quando se
desvia do seu caminho evangélico, Deus suscita
homens que se tornam verdadeiros restauradores,
que reconduzem-na para o verdadeiro caminho, caminho
de Cristo, o caminho da liberdade, da justiça
e da paz.
Ainda podemos dizer um outro ponto do jeito de ser
Igreja que Francisco propõem para hoje: a
irmandade universal, ou seja, a sensibilidade de
que todas as criaturas são irmãs.
"Em verdade, todas as criaturas, luzes e trevas,
alegrias e dores, júbilos e sofrimentos,
vida e morte, tudo, enfim, vem e é de Deus.
Vindo e sendo de Deus, elas cantam e encantam Francisco".
Para Francisco toda criatura é irmã,
pois nasceu da mesma fonte, do mesmo Pai. Com esta
concepção de fraternidade universal
temos um sentido maior de respeito e de relação
para com todas as coisas. É um saber cuidar
com amor, com compromisso, com dedicação,
pois o outro faz parte do todo, faz parte da família.
Esta idéia de irmandade da criação
transcende, ultrapassa todo o pensamento de ecologia,
de defesa dos animas que qualquer ONG pode fazer,
pois é antes de tudo, uma idéia de
relação entre irmãos.
Quando vemos as criaturas como irmãs, a relação
é totalmente diferente, é uma relação
de encontro, onde um se doa para o outro. Esta proposta
é a garantia da sustentação
de toda biodiversidade, principalmente para a nossa
realidade de destruição e morte.
Que possamos chagar no fim de nossas vidas e cantar
o Cântico do Irmão Sol, como Francisco
fez, e contemplar em tudo os rastros de Deus.
Altíssimo,
onipotente, bom Senhor,
Teus são os louvores, a glória e a
honra
E toda a benção.
Só a ti,
Altíssimo, eles convêm,
E homem algum é digno
De te mencionar.
Louvado sejas, meu
Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente, com o senhor irmão sol,
O qual é dia, por ele nos alumias.
E ele é belo
e radiante
Com grande esplendor,
De ti, Altíssimo, é sinal.
Louvado sejas, meu
Senhor,
Pela irmã lua e as estrelas,
Que no céu formastes claras,
Preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão vento,
Pelo ar e pelas nuvens,
Pelo sereno e todo o tempo,
Pelo qual às tuas criaturas dás sustento.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.
Louvado sejas, meu
Senhor,
Pelo irmão fogo,
Pelo qual ilumina a noite.
E ele é belo e jucundo
E robusto e forte.
Louvado sejas, meu
Senhor.
Pela nossa irmã a mãe terra,
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.
Louvado sejas, meu
Senhor,
Pelos que por teu amor perdoam,
E sustentam enfermidades e tribulações.
Bem-aventurados
os que as sustentam em paz,
Pois, por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, meu
Senhor,
Por nossa irmã a morte corporal,
Da qual homem algum pode escapar.
Ai daqueles que
morrem em pecados mortais:
Bem-aventurados aos que a morte encontrar
Dentro de tuas santíssimas vontades,
Porque a morte segunda não lhes fará
mal.
Louvai e bendize
a meu Senhor
E rendei-lhe graças e servi-O com
Grande humildade.
CONCLUSÃO
Ao finalizar este
trabalho podemos dizer que Francisco nos deixa uma
grande incomodação: Como um homem
da Idade Média pode ser tão atual
e ao mesmo tempo questionador? Para responder esta
pergunta basta olhar o Evangelho, Francisco se modelou
ao Evangelho a tal forma que só poderia ser
atual e questionador da mesma forma que o Evangelho
é atual e questionador.
Francisco mostrou que é possível viver
segundo o Evangelho, que toda humanidade pode ser
Filha de Deus, basta seguir com amor e simplicidade
os rastros que Cristo deixou:
Francisco nos ensina
que somente seguindo ativamente Cristo no contexto
histórico atual no qual devemos encarnar
o Evangelho saberemos verdadeiramente quem é
Cristo e dele falaremos de modo compreensivo aos
homens com os quais vivemos e com os quais caminhamos
rumo ao Reino de Deus, que é o único
futuro divino de toda a humanidade.
Como vimos, Cristo é o grande modelo para
toda a Igreja, é o único meio de se
viver fielmente à vontade do Pai. Francisco
vê uma Igreja não fundamentada no poder
e na riqueza, vendo Cristo como Rei do Universo.
Mas sim uma Igreja fundamentada no amor a Deus e
ao próximo, principalmente do mais necessitado,
vendo Cristo pobre e crucificado, vivendo a gratuidade
do amor de Deus.
Até os últimos momentos de sua vida
Francisco foi um grande apaixonado por Cristo, e
essa atitude de vida leva a ver todas as realidades
naturais em que passamos de uma forma mais feliz,
singela, amável e divina.
Francisco, quando já estava muito doente
e sofrendo, nos seus últimos momentos de