Introdução
Um dos capítulos
mais fascinantes da História da Igreja é,
sem dúvida, a história franciscana.
Fascina por ser resultado da inspiração
de um homem comum, que só procurou obedecer
à revelação divina, mas acabou
desencadeando uma profunda reforma eclesiástica.
Falou muito pouco, mas que, por seus exemplos, disse
toda incoerência de uma Igreja que se denominava
cristã, mas que já não abraçava
mais a cruz, que preferia perseguir para expandir
seu poder, ao invés de testemunhar a fé
em Cristo para a expansão do Evangelho.
Francisco marcou época, não porque tenha
sido uma novidade, uma vez que viveu num período
em que por toda parte eclodiam movimentos pauperistas,
mas porque soube ser livre para obedecer sua inspiração
sob a autoridade eclesiástica. Contestou sem
ser arrogante, e isso acabou sendo o legado que deixou
para seus filhos espirituais, bem caracterizado pelo
nome que sua grei assumiu, isto é, "Frades
Menores", para que não se arrogassem o
título de maiores.
A teologia franciscana, fundamentada na experiência
de São Francisco, foi sempre uma alternativa
muito bem aceita pela Igreja. É alternativa
porque a Igreja, desde a Escolástica, buscou
muito mais uma orientação tomista. Mas
o pensamento franciscano é orientado para a
teologia da gratuidade, a partir do desapego de Deus
Pai que envia o Verbo para se encarnar, independentemente
do pecado, mas porque ama toda criação,
e o ser humano de forma especial, por querer participar
da obra criada. Por isso, Francisco e os franciscanos
de todos os tempos têm toda sua espiritualidade
centrada em três pontos: o Cristo do presépio,
ou seja, a encarnação, o Cristo da cruz
e o Cristo pão.
Justamente nesses três pontos temos uma noção
real da significância do Deus feito homem. Contemplando
a fraqueza desse Deus, Francisco descobriu que a verdadeira
perfeição não está nas
conquistas da cavalaria, a qual ele aspirava de todo
o coração, mas na pequenez, em fazer
uma história de amor nas limitações
que a vida impõe a cada homem. Isso enche o
coração de Francisco de compaixão
para com toda humana criatura e faz com que ele reconheça
sua fraternidade com todo ser criado, por isso, no
"Cântico das Criaturas" chama todos
os seres de irmãos.
O presente trabalho procurará traçar
a linha mestra do espírito franciscano a partir
da experiência de Francisco, por isso não
desprezará a história dele antes da
fundação da Ordem, mas vai buscar justamente
naquele período toda a inspiração
reformista que ele efetivou. A partir da fundação
da Ordem, investigará as controvérsias
que poderiam destruir a inspiração franciscana
antes que ela pudesse adquirir solidez e maturidade
na vida dos frades, e credibilidade no ambiente eclesiástico.
Evidenciará o estado de desordem no franciscanismo
após a morte de Francisco, uma vez que este
era o testemunho vivo da aplicabilidade da Regra.
Se até então bastava se inspirar no
pai seráfico para ser frade menor, agora a
Regra passa a ter necessidade de ser interpretada,
e é justamente na interpretação
que surgem as controvérsias e conseqüentes
cisões. Neste trabalho a proposta é
desvendar, como num esforço investigador, as
raízes da divisão definitiva da Ordem
franciscana, sem a preocupação clássica
de apontar culpados, pois em qualquer cisão
nenhuma das partes sai vencedora, mas apenas apontar
fatos determinantes para o rompimento.
Os franciscanos foram, são e serão sempre
homens bem encarnados na realidade em que se encontram,
encarnando não só as virtudes, mas também
os vícios próprios de cada época.
I-O IDEAL DE FRANCISCO
1- Histórico
de São Francisco até a sua conversão
Francisco nasceu entre fins de 1181 e início
de 1182, em Assis. Foi batizado pela mãe Pica
com o nome de João, porém, o pai Pedro
de Bernardone, ao voltar de uma viagem de negócios
do sul da França, muda-lhe o nome para Francisco,
em homenagem àquele país.
O pai era comerciante de tecidos e, segundo Sabatier,
"dentre todos os comerciantes, os mais ricos
eram aqueles que negociavam tecidos" . Essa foi
a profissão que ensinou ao filho, que o superou
no trato com os clientes, pois era mais espontâneo.
Foi alfabetizado na escola anexa a igreja de São
Jorge, hoje basílica de Santa Clara, mas não
era erudito, pois sua instrução visava
apenas a utilidade dos negócios.
Pode ter tomado parte na empreitada de destruição
da rocca imperial e da construção dos
muros da cidade, em 1198, pois já devia ter
16 anos. Também na guerra civil entre a nobreza
e a nascente burguesia, com a expulsão daquela
em 1200. Com certeza, participou da guerra entre Assis
e Perusa, em 1202, quando caiu prisioneiro ao perder
a batalha de Collestrada.
Francisco passou o ano de 1203 na prisão e
ficou doente. Após o pagamento de resgate,
por parte de seu pai, regressou para Assis. Sua doença
se prolongou pelo ano de 1204.
Mas em 1205, já refeito da longa convalescença,
decidiu atender ao apelo do papa para partir entre
os cruzados e alistou-se nos exércitos do conde
Gentil della Pagliara. Porém, em Espoleto sentiu
as conseqüências da doença adquirida
na prisão e teve febre durante toda a noite.
Então, teve uma visão onde recebeu ordens
para voltar para Assis e começou a sonhar diferente
do que havia sonhado até aqui.
2- O sonho de Francisco
Francisco cresceu num ambiente de cruzadas, ouvindo
histórias das aventuras cavaleirescas e introjetou
em si mesmo o ideal do cavaleiro. Ambicionava um título
de nobreza, e ser nobre por mérito, através
da cavalaria, seria o triunfo que a maioria dos jovens
de seu tempo desejava, pois retornaria à sua
pátria como herói.
Sem se deixar levar pelo comodismo de uma situação
pré-estabelecida, que era continuar a profissão
do pai no comércio, começou a exercitar-se
desde muito jovem na cortesia principesca. Entre os
amigos, era considerado o "rei da juventude de
Assis", gastando com liberalidade tudo o que
poderia ganhar, na venda de tecidos, com banquetes
para os amigos. Os pais se escandalizavam de seu esbanjamento,
repreendendo-o muitas vezes: "Com os grandes
gastos que fazia para si e para os outros, parecia
mais filho de um grande príncipe do que seu"
. Contudo, o amavam muito e por isso, não queriam
perturbá-lo com besteiras, além de que
eram muito ricos.
Não nos é estranho que Francisco se
alistasse, de imediato, em todas as guerras que estavam
estourando em sua época. Em primeiro lugar,
na guerra civil de Assis, quando os nobres foram expulsos.
Depois, na guerra entre Perusa e Assis, quando ficou
preso por longo tempo em Perusa. Por fim, no exército
do conde Gentil que partiria para as Apúlias,
a fim de se concentrarem para as cruzadas. Pois, eram
oportunidades imperdíveis que se apresentavam
a ele de conquistar aquilo do qual, ao menos em desejo,
ele já estava revestido, isto é, a nobreza.
No entanto, a guerra entre Assis e Perusa foi decisiva
para a transformação de todos os seus
planos, pois não teve o sucesso esperado e,
o que é ainda pior, caiu preso. Mas, quem tem
um espírito nobre não se abate com uma
derrota aparente e "em lugar de passar seus dias
gemendo ou maldizendo, fazia planos de futuro, sobre
os quais falava, abertamente, a todos" . O que
alimentava seus sonhos eram os cantos dos trovadores,
que o faziam imaginar as mais gloriosas aventuras
e o inspiravam a dizer sempre: "ainda serei venerado
pelo mundo inteiro" .
Depois de um grande período de convalescença,
Francisco acreditou que tivesse chegado a hora de
conquistar o que tanto esperou e se preparou para
ir às Apúlias com o conde Gentil. À
noite, em sonho, teve a visão de um palácio
ornado com armas muito preciosas e, o que é
melhor, foi-lhe dito que tudo aquilo pertencia a ele
e a seus companheiros. Acordou animado pela certeza
de que se tornaria um grande príncipe e pôs-se
a caminho de Espoleto. Entretanto, como a ambição
e a vontade de satisfazer os desejos humanos pode
cegar a inteligência mais perspicaz, a inspiração
pode se apresentar de outra maneira. Pois, enquanto
dormia uma voz apresentou-se a ele dizendo:
"Quem te pode fazer melhor? O Senhor ou o servo?"
Ao responder-lhe: "o Senhor", disse-lhe
de novo: "Porque, pois, deixas o Senhor pelo
servo e o príncipe pelo vassalo?" E Francisco
disse: "Senhor, que queres que eu faça?"_
"Volta para tua terra, diz ele, e te será
dito o que deverás fazer, pois é necessário
que entendas de outro modo a visão que tiveste"
.
Francisco já
não era o mesmo após aquela visão,
voltou para Assis e já não desejava
mais fazer-se cavaleiro. Se do primeiro sonho acordou
sedento de poder temporal, do segundo acordou ansioso
na expectativa de descobrir a vontade do Senhor.
3- "Ninguém me mostrou o que deveria fazer"
O contexto de Francisco era de contestação
da estrutura eclesiástica. O clero não
se preocupava com a pregação e muito
menos com a vivência evangélica. Os jovens
escolhiam a vida religiosa monástica para fugir
da miséria, trocando assim de classe social.
No entanto, o papado vinha recuperando seu prestígio,
também seu poder político, sob o comando
de Inocêncio III, inclusive coroando o imperador
Otão, a 4 de outubro de 1209.
A reforma gregoriana já tinha suscitado movimentos
de vida evangélica, que tiveram sua expressão
nas diversas Ordens de cônegos regulares, dos
quais os últimos foram os Premonstratenses
. Mas depois surgiram movimentos contestatórios,
admirados pelo povo pelo seu rigorismo, afirmando
viver como os primeiros cristãos, alguns assumindo
antigas heresias, como os cátaros ; outros
surgiram para combater essas heresias, como os valdenses,
mas foram inscritos como heréticos porque acabavam
por atacar o clero em suas pregações.
Não é fácil discernir a vontade
de Deus num ambiente desses. Por isso, Francisco assumiu
o sonho que tivera com muita prudência, esperando
o Senhor mostrar o que fazer. Continuou trabalhando
na loja do pai e ainda encontrou os amigos para banquetearem,
mas algo mudou, pois já não tinha mais
o mesmo interesse que eles e, na última vez,
estava um pouco distante do grupo. Quando os amigos
perceberam, perguntaram em tom de zombaria: "
'em que pensaste quando não nos seguiste? Pensaste
acaso em te casar?' Ele respondeu-lhes de viva voz:
'Dissestes a verdade, porque pensei em receber a mais
nobre, mais rica e mais bela noiva como jamais viste'"
.
Parece que o Senhor começava a mostrar o que
queria dele, pois a partir daquele momento começou
a desprezar o que antes apreciava. Não abandonou
de imediato o mundo em que até então
vivera, mas começou por vencer-se a si mesmo
naquelas coisas que ainda lhe causavam pavor. Começou
por exercitar a cortesia, que lhe era natural, também
para com os pobres.
Porém, certo dia, quando estava entretido nos
afazeres da loja do pai, aproximou-se um pobre pedindo
esmola pelo amor de Deus. Todavia, ele o rechaçou
porque estava possuído pela avareza da obtenção
de lucros desmedidos, sem se preocupar com aqueles
que não tinham o mínimo para sobreviver,
mas imediatamente repreendeu-se pela dureza de coração,
por uma voz gritante na consciência: "Se
aquele pobre tivesse pedido algo em nome de algum
conde ou barão, com certeza o terias atendido,
quanto mais não o deverias ter feito pelo Rei
dos reis e Senhor de todos!" . Francisco, na
interpretação franciscana, sempre esteve
a procura daquele pobre, e os conflitos que ainda
eclodem no interior da Ordem são todos em torno
do reencontro daquele pobre, ou seja, o ideal primitivo
da pobreza.
A procura de resposta para o que deveria fazer com
o dom recebido, ou seja, a inquietação
suscitado pelo Senhor em seu coração,
passou a visitar com mais freqüência as
capelinhas solitárias dos arredores de Assis,
entre as quais, tinha preferência pela de São
Damião. Não queria respostas humanas,
pois estas estavam condicionadas pelo contexto decadente
do clero, por um rude capitalismo nascente e pelas
contestações heréticas. Numa
dessas visitas a São Damião, absorto
em oração, teve a alocução
do crucifixo bizantino: "Francisco, vai e repara
minha casa que, como vês, está toda destruída"
. Com essa fala do crucificado, Francisco então
teve evidência da missão que lhe estava
preparada, embora fosse crescendo de compreensão
durante toda a sua vida, pois a princípio começou
a restauração daquele templo de pedra,
depois, sem perceber, começou a restauração
da Igreja de Cristo, por fim, compreendeu que toda
e qualquer restauração é infecunda
se não começa por si mesmo.
4- Os pobres mais pobres
Em Assis, os pobres eram uma classe social bem definida
no tempo de Francisco, inclusive com constituições
que regiam seus direitos e deveres. Esse documento,
chamado paz civil, foi conservado em parte por Sabatier,
em que podemos observar o seguinte:
Em nome de Deus! Que a graça suprema do Espírito
Santo nos assista! Em honra de nosso Senhor Jesus
Cristo, da Bem-aventurada Virgem Maria, do imperador
Otão e do duque Leopoldo. Esse é o estatuto
e o acordo perpétuo realizado entre os majores
e os minores de Assis. Sem o consentimento comum não
realizarão nunca alguma espécie de aliança
nem com o papa e seus núncios ou seus legados,
nem com o imperador ou com o rei, nem com seus núncios
ou seus legados, nem com alguma vila ou cidade, nem
com alguma pessoa importante, mas em comum acordo,
farão tudo o que deverá ser feito para
a honra, a salvação e a vantagem da
comuna de Assis .
Esse documento é
de 1210, portanto, é posterior a aprovação
da Regra de vida franciscana. Pelo prestígio
que a nova família religiosa já gozava
no vale de Espoleto, é possível que
Francisco e seus frades tivessem atuado como negociadores
entre os dois partidos, o dos minores (mais fracos)
e o dos maiores (mais ricos), contudo, tomando partido
dos primeiros. Como posteriormente, enquanto viveu,
foi sempre seu árbitro e mediador.
Então, os menores eram uma classe política
com poderes suficientes para influenciar nas tomadas
de decisões sobre os rumos da comuna. Começaram
a conquistar todo esse poder, primeiro na independência
de Assis (1198), com a destruição da
rocca imperial e construção dos muros
da cidade; com a expulsão dos nobres para Perusa
(1199-1200); depois, na guerra entre Assis e Perusa
(1202); e, por fim, com o acordo entre pobres e ricos
e redação de um documento (1210). Bom
lembrar aqui que, quando falamos de pobres ou menores,
estamos pensando naqueles que produzem e fazem a cidade
crescer, portanto, não se trata de miseráveis
ou pessoas que sobrevivem com esmolas.
Mas é justamente para esses que Francisco começou
a converter-se quando o Senhor visitou seu coração,
"daí por diante, via os pobres com prazer,
dando-lhes esmolas copiosamente" . No entanto,
como crescia na compreensão da pobreza, ao
ponto de descobri-la na encarnação do
Senhor, quis fazer experiência da mesma. Em
uma de suas peregrinações a Roma, resolveu
tomar emprestados os trajes de um mendigo e durante
todo aquele dia pediu esmolas nas escadas da basílica
de São Pedro, devolvendo tanto as roupas como
as esmolas ao dito mendigo no final do dia.
Contudo, havia ainda algo que Francisco não
suportava, que era ver leprosos, e parecia ser o único
ponto em que ele não estava disposto a ceder
nesse processo de se colocar no seguimento de Jesus
Cristo. Mas, certo dia, quando cavalgava nos arredores
de Assis, foi surpreendido por um leproso no caminho
e, quando tentou escapar dele, sentiu-se impelido
a ir até ele para dar-lhe o ósculo da
paz, além de uma esmola. O próprio Francisco
testemunha sobre esse momento em seu Testamento:
Como estivesse em pecado, parecia-me demasiadamente
amargo ver leprosos. E o próprio Senhor me
conduziu entre eles e fiz misericórdia com
eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia
amargo, converteu-se em doçura da alma e do
corpo; e, em seguida, detive-me por um pouco e saí
do mundo .
Vencido esse último
obstáculo, Francisco já estava praticamente
pronto para abandonar a casa paterna e assumir a vida
evangélica pelo amor de Deus, tornando-se o
homem mais rico, porque, a semelhança do Filho
de Deus, que sendo rico, assumiu a pobreza voluntária,
para que, nada tendo, possuísse o mundo inteiro.
O espírito franciscano e herança espiritual
de São Francisco está bem expresso no
diálogo com a Senhora Pobreza: "Levando-a
para uma certa colina, mostraram-lhe todo o mundo
que podiam contemplar, dizendo: 'Este é o nosso
claustro, Senhora'" .
5- Uma Ordem mendicante ou trabalhadora?
E eu trabalhava com minhas mãos e quero trabalhar;
e quero firmemente que todos os outros irmãos
trabalhem num trabalho honesto. Os que não
sabem trabalhar o aprendam, não pela cobiça
de receber a recompensa do trabalho, mas por causa
do exemplo e para repelir a ociosidade.
Mesmo que São
Francisco não quisesse fundar uma ordem religiosa,
pois isto não era seu projeto, mas ela foi
se formando espontaneamente ao seu redor, quando se
viu rodeado por irmãos, sentiu a necessidade
de imprimir um caráter na nova fraternidade.
Ele não quis ser um usurpador do trabalho alheio,
principalmente dos pobres. Por isso, quis que sua
fraternidade conquistasse o pão de cada dia
com o suor do rosto.
Importante destacar aqui que esse trabalho jamais
deveria ser acompanhado do desejo do acúmulo,
mas a cada dia os irmãos deveriam novamente
conquistar o pão, todo o restante deveria ser
distribuído entre os outros pobres. Um dos
irmãos da primeira hora, o beato Egídio
de Assisi, era especialista em se desvencilhar do
excedente de seu trabalho: "No tempo da ceifa,
ia com os outros pobres colher espigas abandonadas...
E as coisas que assim ajuntava distribuía também
aos pobres" .
Porém, o pagamento pelo trabalho nunca poderia
ser aceito em forma de dinheiro, mas tão somente
em forma de comida ou de outras coisas necessárias
aos frades. Francisco odiava veementemente o dinheiro
e o concebia como veículo do maligno, pois
todo aquele que se aproxima dele se torna avarento.
Talvez aqui se expresse a mais pura recordação
de seu tempo de exímio comerciante, profissão
da qual, uma vez convertido, não queria deixar
a menor brecha para uma nova queda, pois naquele tempo
havia se guiado pela ganância. Esta firme convicção
ele levou até a confirmação definitiva
da Regra, em 1223, quando não abriu mão
da seguinte proibição: "Quanto
à retribuição do trabalho, recebam
humildemente para si e seus irmãos o que for
necessário ao corpo, exceto moedas ou dinheiro,
e isso como convém a servos de Deus e seguidores
da santíssima Pobreza" .
Para os primeiros frades, "trabalhar era a regra,
mendigar era a exceção" . Portanto,
nada desagradava mais ao santo fundador do que saber
que algum dos irmãos vivia vagando e se aproveitando
do pão dos pobres. Por isso, repreendeu um
frade que não queria saber de trabalhar, mas
na hora de comer valia por muitos irmãos: "Segue
teu caminho, irmão mosca, porque queres comer
o suor de teus irmãos e ficar ocioso no trabalho
de Deus" .
No entanto, Francisco não excluía a
esmola, mas, como os outros pobres, os frades deveriam
suplementar o fruto do suor do próprio rosto
com a esmola sempre que necessário. Pois Deus,
por sua providência, não deixa nenhum
de seus filhos perecerem. Em seu Testamento, Francisco
deixou esta exortação: "E se não
nos derem a recompensa do trabalho, recorramos à
mesa do Senhor, pedindo esmola de porta em porta"
.
Essa foi a utopia de Francisco, que viu uma fraternidade
se formando em torno de si e de seu ideal já
em meados de 1208, mais ou menos dois anos após
o abandono da casa paterna, e que por isso resolveu
apresentá-la ao papa Inocêncio III, na
esperança de sua aprovação, que
de fato aconteceu, provavelmente, em torno de Pentecostes
de 1209, como muitos historiadores já estão
de acordo, embora Sabatier tenha colocado essa data
no verão de 1210. Pelo que o Testamento expressa,
o fato de a Ordem ter se tornado essencialmente mendicante
não foi vontade de Francisco, mas uma condição
imposta pela necessidade de estudos, pois para se
dedicar à teologia os frades já não
podiam se dedicar mais ao trabalho manual como nos
tempos heróicos dos inícios; além
disso, a Ordem, de mista que era, estava se tornando
cada vez mais clerical, desencadeando definitivamente
esse processo com a deposição de Frei
Elias e com a eleição do ministro geral
Frei Alberto de Pisa em 1239, primeiro sacerdote a
assumir a sucessão do Poverello.
II- CONTROVÉRSIAS EM TORNO DO IDEAL
1- Os cinco Proto-mártires
No capítulo de Pentecostes de 1216 ou 1217
(não se sabe o ano correto), ocorrido em Santa
Maria dos Anjos, São Francisco enviou frades
para além dos Alpes, ou seja, para as terras
ultramontanas. Além de enviar frades para as
terras de além-mar, isto é, para o norte
da África.
Dos que foram para o norte da África, cinco
receberam a coroa do martírio no Marrocos,
no dia 16 de janeiro de 1220, a saber: Bernardo, Pedro,
Adjuto, Acúrsio e Otão. Pelas pesquisas
de Paul Sabatier, os frades praticamente obrigaram
os maometanos a perseguí-los pelo propósito
do martírio, através de grosserias dirigidas
aos seguidores de Maomé e ao Miramolim, acreditando
que estavam fazendo pregações. Contudo,
é um erro lançar nosso julgamento, a
partir de categorias atuais, sobre esses bem intencionados
frades que deram a vida pela causa do Evangelho. Além
de que o sangue deles alimentou os primeiros missionários
franciscanos.
Mas é daqui que surge uma primeira controvérsia
interna, pois até agora os frades eram pobres
em todos os sentidos. Dependiam da bondade do povo
para sobreviver e da aceitação do clero
para fazer suas pregações, sem nenhum
testemunho a favor, nem mesmo uma regra bem definida
e com a bula papal, embora já houvesse uma
Proto-regra com aprovação oral do papa
Inocêncio III. Então passam a ter cinco
mártires oriundos daquelas terras que eram
alvo de atenção da Igreja no momento,
por causa da expansão do islamismo.
Para desgosto de São Francisco, o orgulho começa
a tomar conta do coração dos frades,
que em pregações passam a se gabar pelo
exemplo dos Proto-mártires e a exaltar o nome
do Poverello. O patriarca não tarda a chamar
seus irmãos para a verdadeira essência
do frade menor, servidor de toda humana criatura e
irmão de toda criação, com uma
admoestação:
Atendamos, irmãos, o Bom Pastor, que para salvar
as suas ovelhas, suportou a Paixão da cruz.
As ovelhas do Senhor seguiram-no na tribulação
e na perseguição, na vergonha e na fome,
na enfermidade e na tentação e em tudo
o mais; e disso receberam do Senhor a vida sempiterna.
Por isso, é grande vergonha para nós,
servos de Deus, que os santos tenham feito obras e
nós queiramos receber glória e honra
apenas por citá-las.
No capítulo
de Pentecostes de 1219 o próprio Francisco
resolveu partir em missão para além-mar.
O santo patriarca, além de resgatar seu antigo
sonho de se tornar cavaleiro do grande Senhor, ainda
tinha uma oportunidade ímpar de colocar em
prática sua inspiração missionária
no meio de povos hostis ao Evangelho, deixando aos
seus irmãos o exemplo de como deve se portar
o frade menor diante das contrariedades.
2- A missão de Francisco no além-mar
Após o capítulo de Pentecostes de 1219,
Francisco partiu com alguns companheiros para Ancona,
onde os cruzados estavam concentrados para partir
para o Egito. A viagem deve ter ocorrido em meados
de junho, provavelmente no dia de São João.
Foi o tempo marcado por Honório III para dirigir
todas as forças das cruzadas para o Oriente,
a fim de reconquistar aquelas regiões para
o cristianismo.
Francisco e alguns frades, juntamente com os cruzados,
desembarcam em São João de Acre em meados
de julho. Partiu poucos dias depois para o Egito,
onde o exército cristão sitiava Damieta.
Ali teve uma grande decepção, pois,
embora vários prelados se fizessem presentes,
encontrou o exército disperso e indisciplinado,
enquanto alguns cultivavam a sincera intenção
de expandir a fé cristã ou pelo menos
libertar a Terra Santa, a maioria se motivava pelo
desejo de pilhagem. Entre os que tinham reta intenção
coptou muitos para a Ordem.
Não teve receio de partir com um companheiro
para o lado inimigo, onde foi gentilmente recebido
pelo sultão, rei do Egito, que não só
ouviu sua pregação, mas também
deixou que ele pregasse a todo o povo, embora não
tivesse se convertido ao cristianismo. Recebeu a oferta
de permanecer na presença do dito sultão,
mas, como não tivesse feito fruto nenhum em
sua pregação, recusou-se e pediu licença
para retornar ao exército cristão. O
sultão mandou uma escolta para levá-lo
de volta em segurança e, com um sinal característico
dos mulçulmanos, deu-lhe livre acesso aos lugares
santos. São Francisco não perdeu tempo,
foi visitar os lugares por onde Jesus passou.
No capítulo de Pentecostes de 1220 Francisco
não estava presente, por causa da sua estada
na Terra Santa. Foi o momento propício para
todos quantos desejavam incluir alguma mudança
na direção da Ordem .
3- Perturbação na ausência de
São Francisco
Francisco tinha um carisma de conciliação
e, enquanto permanecia no vale de Espoleto, todos
os frades tinham nele o ponto de referência
do espírito originário da Ordem. Portanto,
qualquer normatização parecia supérflua
e mesmo uma traição a inspiração
evangélica do seráfico patriarca, por
isso a Proto-regra nada mais era do que alguns versículos
bíblicos selecionados por Francisco e seus
primeiros companheiros.
Mas agora o santo já não podia mais
ser tão facilmente consultado, nem podia decidir
os rumos da Ordem, pois se encontrava no Oriente.
Embora tivesse deixado como vigários, com orientações
expressas, Frei Mateus de Narni em Santa Maria dos
Anjos, para receber os candidatos na Ordem, e Frei
Gregório de Nápolis, para percorrer
a Itália em visita fraterna aos irmãos.
Então, as incertezas e tensões que,
desde o espantoso crescimento populacional da Ordem
em meados do segundo decênio do século
XIII, se encontravam adormecidas, na ausência
de Frei Francisco foram despertadas. Contra a vontade
do fundador, Frei Felipe, que era visitador das Damas
Pobres, pediu e obteve cartas de privilégio
da Santa Sé em favor delas. Além disso,
Frei João da Capella, reuniu um grupo de leprosos
de ambos os sexos e fundou uma nova Ordem religiosa.
Os vigários deixados por Francisco, no capítulo
de Pentecostes de 1220, estabeleceram "constituições",
auxiliados por frades mais velhos, que na prática
tornava a nova Ordem religiosa semelhante às
Ordens monásticas já existentes, com
rígidas normas sobre o jejum, sobre a vida
itinerante e sobre o trabalho. Por esses motivos e
pelo alvoroço dos frades que exigiam mais novidades,
a Ordem estava seriamente ameaçada de dividir-se.
Um "frade leigo" (não sabemos quem),
percebendo o grande perigo que rondava a Ordem na
Itália, tomou o texto das "constituições"
e às escondidas partiu para o além-mar,
na esperança de encontrar Francisco. Para Sabatier,
o mensageiro o teria encontrado "na Síria,
provavelmente em São João de Acre".
Ao alcançá-lo primeiro confessou sua
culpa de empreender tal viagem sem permissão,
depois entregou-lhe o texto das "constituições"
e, segundo Jordão de Jano:
Depois de ler atentamente as "constituições",
o Bem-aventurado Francisco, que estava à mesa
e tinha diante de si carnes preparadas para comer,
disse a Frei Pedro: "Senhor Pedro, o que faremos
" Frei Pedro respondeu: "Ah, senhor Francisco,
aquilo que for do vosso agrado, pois, vós é
que tendes o poder"... O Bem-aventurado Francisco
concluiu: "Logo, como diz o Evangelho, comamos
aquilo que foi colocado diante de nós".
Esse modo de proceder
revela o espírito do qual estava imbuído
São Francisco de Assis, que não era
de modo algum o espírito da Lei, mas o Espírito
do Senhor e seu santo modo de operar, que sabe discernir
os sinais dos tempos e, para Francisco, o Evangelho
é a única regra de vida da qual nenhum
frade menor está dispensado . Por isso, a Regra
franciscana não é um conjunto de normas
e proibições, como outras regras, mas
uma direção para fazer-se frade menor
em cada situação que a vida apresenta,
justamente por isso pode ser flexibilizada de acordo
com as circunstâncias.
Avisado por uma pitonisa e confirmado pela visita
do dito "frade leigo", Francisco decidiu
retornar à Itália. Mas, para enfrentar
a grande perturbação pela qual a Ordem
passava, seu carisma já não seria suficiente,
então levou consigo o especialista em direito
Frei Pedro Cattani, o organizador Frei Elias e o biblista
Frei Cesário de Espira. Além disso,
desviou-se do vale de Espoleto e foi para Roma a fim
de conseguir do papa Honório III um cardeal
protetor.
O papa concedeu-lhe o cardeal Hugolino, bispo de Óstia.
O primeiro trabalho do cardeal protetor foi corrigir
a situação de perturbação
da Ordem, pois Francisco preferiu não interferir
pessoalmente, então expulsou Frei João
da Capella da cúria romana, exonerou Frei Filipe
do cuidado das Damas Pobres, revogou as cartas que
o mesmo havia recebido e reformou a Ordem pela atuação
de Francisco, enquanto que os perturbadores foram
acalmados.
Por orientação do cardeal Hugolino,
São Francisco convocou um capítulo para
a festa de São Miguel Arcanjo de 1220. Neste
mesmo capítulo, São Francisco renunciou
ao governo da Ordem em favor de Frei Pedro Cattani,
e se decidiu a redigir uma nova Regra, auxiliado por
Frei Cesário de Espira nas referências
bíblicas. O texto da Regra foi apresentado
no capítulo de Pentecostes de 1221 e foi aprovado
para toda a Ordem pelos capitulares. No entanto, o
texto apresentado ao papa e que recebeu a bula a 29
de novembro de 1223 foi outro, ou seja, foi o mesmo
texto reformulado. Temos as duas Regras na íntegra,
sendo que a primeira chamamos de Regra Não-bulada
(RNB) e a segunda Regra Bulada (RB).
Mesmo que a Regra franciscana não tenha um
conteúdo juridicista, que seja espiritual,
toda normatização causa um engessamento
do espírito e não foi diferente com
os franciscanos. Francisco percebeu que a Regra poderia
não ser suficiente para garantir a fidelidade
dos irmãos à minoridade evangélica,
então redigiu um "Testamento", onde
procurou resgatar sua própria experiência
de descoberta da vida evangélica e traçou
o caminho ideal para o futuro da fraternidade.
4- A necessidade de ter uma Regra confirmada com bula
papal
Até a renúncia ao governo da Ordem,
Francisco tinha sido por demais homem de ação
para se preocupar em colocar por escrito seu pensamento,
porém, então passa a ter uma chance
singular. Francisco não perde tempo e começa
a redigir a Regra segundo sua inspiração
e experiência como irmão menor.
Tal Regra, como já foi mencionado anteriormente,
foi aprovada pelo capítulo de Pentecostes de
1221. No entanto, Sabatier afirma categoricamente
que "somente a de 1210 é verdadeiramente
franciscana" . Segundo Sabatier, a Regra de 1223
tem todos os indícios de ser indiretamente
uma obra da Igreja, pois seu esforço é
de assimilar o novo movimento e transformá-lo
de acordo com seus interesses. Enquanto que a Regra
de 1221 tem um papel intermediário, é
o perfeito retrato da alma de Francisco dividido entre
a fidelidade à sua inspiração
e a necessidade de obedecer às intervenções
eclesiásticas, entre o espírito de pobreza
primitivo e a meteórica evolução
da ordem.
A tese de Sabatier é reforçada pela
ausência de informações sobre
a redação da Regra Bulada. O que se
sabe é que Francisco, auxiliado por Cesário
de Espira nas citações bíblicas,
escreveu uma Regra que foi aprovada pelo capítulo
de Pentecostes de 1221. No entanto, o texto apresentado
ao papa Honório III, e que recebeu a bula de
confirmação a 29 de novembro de 1223,
foi outro.
No entanto, temos razões muito claras para
acreditar que os elementos essenciais da Regra de
1221 eram elaborações de sucessivos
capítulos de Pentecostes, desde a aprovação
da Proto-regra por Inocêncio III, em 1209. Trata-se
de um testemunho externo à Ordem, ou seja,
a carta de Jacques de Vitry sobre os inícios
da nova Ordem, escrita em outubro de 1216, que dita
o seguinte: "Os homens daquela Ordem reúnem-se,
com muito proveito, uma vez por ano, num lugar predeterminado
para, em conjunto, comer e alegrar-se no Senhor. Valendo-se
do conselho de pessoas entendidas, fazem e promulgam
leis santas que depois são confirmadas pelo
Papa".
Nesta perspectiva, o trabalho realizado por Francisco
foi o de organizar todo o material produzido pela
experiência dos frades ao longo dos anos, portanto,
não redigiu simplesmente o que lhe vinha à
cabeça para impor aos irmãos. Podemos
presumir também, com bases nessas informações,
que a Regra apresentada ao papa Honório III,
em novembro de 1223, é a evolução
daquela aprovada pelo capítulo de Pentecostes
de 1221, pois podemos acreditar que houveram ainda
outros dois capítulos de pentecostes nesse
ínterim. Além disso, a bula Solet annuere
é destinada a Frei Francisco e aos demais irmãos
da Ordem, e a Regra é escrita em primeira pessoa,
portanto, temos aqui praticamente excluída
a re-elaboração do documento por parte
da cúria romana. Então, Sabatier, embora
seja uma das maiores referências nos estudos
das fontes franciscanas, parece estar equivocado quanto
a interferência e imposição eclesiástica
na Regra.
5- A Regra e suas implicações práticas
Como a Regra, ao receber a bula de confirmação,
passou a ser considerada um documento eclesiástico,
o capítulo de Pentecostes já não
teria mais nenhum poder para re-elaborá-la,
como acontecia todos os anos. Mas a Ordem ainda era
muito jovem e em constante transformação,
por isso a Regra precisava se adequar às novas
realidades que nem sempre eram contempladas pelo texto
original.
A título de exemplo, podemos destacar a questão
dos estudos, pois até então os frades
mais eruditos já entravam na Ordem preparados,
como Santo Antônio. Mas na época da confirmação
da Regra os frades já estavam em Paris, e em
1224 os frades chegam a Oxford, estes são os
dois grandes centros de estudos da Europa no século
XIII. Por outro lado, os frades, que até então
eram pregadores populares, estavam começando
a receber as primeiras igrejas.
Diante desse quadro, era necessário posicionar-se,
e o que parece que Francisco fez foi incentivar os
estudos a partir do espírito franciscano, ou
seja, sem se apropriar do conhecimento e isso podemos
perceber em uma de suas admoestações:
São mortos pela letra aqueles religiosos que
não querem seguir o espírito da letra
divina, mas só cobiçam saber mais palavras
e interpretá-las para os outros. E são
vivificados pelo espírito da letra divina os
que não atribuem a si toda a letra que sabem
e cobiçam saber. Mas, pela palavra e pelo exemplo,
devolvem-na ao altíssimo Senhor Deus, de quem
é todo o bem .
Já ao que
se refere aos templos, vale o que prevê o capítulo
6 da Regra, embora ainda não contemple igrejas:
"Os irmãos de nada se apropriem, nem de
casa, nem de lugar, nem de coisa alguma. E, como peregrinos
e estrangeiros neste século, sirvam ao Senhor
na pobreza e na humildade" . A solução
foi recebê-las como empréstimo ou por
aluguel, a própria igreja de Santa Maria dos
Anjos era alugada dos monges beneditinos do monte
Subásio, e todos os anos Francisco mandava
aos ditos monges uma cesta cheia de peixinhos conhecidos
como cadozes .
Porém, a cada dia surgiam novas situações
que clamavam por respostas e Francisco sentia suas
forças se esvaindo, não podia morrer
sem deixar uma herança à qual os frades
pudessem recorrer sempre que estivessem em necessidades.
Já no último ano de sua vida, ferido
pelos estigmas, pela cegueira e pela impossibilidade
de se fazer presente onde os irmãos mais necessitassem
de sua assistência, ditou seu Testamento, que
pretendia ser uma resposta aos novos tempos, além
de ser uma reafirmação da Regra. Na
verdade, o Testamento é a interpretação
de Francisco à Regra a partir de sua experiência
de vida e de seu desejo para o futuro da Ordem.
O Testamento é o último suspiro de São
Francisco na estruturação da Ordem dos
Menores (OMin). Pouco depois, 3 de outubro de 1226,
Francisco partiu para a eternidade e foi canonizado
por Gregório IX a 16 de julho de 1228. Contudo,
foi traído pela fama de santidade, quando para
preservar sua memória, os frades, dirigidos
por Frei Elias, se viram obrigados a construir uma
imensa basílica em sua honra.
Francisco havia se tornado alguém demasiadamente
famoso e a igreja de São Jorge não era
suficientemente segura para comportar seus restos
mortais. Então, a construção
de uma igreja mais imponente não era apenas
uma questão de luxo, mas uma necessidade. Entretanto,
a execução de tal obra feria de cheio
o ideal primitivo ainda muito presente no coração
da maioria dos frades, que se escandalizavam com a
manipulação de imensas quantidades de
dinheiro para o projeto, ainda mais que Regra proibia
o contato com dinheiro. Temos instalado um grande
impasse que os frades, por própria conta, já
não tinham competência para resolver.
III- DEFINIÇÃO DA QUO ELONGATI E DIVISÃO
FRANCISCANA
1- Construção da basílica de
São Francisco
Sabatier considera Gregório IX, desde que assumiu
a função de cardeal protetor da Ordem
dos Menores, como inspirador do grupo que depreciava
e comprometia o ideal primitivo de Francisco. Sendo
assim, também o acusa de comprometer o futuro
da Ordem quando ordenou a construção
de uma majestosa basílica em honra do novo
Santo, e já no dia seguinte à sua canonização
lançar a pedra fundamental da igreja, isto
é, 26 de julho de 1228. No entanto, o perdoa
desse pecado: "Construída sob a inspiração
de Gregório IX e sob a direção
de Frei Elias, essa maravilhosa basílica é,
ela também, um dos documentos dessa história
e talvez eu não tenha razão em negligenciá-la".
Mas o que nos importa aqui é o rebuliço
que essa construção causou em toda a
Ordem, principalmente em relação à
mudança estrutural que essa incomum decisão
estava causando. O que podemos afirmar é que
, ainda em vida, Francisco foi obrigado a normatizar
a respeito de recepção de igrejas porque,
provavelmente, os frades já haviam recebido
alguma igreja: "Cuidem-se os irmãos de
receber, de modo algum, igrejas, pequenas e pobres,
habitações e tudo o que for construído
para eles, a não ser que sejam como convém
à santa Pobreza".
Se não era conveniente receber igrejas pequenas
e pobres, para não ferir a santa Pobreza professada
pela Regra, então como podem os frades construírem
uma tão exuberante igreja em honra do "Pobrezinho
de Assis" e à conselho do Papa. Mas, mesmo
com a oposição de muitos frades, a obra
será levada a termo pela persistência
de Frei Elias, o que lhe custará a cabeça
mais tarde, e com o consentimento do mesmo Papa que
o tinha incentivado na construção da
dita igreja. Segundo frei Jordão de Jano, a
oposição da maioria dos frades se baseava
no seguinte: "Frei Elias, eleito Ministro Geral,
quis concluir a igreja que começara em Assis.
Para poder concluir a obra iniciada, fez cobranças
em toda a Ordem". Além disso, dispersou
seus opositores por diversos lugares e deixou de convocar
o capítulo, que só foi convocado por
Gregório IX para a sua deposição.
Entretanto, já era projeto da cúria
romana a canonização de Frei Francisco
como bandeira do pontificado de Gregório IX,
pois este passava por um momento de crise com o imperador
Frederico II, inclusive tendo que fugir de Roma, devido
a revolta dos cidadãos, e se instalar em Perusa.
A canonização do novo santo, com toda
fama que ele já desfrutava em toda a Europa,
devolveria o prestígio e o poder que o papado
possuía nos tempos de Inocêncio III.
Entretanto, o São Francisco criado pela cúria
romana, que podemos conhecer pela biografia encomendada
pelo Papa a Tomás de Celano, já em 1228,
não possuía uma experiência de
vida possível de ser seguida, era diferente
daquele da primeira hora que havia recrutado muitos
seguidores. Esse São Francisco institucionalizado,
carregado de um aparato normativo, que o Poverello
havia recusado, era estranho ao genuíno seguimento
de Cristo, isto é, "viver segundo a forma
do Santo Evangelho".
"Com a carta Recolentes qualiter, de 29 de abril
de 1228, Gregório IX concede uma indulgência
de quarenta dias a quem fizesse ofertas para a construção
da igreja em que deverá ser conservado o corpo
do 'bem-aventurado Francisco'". Portanto, Gregório
IX estava decidido a difundir a devoção
ao amigo, mas nos moldes da cúria romana, como
foi sempre seu esforço no cargo de cardeal
protetor quando Francisco ainda vivia, e a construção
da igreja era parte desse projeto.
2- Projeto da Cúria
Romana para a Ordem dos Menores
Desde sua conversão Francisco colocara-se sob
custódia eclesiástica ao não
aceitar a convocação civil para devolver
os bens do pai, mas ao responder, de boa vontade,
aos apelos do bispo Guido. Quando o número
dos frades começou a aumentar, o bispo de Assis
se convenceu de ter agido corretamente na acolhida
de Francisco e de seu movimento de penitentes, pois
seus exemplos começaram a dar bons frutos em
toda a região. Por isso, entristeceu-se ao
encontrar o pequeno grupo de frades em Roma, pois
imaginou que eles haviam abandonado a região
do vale de Espoleto.
Francisco e seus companheiros foram a Roma porque
queriam que Inocêncio III aprovasse sua forma
de vida. Teve como grande postulador de sua causa
o bispo da Sabina, o cardeal João de São
Paulo, que primeiro tentou fazer com que eles passassem
para alguma Ordem monástica, mas foi vencido
pela perseverança deles. Segundo Celano, esse
cardeal "se destacava entre os outros príncipes
e dignitários da Cúria Romana por 'desprezar
as coisas terrenas e aspirar às celestiais'".
Considerando que essas qualidades deveriam estar,
dentro da normalidade, presentes em todos aqueles
que buscam consagrar sua vida ao serviço eclesiástico,
a partir desse testemunho, podemos imaginar o tipo
de pessoas que integravam o episcopado naquele período.
Mas, as preocupações de Inocêncio
III, nesse período, eram as heresias, principalmente
dos cátaros que, com seu ideal de pureza, vinha
conquistando o apoio popular. Num grande esforço
diplomático já tinha resgatado das fileiras
heréticas alguns movimentos, como os valdenses,
em 1207. Por isso, acatou ao pedido de Francisco e
do próprio cardeal João de São
Paulo, não sem hesitações, pois
não foi de forma definitiva, "na esperança
de que arrebatariam a bandeira da heresia".
A novidade dos mendicantes fez com que setores da
Igreja repensassem sua estruturação,
uma vez que os cargos eclesiásticos eram loteados
entre pessoas que não tinham o menor interesse
pela difusão do Evangelho, além de que
os párocos já não se preocupavam
com a pregação popular, e ainda muitos
outros vícios assolavam a nave de Pedro. Por
isso, os novos movimentos apareciam como uma nova
aurora no horizonte da Igreja.
O cardeal Hugolino era um desses sonhadores que via
no franciscanismo e em outros movimentos penitenciais
a solução da crise eclesiástica.
A Segunda Vida de São Francisco, escrita por
Tomás de Celano, testemunha uma oferta que
o bispo de Óstia teria feito a São Francisco
e a São Domingos: " Na Igreja primitiva
, os pastores da Igreja eram pobres e homens de caridade,
não desejosos de cobiça. Por que não
fazemos Bispos e prelados os vossos frades que se
destacam entre os outros pela doutrina e pelo exemplo?"
Os dois santos, segundo o mesmo relato, recusaram
humildemente a oferta do bispo, cada qual com suas
explicações. No entanto, o prelado parece
que não ficou satisfeito com a resposta, embora
tenha se dobrado à vontade de ambos, pois,
como papa, com o nome de Gregório IX, fez eleger
muitos bispos dominicanos e o franciscano Frei Leão
Valvassori como arcebispo de Milão, embora
sua confirmação tenha ocorrido somente
em 1244, por causa da morte do Papa em agosto de 1241.
Depois dessa exceção, a Igreja veio
sempre mais pedindo frades para o colégio episcopal,
sem considerar a intuição de Francisco
de que o poder pode corromper a alma do frade menor,
levando-o à disputa por cargos. No entanto,
a eleição de bispos não foi,
nem de longe, a causa definitiva do distanciamento
do espírito franciscano primitivo, mas o recurso
à cúria romana sempre que aparecia alguma
querela dentro da Ordem e a concessão de bulas
por parte da Igreja.
3- Conflito em torno da observância do Testamento
Frei Francisco tinha plena consciência de sua
finitude, de sua condição humana e da
proximidade de seu fim. Sua experiência religiosa
levou-o a diagnosticar, num olhar retrospectivo, os
perigos possíveis no itinerário de sua
querida fraternidade, o resultado foi o perfeito retrato
de sua alma minorítica, e a isso ele chamou
de Testamento.
Na sua ausência não faltaria um manual
onde os frades pudessem encontrar soluções
para as novas situações que costumam
aparecer. Porém, o leitor poderia se perguntar:
como um documento que não completa mais do
que três páginas poderia ser suficiente
para responder às novas situações
que pudessem aparecer? Qualquer pessoa que venha a
apreciar o Testamento logo notará que não
se trata de um texto normativo, mas da narração
da experiência de conversão de São
Francisco e de conselhos, como de pai, para a procedência
dos frades, portanto, é a expressão
do espírito do seráfico pai. Sendo assim,
a resposta aos sinais dos tempos o frade vai encontrar
no espírito franciscano, ou seja, cada qual
fará sua própria experiência a
partir do discernimento da experiência de Francisco.
Ora, "Frei Francisco é, certamente, o
elemento primeiro e luminoso da identidade franciscana".
Contudo, bem cedo apareceu na Ordem uma interpretação
legalista que fez o Testamento parecer um peso a mais
nos ombros dos frades, já calejados pela necessidade
de suportar o peso da Regra. Nem os que queriam observa-lo
ao pé da letra, nem os que desejavam aboli-lo
parece que entenderam o verdadeiro objetivo do mesmo.
Francisco, como um homem evangélico, tinha
consciência de que a Regra devia ser um elemento
facilitador na vivência do ideal primitivo.
Contudo, constatava-se uma interpretação
juridicista da mesma. Por isso redigiu o Testamento,
que logo tornou-se, na concepção de
boa parte dos frades mais um código de normas
a ser seguido.
Na realidade, ao frades menores estavam desorientados
no momento imediatamente posterior à morte
do patriarca. A presença de Francisco no seio
da Ordem, por si mesma, já era um código
de conduta, e ainda que já existisse a Regra
a validade da mesma era medida pela observação
da experiência dele. Portanto, ainda que tenha
renunciado à direção da Ordem
dos Menores, Francisco nunca deixou de exercer um
comando espiritual. Mas, na sua ausência, começam
a aparecer os pontos duvidosos na interpretação
da Regra, somados à necessidade ou não
de observar o Testamento. Tanto que Tomás de
Eccleston, no tempo do generalato de Frei Aimão,
não deixou passar despercebido o sonho de Frei
João de Bannister, no qual São Francisco
mostra-lhe um poço profundo, então Frei
João lamenta-se: "'Pai, eis que os padres
querem explicar a Regra. Ah, se tu mesmo, antes, nos
explicasses a Regra'. Respondeu São Francisco:
'dirige-te aos frades leigos e eles te exporão
a tua Regra'".
Contudo, no Testamento Francisco proíbe qualquer
interpretação ao afirmar: "e ordeno
firmemente por obediência a todos os meus Irmãos,
clérigos e leigos, que não façam
glosas na Regra nem nestas palavras dizendo:'Assim
devem ser entendidas'". O ministro geral, Frei
João Parenti, precisava agir rápido,
pois podia perder o controle da situação.
Então, decidiu apresentar a questão
a Gregório IX, que fora cardeal protetor da
Ordem e amigo de Francisco, por isso, além
de autoridade jurídica, também possuía
autoridade moral para interpretar a Regra e o Testamento.
"Cabia ao Papa responder a estas questões;
mas o fato de alguns poderem colocar estas questões
fala claro da passagem do espírito à
Lei, da moral aberta à moral fechada, que a
Ordem estava prestes a viver".
4- Quo Elongati, uma
bula necessária?
O ministro geral, Frei João Parenti, organizou
uma comissão de frades, da qual participou
Santo Antônio, Frei Aimão de Faversham,
futuro ministro geral, e Frei Leão Valvassori,
futuro arcebispo de Milão e primeiro franciscano
elevado à dignidade episcopal, para tratar
com o Papa acerca das dificuldades em observar a Regra
ao pé da letra. Embora, a observância
de leis à letra, sem a intuição
de seu espírito inspirador, seja inconcebível
à mentalidade hodierna, a aplicação
da Regra estava se tornando um problema insuperável
para a direção da Ordem naquele período.
O pivô da crise era, contudo, o Testamento.
Por isso, Gregório IX foi enfático ao
afirmar que os irmãos não eram obrigados
a observar também o Testamento, e começa
sua argumentação pela autoridade de
sua familiaridade com São Francisco. Entretanto,
o Papa, quando cardeal de Óstia e antes mesmo
de ser protetor da Ordem, já exercia certa
influência sobre Francisco, e o primeiro exemplo
claro de sua autoridade sobre o santo patriarca é
quando o convence a permanecer no vale de Espoleto.
Este episódio se deu após o capítulo
de Pentecostes de 1217, quando Francisco se decidiu
também partir em missão, e a terra escolhida
foi a França, que era uma região muito
estimada por ele, seu passatempo favorito era cantar
louvores ao Altíssimo em francês, até
seu nome era uma homenagem àquelas terras;
mas encontrou o cardeal Hugolino em Florença,
que o desencorajou da viagem em prol da sustentação
da espiritualidade da Ordem. Então, o argumento
da familiaridade é insuficiente, uma vez que
essa familiaridade começa com o cerceamento
da liberdade.
Todavia, o Papa favoreceu a perpetuação
do texto original da Regra Bulada quando, no 3º
parágrafo da "Quo elongati", lembrou
o dado da "intenção de Francisco".
Ora, mesmo tendo desautorizado o Testamento, suas
respostas à comissão de frades não
passa de conselhos sobre a melhor forma de observar
a Regra. No entanto, a aquisição desse
documento já é uma violação
à vontade de Francisco expressa no Testamento,
isto é, "não ousem pedir algum
rescrito à Cúria Romana" , que
abre precedente a inúmeros documentos dirigidos
à Ordem dos Menores.
5- Uma Ordem dividida
A bula "Quo elongati", ao invés de
esclarecer os frades, causou um racha na fraternidade.
A intenção dos irmãos que queriam
preservar e observar o Testamento não era questionar
a boa vontade e autoridade do Papa, que eles bem sabiam
que fora muito próximo de São Francisco,
mas ser fiéis ao mandato do fundador e inspirador
do espírito minorítico.
Paul Sabatier, após suas pesquisas de historiografia
franciscana, pode afirmar que "o Testamento foi
confiscado e destruído, chegou-se até
a queimá-lo sobre a cabeça de um irmão
que se obstinava a querer observá-lo"
. No entanto, houve irmãos, chamados espirituais,
que, em resistência aos frades da comunidade,
fugiram e conseguiram preservar cópias do mesmo.
Por causa dessa desobediência temos hoje o texto
completo do Testamento.
Fato bastante polêmico, que marcou uma enorme
guinada na Ordem, foi a deposição de
Frei Elias do generalato, em 1239, e a eleição
de Frei Alberto de Pisa. Tal eleição
marcou a vitória do partido dos clérigos,
pois até então nenhum ministro geral
fora sacerdote, como jamais um frade leigo será
ministro geral depois disso. Ao término do
capítulo, Frei Alberto de Pisa celebrou uma
missa em que afirmou orgulhosamente: "Vós
acabais de ouvir uma Missa, jamais celebrada por um
Ministro Geral em nossa Ordem".
Os Papas foram, a partir de então, cumulando
a Ordem com privilégios. O próprio Gregório
IX, que nos anos 30 do séc. XIII não
ousaria eleger um bispo minorita, com a clericalização
da Ordem se anima a eleger Frei Leão Valvassori
para o arcebispado de Milão. Como os frades
não podiam tocar em dinheiro, Inocêncio
IV, com a bula "Quanto studiosius", de 1247,
dá aos provinciais a faculdade de nomear um
procurador para agir em nome dos frades. Inocêncio
IV também, com a bula "Cum tamquam veri",
de 1250, eleva as igrejas dos frades à dignidade
de "conventuais", isto é, o que antes
era apenas capela particular dos frades passa a ter
os mesmos direitos e deveres de qualquer igreja paroquial.
Esse processo de institucionalização
foi aprofundando uma crise na Ordem, até que
um grupo de reformadores da Ordem foi tomando corpo
e acabou sendo conhecido como "espirituais franciscanos",
contudo, não era um grupo homogêneo,
pois existiam desde facções mais sérias
de retorno às origens até aqueles que
se aprofundaram nas heresias joaquimitas . No entanto,
eles foram desaparecendo depois da calorosa batalha
entre os franciscanos e João XXII que, com
a bula "Cum inter nonnullos", de 1323, declarou
herética a afirmação de que Jesus
e os apóstolos não possuíam bens,
nem em comum nem individualmente. Na prática,
os espirituais franciscanos foram declarados heréticos,
mas a comunidade da Ordem também foi afetada,
pois, o Papa revogou a reserva pela Sé apostólica
dos bens franciscanos com a bula "Exiit qui seminat",
e a Ordem se viu obrigada a administrá-los.
Mas o desejo de retorno às origens não
morreu no seio da Ordem dos Menores. Já no
ano de 1368 o irmão leigo Frei Paulúcio
Trinci, sob licença do ministro geral Frei
Tomás de Frignano, foi fazer a experiência
da regular observância com mais 4 ou 5 companheiros
no eremitério de Brogliano. No início
do século XV, a Regular Observância não
possuía nem 20 conventos, mas despontou como
importante reforma a partir do ingresso dos freis
São Bernardino de Sena, São João
de Capistrano, Alberto Sarteano e São Tiago
das Marcas, que ficaram conhecidos como as "quatro
colunas da reforma observante", dos quais somente
São João de Capistrano nunca pertenceu
a porção não reformada da Ordem,
ou seja, à conventualidade, pois já
ingressou entre os observantes em 1414.
No tempo das "quatro colunas da reforma"
brigava-se para recuperar o espírito originário,
frente a uma Ordem franciscana demasiadamente institucionalizada,
conventualizada e, como a Igreja, em franca decadência.
Porém, no início do século XVI
a querela se dava em torno da primazia jurídica
da Ordem, uma vez que o número de frades, pela
primeira vez tinha alcançado o equilíbrio,
pois os Conventuais contavam algo em torno de 30.000
e as reformas juntas somavam em torno de 30.000 também.
Entretanto, a 29 de maio de 1517, diante da recusa
dos Conventuais de se reformarem e de aceitarem um
ministro geral reformado, Leão X decretou a
separação total entre as duas vertentes
da Ordem com a bula "Ite vos", passando
a representatividade da Ordem aos Observantes e reduzindo
o título do ministro geral Conventual a "mestre
geral". Essa manobra foi muito contestada, pois
as evidências de compra de influências
eram muitas,
No período compreendido entre julho de 1516
e junho de 1517, os Observantes depositaram nos cofres
da Igreja romana bem 26.041 ducados, contra os 1.200
dos Conventuais e os 8.740 de outros, estranhos à
Ordem. O que obteve a Observância em 1517? .
A troca de papéis,
em todos os sentidos, ficou clara no impulso da reforma
Capuchinha, que começou já em 1525 com
Frei Mateus de Bascio, com o nome de "Frades
Menores da Vida Eremítica", mas foram
logo apelidados pelo povo de "Capuchinhos"
por causa do capuz piramidal. Como a nova reforma
estivesse sofrendo muitas perseguições
por parte de seus antigos superiores observantes,
Clemente VII concedeu-lhes a bula "Religionis
zelus", de 3 de julho de 1528, sujeitando-os
aos superiores Conventuais, condição
em que permaneceram até sua independência
jurídica em 1619.
Como pudemos comprovar, a bula "Quo elongati"
gerou a "Ite vos", portanto, os frades implantaram
no seio da Ordem o germe da separação
ao contrariar aquele mandato: "Ordeno firmemente
pela obediência a todos os Irmãos, onde
estiverem, que não ousem pedir algum rescrito
à Cúria Romana, nem através de
si ou de pessoa intermediária, nem em favor
de uma igreja, ou de outro lugar, nem em vista de
pregação, nem diante da própria
perseguição corporal".
CONCLUSÃO
São Francisco de Assis não foi o fundador
da Ordem dos Menores no sentido próprio do
termo, pois foi o crucifixo de São Damião
que determinou sua missão. Além disso,
os primeiros irmãos não obedeceram a
um chamado de Francisco para seguí-lo, mas
se juntaram a ele porque se sentiram atraídos
pelo seu exemplo de vida. Portanto, foi Deus mesmo
que suscitou os franciscanos no seio da Igreja para
que ela recuperasse os valores evangélicos
que, por soberba e ganância, havia perdido ao
longo dos séculos.
Ponto determinante da conversão de Francisco
é, sem dúvida, o encontro com os leprosos,
quando ele teve contato profundo com a miséria
humana, inclusive a própria, e ao fazer misericórdia
com eles tornou-se homem evangélico, pois,
segundo seu Testamento, "aquilo que me parecia
amargo, converteu-se em doçura da alma e do
corpo" . Todas as vezes que os franciscanos se
distanciaram dessa experiência do pai seráfico
o resultado foi catastrófico para a Ordem,
pois também deixaram de entender a Regra e
o Testamento. O que pudemos verificar ao longo deste
trabalho foi que o "encontro com os leprosos"
foi perdendo sempre mais sua significância,
e em alguns casos foi relegado ao esquecimento mesmo.
Constatamos também que, quase sempre, se deu
ênfase à questão da interpretação
das normas contidas na Regra, às implicações
do Testamento para a vida prática e à
institucionalização da Ordem, em detrimento
da fraternidade. Quando fazemos uma análise
mais profunda dos dados históricos, percebemos
que a fraternidade é um bem de primeira grandeza,
pois a Ordem começou como uma comunidade de
irmãos, e Frei Francisco foi pedir a Inocêncio
III a aprovação de uma Regra de vida
para facilitar a convivência. Portanto, a Regra
existe para a fraternidade e não o contrário,
e na história franciscana muitas vezes se depreciou
a fraternidade para privilegiar uma observância
mais fiel da Regra. Ora, observa mais fielmente a
Regra franciscana quem não se dispensa do amor
ao próximo, principalmente ao próximo
mais próximo, que é o irmão.
Por tudo isso, a divisão franciscana não
foi um escândalo que envolveu somente a Ordem
dos Menores, mas toda a Igreja, uma vez que a tarefa
da mesma é o testemunho do Evangelho de Jesus
Cristo. A quebra da fraternidade franciscana representou
a negação da eficiência evangélica,
pois se deu como resultado da impossibilidade do diálogo.
Contudo, a vitalidade que a I Ordem franciscana desfruta
ainda hoje leva-nos a ter um olhar esperançoso
em relação à sua significância
para os anseios da Igreja. As três raízes
da I Ordem juntas, isto é, Capuchinhos, Conventuais
e Menores, somam algo em torno de 30.000 frades, e
atualmente são a maior força missionária
que a Igreja possui. As decisões mais importantes
para os destinos do franciscanismo são tomadas
em forma de colegiado entre os três ministros
gerais, exemplo disso foi a elaboração
da nova fórmula de profissão que é
a mesma para as três raízes e para a
Terceira Ordem Regular. Além disso, é
muito comum aparecerem novos movimentos e congregações
religiosas inspiradas no franciscanismo.
A contribuição do presente trabalho
está na busca incondicional da verdade histórica,
pois houve uma cautela considerável por consulta
às fontes históricas e pesquisas que,
convencionalmente, são tidas como fidedignas.
Ora, esse garimpo das causas da divisão franciscana,
longe de alimentar rixas históricas, leva-nos
a olhar a história da Ordem dos Menores com
mais humildade, pois evidencia a nossa própria
fraqueza e incapacidade de manter a unidade com as
nossas próprias forças. São Francisco
só conseguiu esse feito porque estava imbuído
do Espírito do Senhor.
Por outro lado, mesmo não participando daquele
momento histórico, como herdeiros da tradição
franciscana, somos convidados a pedir perdão
pelos pecados de nossos antepassados, seja por excesso
de zelo ou por relaxo mesmo. O mais importante é
que, como frades menores, testemunhemos a minoridade
evangélica que recebemos como herança.
É irrelevante se estamos sob a obediência
das "Constituições Gerais"
dos Capuchinhos, dos Conventuais ou dos Menores, pois
somos filhos legítimos do mesmo pai seráfico,
São Francisco de Assis, e as reformas foram
sempre tentativas mais ou menos eficientes de retorno
às origens. Ultimamente, na Ordem franciscana
esse retorno às origens tem sido feito, por
uma cooperação pacífica entre
os franciscanos, através do estudo das Fontes
Franciscanas, que foi desencadeado por Paul Sabatier,
mas que encontrou sua expressão máxima
em Caetano Esser.
Portanto, o espírito franciscano originário
não está morto, mas ainda pulsa no coração
de cada frade e de cada pessoa que se simpatiza com
a minoridade evangélica do "Poverello