O sonho de Francisco

Introdução

Um dos capítulos mais fascinantes da História da Igreja é, sem dúvida, a história franciscana. Fascina por ser resultado da inspiração de um homem comum, que só procurou obedecer à revelação divina, mas acabou desencadeando uma profunda reforma eclesiástica. Falou muito pouco, mas que, por seus exemplos, disse toda incoerência de uma Igreja que se denominava cristã, mas que já não abraçava mais a cruz, que preferia perseguir para expandir seu poder, ao invés de testemunhar a fé em Cristo para a expansão do Evangelho.
Francisco marcou época, não porque tenha sido uma novidade, uma vez que viveu num período em que por toda parte eclodiam movimentos pauperistas, mas porque soube ser livre para obedecer sua inspiração sob a autoridade eclesiástica. Contestou sem ser arrogante, e isso acabou sendo o legado que deixou para seus filhos espirituais, bem caracterizado pelo nome que sua grei assumiu, isto é, "Frades Menores", para que não se arrogassem o título de maiores.
A teologia franciscana, fundamentada na experiência de São Francisco, foi sempre uma alternativa muito bem aceita pela Igreja. É alternativa porque a Igreja, desde a Escolástica, buscou muito mais uma orientação tomista. Mas o pensamento franciscano é orientado para a teologia da gratuidade, a partir do desapego de Deus Pai que envia o Verbo para se encarnar, independentemente do pecado, mas porque ama toda criação, e o ser humano de forma especial, por querer participar da obra criada. Por isso, Francisco e os franciscanos de todos os tempos têm toda sua espiritualidade centrada em três pontos: o Cristo do presépio, ou seja, a encarnação, o Cristo da cruz e o Cristo pão.
Justamente nesses três pontos temos uma noção real da significância do Deus feito homem. Contemplando a fraqueza desse Deus, Francisco descobriu que a verdadeira perfeição não está nas conquistas da cavalaria, a qual ele aspirava de todo o coração, mas na pequenez, em fazer uma história de amor nas limitações que a vida impõe a cada homem. Isso enche o coração de Francisco de compaixão para com toda humana criatura e faz com que ele reconheça sua fraternidade com todo ser criado, por isso, no "Cântico das Criaturas" chama todos os seres de irmãos.
O presente trabalho procurará traçar a linha mestra do espírito franciscano a partir da experiência de Francisco, por isso não desprezará a história dele antes da fundação da Ordem, mas vai buscar justamente naquele período toda a inspiração reformista que ele efetivou. A partir da fundação da Ordem, investigará as controvérsias que poderiam destruir a inspiração franciscana antes que ela pudesse adquirir solidez e maturidade na vida dos frades, e credibilidade no ambiente eclesiástico. Evidenciará o estado de desordem no franciscanismo após a morte de Francisco, uma vez que este era o testemunho vivo da aplicabilidade da Regra. Se até então bastava se inspirar no pai seráfico para ser frade menor, agora a Regra passa a ter necessidade de ser interpretada, e é justamente na interpretação que surgem as controvérsias e conseqüentes cisões. Neste trabalho a proposta é desvendar, como num esforço investigador, as raízes da divisão definitiva da Ordem franciscana, sem a preocupação clássica de apontar culpados, pois em qualquer cisão nenhuma das partes sai vencedora, mas apenas apontar fatos determinantes para o rompimento.
Os franciscanos foram, são e serão sempre homens bem encarnados na realidade em que se encontram, encarnando não só as virtudes, mas também os vícios próprios de cada época.

I-O IDEAL DE FRANCISCO

1- Histórico de São Francisco até a sua conversão
Francisco nasceu entre fins de 1181 e início de 1182, em Assis. Foi batizado pela mãe Pica com o nome de João, porém, o pai Pedro de Bernardone, ao voltar de uma viagem de negócios do sul da França, muda-lhe o nome para Francisco, em homenagem àquele país.
O pai era comerciante de tecidos e, segundo Sabatier, "dentre todos os comerciantes, os mais ricos eram aqueles que negociavam tecidos" . Essa foi a profissão que ensinou ao filho, que o superou no trato com os clientes, pois era mais espontâneo.
Foi alfabetizado na escola anexa a igreja de São Jorge, hoje basílica de Santa Clara, mas não era erudito, pois sua instrução visava apenas a utilidade dos negócios.
Pode ter tomado parte na empreitada de destruição da rocca imperial e da construção dos muros da cidade, em 1198, pois já devia ter 16 anos. Também na guerra civil entre a nobreza e a nascente burguesia, com a expulsão daquela em 1200. Com certeza, participou da guerra entre Assis e Perusa, em 1202, quando caiu prisioneiro ao perder a batalha de Collestrada.
Francisco passou o ano de 1203 na prisão e ficou doente. Após o pagamento de resgate, por parte de seu pai, regressou para Assis. Sua doença se prolongou pelo ano de 1204.
Mas em 1205, já refeito da longa convalescença, decidiu atender ao apelo do papa para partir entre os cruzados e alistou-se nos exércitos do conde Gentil della Pagliara. Porém, em Espoleto sentiu as conseqüências da doença adquirida na prisão e teve febre durante toda a noite. Então, teve uma visão onde recebeu ordens para voltar para Assis e começou a sonhar diferente do que havia sonhado até aqui.

2- O sonho de Francisco
Francisco cresceu num ambiente de cruzadas, ouvindo histórias das aventuras cavaleirescas e introjetou em si mesmo o ideal do cavaleiro. Ambicionava um título de nobreza, e ser nobre por mérito, através da cavalaria, seria o triunfo que a maioria dos jovens de seu tempo desejava, pois retornaria à sua pátria como herói.
Sem se deixar levar pelo comodismo de uma situação pré-estabelecida, que era continuar a profissão do pai no comércio, começou a exercitar-se desde muito jovem na cortesia principesca. Entre os amigos, era considerado o "rei da juventude de Assis", gastando com liberalidade tudo o que poderia ganhar, na venda de tecidos, com banquetes para os amigos. Os pais se escandalizavam de seu esbanjamento, repreendendo-o muitas vezes: "Com os grandes gastos que fazia para si e para os outros, parecia mais filho de um grande príncipe do que seu" . Contudo, o amavam muito e por isso, não queriam perturbá-lo com besteiras, além de que eram muito ricos.
Não nos é estranho que Francisco se alistasse, de imediato, em todas as guerras que estavam estourando em sua época. Em primeiro lugar, na guerra civil de Assis, quando os nobres foram expulsos. Depois, na guerra entre Perusa e Assis, quando ficou preso por longo tempo em Perusa. Por fim, no exército do conde Gentil que partiria para as Apúlias, a fim de se concentrarem para as cruzadas. Pois, eram oportunidades imperdíveis que se apresentavam a ele de conquistar aquilo do qual, ao menos em desejo, ele já estava revestido, isto é, a nobreza.
No entanto, a guerra entre Assis e Perusa foi decisiva para a transformação de todos os seus planos, pois não teve o sucesso esperado e, o que é ainda pior, caiu preso. Mas, quem tem um espírito nobre não se abate com uma derrota aparente e "em lugar de passar seus dias gemendo ou maldizendo, fazia planos de futuro, sobre os quais falava, abertamente, a todos" . O que alimentava seus sonhos eram os cantos dos trovadores, que o faziam imaginar as mais gloriosas aventuras e o inspiravam a dizer sempre: "ainda serei venerado pelo mundo inteiro" .
Depois de um grande período de convalescença, Francisco acreditou que tivesse chegado a hora de conquistar o que tanto esperou e se preparou para ir às Apúlias com o conde Gentil. À noite, em sonho, teve a visão de um palácio ornado com armas muito preciosas e, o que é melhor, foi-lhe dito que tudo aquilo pertencia a ele e a seus companheiros. Acordou animado pela certeza de que se tornaria um grande príncipe e pôs-se a caminho de Espoleto. Entretanto, como a ambição e a vontade de satisfazer os desejos humanos pode cegar a inteligência mais perspicaz, a inspiração pode se apresentar de outra maneira. Pois, enquanto dormia uma voz apresentou-se a ele dizendo:
"Quem te pode fazer melhor? O Senhor ou o servo?" Ao responder-lhe: "o Senhor", disse-lhe de novo: "Porque, pois, deixas o Senhor pelo servo e o príncipe pelo vassalo?" E Francisco disse: "Senhor, que queres que eu faça?"_ "Volta para tua terra, diz ele, e te será dito o que deverás fazer, pois é necessário que entendas de outro modo a visão que tiveste" .

Francisco já não era o mesmo após aquela visão, voltou para Assis e já não desejava mais fazer-se cavaleiro. Se do primeiro sonho acordou sedento de poder temporal, do segundo acordou ansioso na expectativa de descobrir a vontade do Senhor.
3- "Ninguém me mostrou o que deveria fazer"
O contexto de Francisco era de contestação da estrutura eclesiástica. O clero não se preocupava com a pregação e muito menos com a vivência evangélica. Os jovens escolhiam a vida religiosa monástica para fugir da miséria, trocando assim de classe social. No entanto, o papado vinha recuperando seu prestígio, também seu poder político, sob o comando de Inocêncio III, inclusive coroando o imperador Otão, a 4 de outubro de 1209.
A reforma gregoriana já tinha suscitado movimentos de vida evangélica, que tiveram sua expressão nas diversas Ordens de cônegos regulares, dos quais os últimos foram os Premonstratenses . Mas depois surgiram movimentos contestatórios, admirados pelo povo pelo seu rigorismo, afirmando viver como os primeiros cristãos, alguns assumindo antigas heresias, como os cátaros ; outros surgiram para combater essas heresias, como os valdenses, mas foram inscritos como heréticos porque acabavam por atacar o clero em suas pregações.
Não é fácil discernir a vontade de Deus num ambiente desses. Por isso, Francisco assumiu o sonho que tivera com muita prudência, esperando o Senhor mostrar o que fazer. Continuou trabalhando na loja do pai e ainda encontrou os amigos para banquetearem, mas algo mudou, pois já não tinha mais o mesmo interesse que eles e, na última vez, estava um pouco distante do grupo. Quando os amigos perceberam, perguntaram em tom de zombaria: " 'em que pensaste quando não nos seguiste? Pensaste acaso em te casar?' Ele respondeu-lhes de viva voz: 'Dissestes a verdade, porque pensei em receber a mais nobre, mais rica e mais bela noiva como jamais viste'" .
Parece que o Senhor começava a mostrar o que queria dele, pois a partir daquele momento começou a desprezar o que antes apreciava. Não abandonou de imediato o mundo em que até então vivera, mas começou por vencer-se a si mesmo naquelas coisas que ainda lhe causavam pavor. Começou por exercitar a cortesia, que lhe era natural, também para com os pobres.
Porém, certo dia, quando estava entretido nos afazeres da loja do pai, aproximou-se um pobre pedindo esmola pelo amor de Deus. Todavia, ele o rechaçou porque estava possuído pela avareza da obtenção de lucros desmedidos, sem se preocupar com aqueles que não tinham o mínimo para sobreviver, mas imediatamente repreendeu-se pela dureza de coração, por uma voz gritante na consciência: "Se aquele pobre tivesse pedido algo em nome de algum conde ou barão, com certeza o terias atendido, quanto mais não o deverias ter feito pelo Rei dos reis e Senhor de todos!" . Francisco, na interpretação franciscana, sempre esteve a procura daquele pobre, e os conflitos que ainda eclodem no interior da Ordem são todos em torno do reencontro daquele pobre, ou seja, o ideal primitivo da pobreza.
A procura de resposta para o que deveria fazer com o dom recebido, ou seja, a inquietação suscitado pelo Senhor em seu coração, passou a visitar com mais freqüência as capelinhas solitárias dos arredores de Assis, entre as quais, tinha preferência pela de São Damião. Não queria respostas humanas, pois estas estavam condicionadas pelo contexto decadente do clero, por um rude capitalismo nascente e pelas contestações heréticas. Numa dessas visitas a São Damião, absorto em oração, teve a alocução do crucifixo bizantino: "Francisco, vai e repara minha casa que, como vês, está toda destruída" . Com essa fala do crucificado, Francisco então teve evidência da missão que lhe estava preparada, embora fosse crescendo de compreensão durante toda a sua vida, pois a princípio começou a restauração daquele templo de pedra, depois, sem perceber, começou a restauração da Igreja de Cristo, por fim, compreendeu que toda e qualquer restauração é infecunda se não começa por si mesmo.

 


4- Os pobres mais pobres
Em Assis, os pobres eram uma classe social bem definida no tempo de Francisco, inclusive com constituições que regiam seus direitos e deveres. Esse documento, chamado paz civil, foi conservado em parte por Sabatier, em que podemos observar o seguinte:
Em nome de Deus! Que a graça suprema do Espírito Santo nos assista! Em honra de nosso Senhor Jesus Cristo, da Bem-aventurada Virgem Maria, do imperador Otão e do duque Leopoldo. Esse é o estatuto e o acordo perpétuo realizado entre os majores e os minores de Assis. Sem o consentimento comum não realizarão nunca alguma espécie de aliança nem com o papa e seus núncios ou seus legados, nem com o imperador ou com o rei, nem com seus núncios ou seus legados, nem com alguma vila ou cidade, nem com alguma pessoa importante, mas em comum acordo, farão tudo o que deverá ser feito para a honra, a salvação e a vantagem da comuna de Assis .

Esse documento é de 1210, portanto, é posterior a aprovação da Regra de vida franciscana. Pelo prestígio que a nova família religiosa já gozava no vale de Espoleto, é possível que Francisco e seus frades tivessem atuado como negociadores entre os dois partidos, o dos minores (mais fracos) e o dos maiores (mais ricos), contudo, tomando partido dos primeiros. Como posteriormente, enquanto viveu, foi sempre seu árbitro e mediador.
Então, os menores eram uma classe política com poderes suficientes para influenciar nas tomadas de decisões sobre os rumos da comuna. Começaram a conquistar todo esse poder, primeiro na independência de Assis (1198), com a destruição da rocca imperial e construção dos muros da cidade; com a expulsão dos nobres para Perusa (1199-1200); depois, na guerra entre Assis e Perusa (1202); e, por fim, com o acordo entre pobres e ricos e redação de um documento (1210). Bom lembrar aqui que, quando falamos de pobres ou menores, estamos pensando naqueles que produzem e fazem a cidade crescer, portanto, não se trata de miseráveis ou pessoas que sobrevivem com esmolas.
Mas é justamente para esses que Francisco começou a converter-se quando o Senhor visitou seu coração, "daí por diante, via os pobres com prazer, dando-lhes esmolas copiosamente" . No entanto, como crescia na compreensão da pobreza, ao ponto de descobri-la na encarnação do Senhor, quis fazer experiência da mesma. Em uma de suas peregrinações a Roma, resolveu tomar emprestados os trajes de um mendigo e durante todo aquele dia pediu esmolas nas escadas da basílica de São Pedro, devolvendo tanto as roupas como as esmolas ao dito mendigo no final do dia.
Contudo, havia ainda algo que Francisco não suportava, que era ver leprosos, e parecia ser o único ponto em que ele não estava disposto a ceder nesse processo de se colocar no seguimento de Jesus Cristo. Mas, certo dia, quando cavalgava nos arredores de Assis, foi surpreendido por um leproso no caminho e, quando tentou escapar dele, sentiu-se impelido a ir até ele para dar-lhe o ósculo da paz, além de uma esmola. O próprio Francisco testemunha sobre esse momento em seu Testamento:
Como estivesse em pecado, parecia-me demasiadamente amargo ver leprosos. E o próprio Senhor me conduziu entre eles e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo, converteu-se em doçura da alma e do corpo; e, em seguida, detive-me por um pouco e saí do mundo .

Vencido esse último obstáculo, Francisco já estava praticamente pronto para abandonar a casa paterna e assumir a vida evangélica pelo amor de Deus, tornando-se o homem mais rico, porque, a semelhança do Filho de Deus, que sendo rico, assumiu a pobreza voluntária, para que, nada tendo, possuísse o mundo inteiro. O espírito franciscano e herança espiritual de São Francisco está bem expresso no diálogo com a Senhora Pobreza: "Levando-a para uma certa colina, mostraram-lhe todo o mundo que podiam contemplar, dizendo: 'Este é o nosso claustro, Senhora'" .
5- Uma Ordem mendicante ou trabalhadora?
E eu trabalhava com minhas mãos e quero trabalhar; e quero firmemente que todos os outros irmãos trabalhem num trabalho honesto. Os que não sabem trabalhar o aprendam, não pela cobiça de receber a recompensa do trabalho, mas por causa do exemplo e para repelir a ociosidade.

Mesmo que São Francisco não quisesse fundar uma ordem religiosa, pois isto não era seu projeto, mas ela foi se formando espontaneamente ao seu redor, quando se viu rodeado por irmãos, sentiu a necessidade de imprimir um caráter na nova fraternidade. Ele não quis ser um usurpador do trabalho alheio, principalmente dos pobres. Por isso, quis que sua fraternidade conquistasse o pão de cada dia com o suor do rosto.
Importante destacar aqui que esse trabalho jamais deveria ser acompanhado do desejo do acúmulo, mas a cada dia os irmãos deveriam novamente conquistar o pão, todo o restante deveria ser distribuído entre os outros pobres. Um dos irmãos da primeira hora, o beato Egídio de Assisi, era especialista em se desvencilhar do excedente de seu trabalho: "No tempo da ceifa, ia com os outros pobres colher espigas abandonadas... E as coisas que assim ajuntava distribuía também aos pobres" .
Porém, o pagamento pelo trabalho nunca poderia ser aceito em forma de dinheiro, mas tão somente em forma de comida ou de outras coisas necessárias aos frades. Francisco odiava veementemente o dinheiro e o concebia como veículo do maligno, pois todo aquele que se aproxima dele se torna avarento. Talvez aqui se expresse a mais pura recordação de seu tempo de exímio comerciante, profissão da qual, uma vez convertido, não queria deixar a menor brecha para uma nova queda, pois naquele tempo havia se guiado pela ganância. Esta firme convicção ele levou até a confirmação definitiva da Regra, em 1223, quando não abriu mão da seguinte proibição: "Quanto à retribuição do trabalho, recebam humildemente para si e seus irmãos o que for necessário ao corpo, exceto moedas ou dinheiro, e isso como convém a servos de Deus e seguidores da santíssima Pobreza" .
Para os primeiros frades, "trabalhar era a regra, mendigar era a exceção" . Portanto, nada desagradava mais ao santo fundador do que saber que algum dos irmãos vivia vagando e se aproveitando do pão dos pobres. Por isso, repreendeu um frade que não queria saber de trabalhar, mas na hora de comer valia por muitos irmãos: "Segue teu caminho, irmão mosca, porque queres comer o suor de teus irmãos e ficar ocioso no trabalho de Deus" .
No entanto, Francisco não excluía a esmola, mas, como os outros pobres, os frades deveriam suplementar o fruto do suor do próprio rosto com a esmola sempre que necessário. Pois Deus, por sua providência, não deixa nenhum de seus filhos perecerem. Em seu Testamento, Francisco deixou esta exortação: "E se não nos derem a recompensa do trabalho, recorramos à mesa do Senhor, pedindo esmola de porta em porta" .
Essa foi a utopia de Francisco, que viu uma fraternidade se formando em torno de si e de seu ideal já em meados de 1208, mais ou menos dois anos após o abandono da casa paterna, e que por isso resolveu apresentá-la ao papa Inocêncio III, na esperança de sua aprovação, que de fato aconteceu, provavelmente, em torno de Pentecostes de 1209, como muitos historiadores já estão de acordo, embora Sabatier tenha colocado essa data no verão de 1210. Pelo que o Testamento expressa, o fato de a Ordem ter se tornado essencialmente mendicante não foi vontade de Francisco, mas uma condição imposta pela necessidade de estudos, pois para se dedicar à teologia os frades já não podiam se dedicar mais ao trabalho manual como nos tempos heróicos dos inícios; além disso, a Ordem, de mista que era, estava se tornando cada vez mais clerical, desencadeando definitivamente esse processo com a deposição de Frei Elias e com a eleição do ministro geral Frei Alberto de Pisa em 1239, primeiro sacerdote a assumir a sucessão do Poverello.
II- CONTROVÉRSIAS EM TORNO DO IDEAL
1- Os cinco Proto-mártires
No capítulo de Pentecostes de 1216 ou 1217 (não se sabe o ano correto), ocorrido em Santa Maria dos Anjos, São Francisco enviou frades para além dos Alpes, ou seja, para as terras ultramontanas. Além de enviar frades para as terras de além-mar, isto é, para o norte da África.
Dos que foram para o norte da África, cinco receberam a coroa do martírio no Marrocos, no dia 16 de janeiro de 1220, a saber: Bernardo, Pedro, Adjuto, Acúrsio e Otão. Pelas pesquisas de Paul Sabatier, os frades praticamente obrigaram os maometanos a perseguí-los pelo propósito do martírio, através de grosserias dirigidas aos seguidores de Maomé e ao Miramolim, acreditando que estavam fazendo pregações. Contudo, é um erro lançar nosso julgamento, a partir de categorias atuais, sobre esses bem intencionados frades que deram a vida pela causa do Evangelho. Além de que o sangue deles alimentou os primeiros missionários franciscanos.
Mas é daqui que surge uma primeira controvérsia interna, pois até agora os frades eram pobres em todos os sentidos. Dependiam da bondade do povo para sobreviver e da aceitação do clero para fazer suas pregações, sem nenhum testemunho a favor, nem mesmo uma regra bem definida e com a bula papal, embora já houvesse uma Proto-regra com aprovação oral do papa Inocêncio III. Então passam a ter cinco mártires oriundos daquelas terras que eram alvo de atenção da Igreja no momento, por causa da expansão do islamismo.
Para desgosto de São Francisco, o orgulho começa a tomar conta do coração dos frades, que em pregações passam a se gabar pelo exemplo dos Proto-mártires e a exaltar o nome do Poverello. O patriarca não tarda a chamar seus irmãos para a verdadeira essência do frade menor, servidor de toda humana criatura e irmão de toda criação, com uma admoestação:
Atendamos, irmãos, o Bom Pastor, que para salvar as suas ovelhas, suportou a Paixão da cruz. As ovelhas do Senhor seguiram-no na tribulação e na perseguição, na vergonha e na fome, na enfermidade e na tentação e em tudo o mais; e disso receberam do Senhor a vida sempiterna. Por isso, é grande vergonha para nós, servos de Deus, que os santos tenham feito obras e nós queiramos receber glória e honra apenas por citá-las.

No capítulo de Pentecostes de 1219 o próprio Francisco resolveu partir em missão para além-mar. O santo patriarca, além de resgatar seu antigo sonho de se tornar cavaleiro do grande Senhor, ainda tinha uma oportunidade ímpar de colocar em prática sua inspiração missionária no meio de povos hostis ao Evangelho, deixando aos seus irmãos o exemplo de como deve se portar o frade menor diante das contrariedades.
2- A missão de Francisco no além-mar
Após o capítulo de Pentecostes de 1219, Francisco partiu com alguns companheiros para Ancona, onde os cruzados estavam concentrados para partir para o Egito. A viagem deve ter ocorrido em meados de junho, provavelmente no dia de São João. Foi o tempo marcado por Honório III para dirigir todas as forças das cruzadas para o Oriente, a fim de reconquistar aquelas regiões para o cristianismo.
Francisco e alguns frades, juntamente com os cruzados, desembarcam em São João de Acre em meados de julho. Partiu poucos dias depois para o Egito, onde o exército cristão sitiava Damieta. Ali teve uma grande decepção, pois, embora vários prelados se fizessem presentes, encontrou o exército disperso e indisciplinado, enquanto alguns cultivavam a sincera intenção de expandir a fé cristã ou pelo menos libertar a Terra Santa, a maioria se motivava pelo desejo de pilhagem. Entre os que tinham reta intenção coptou muitos para a Ordem.
Não teve receio de partir com um companheiro para o lado inimigo, onde foi gentilmente recebido pelo sultão, rei do Egito, que não só ouviu sua pregação, mas também deixou que ele pregasse a todo o povo, embora não tivesse se convertido ao cristianismo. Recebeu a oferta de permanecer na presença do dito sultão, mas, como não tivesse feito fruto nenhum em sua pregação, recusou-se e pediu licença para retornar ao exército cristão. O sultão mandou uma escolta para levá-lo de volta em segurança e, com um sinal característico dos mulçulmanos, deu-lhe livre acesso aos lugares santos. São Francisco não perdeu tempo, foi visitar os lugares por onde Jesus passou.
No capítulo de Pentecostes de 1220 Francisco não estava presente, por causa da sua estada na Terra Santa. Foi o momento propício para todos quantos desejavam incluir alguma mudança na direção da Ordem .
3- Perturbação na ausência de São Francisco
Francisco tinha um carisma de conciliação e, enquanto permanecia no vale de Espoleto, todos os frades tinham nele o ponto de referência do espírito originário da Ordem. Portanto, qualquer normatização parecia supérflua e mesmo uma traição a inspiração evangélica do seráfico patriarca, por isso a Proto-regra nada mais era do que alguns versículos bíblicos selecionados por Francisco e seus primeiros companheiros.
Mas agora o santo já não podia mais ser tão facilmente consultado, nem podia decidir os rumos da Ordem, pois se encontrava no Oriente. Embora tivesse deixado como vigários, com orientações expressas, Frei Mateus de Narni em Santa Maria dos Anjos, para receber os candidatos na Ordem, e Frei Gregório de Nápolis, para percorrer a Itália em visita fraterna aos irmãos.
Então, as incertezas e tensões que, desde o espantoso crescimento populacional da Ordem em meados do segundo decênio do século XIII, se encontravam adormecidas, na ausência de Frei Francisco foram despertadas. Contra a vontade do fundador, Frei Felipe, que era visitador das Damas Pobres, pediu e obteve cartas de privilégio da Santa Sé em favor delas. Além disso, Frei João da Capella, reuniu um grupo de leprosos de ambos os sexos e fundou uma nova Ordem religiosa. Os vigários deixados por Francisco, no capítulo de Pentecostes de 1220, estabeleceram "constituições", auxiliados por frades mais velhos, que na prática tornava a nova Ordem religiosa semelhante às Ordens monásticas já existentes, com rígidas normas sobre o jejum, sobre a vida itinerante e sobre o trabalho. Por esses motivos e pelo alvoroço dos frades que exigiam mais novidades, a Ordem estava seriamente ameaçada de dividir-se.
Um "frade leigo" (não sabemos quem), percebendo o grande perigo que rondava a Ordem na Itália, tomou o texto das "constituições" e às escondidas partiu para o além-mar, na esperança de encontrar Francisco. Para Sabatier, o mensageiro o teria encontrado "na Síria, provavelmente em São João de Acre". Ao alcançá-lo primeiro confessou sua culpa de empreender tal viagem sem permissão, depois entregou-lhe o texto das "constituições" e, segundo Jordão de Jano:
Depois de ler atentamente as "constituições", o Bem-aventurado Francisco, que estava à mesa e tinha diante de si carnes preparadas para comer, disse a Frei Pedro: "Senhor Pedro, o que faremos " Frei Pedro respondeu: "Ah, senhor Francisco, aquilo que for do vosso agrado, pois, vós é que tendes o poder"... O Bem-aventurado Francisco concluiu: "Logo, como diz o Evangelho, comamos aquilo que foi colocado diante de nós".

Esse modo de proceder revela o espírito do qual estava imbuído São Francisco de Assis, que não era de modo algum o espírito da Lei, mas o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar, que sabe discernir os sinais dos tempos e, para Francisco, o Evangelho é a única regra de vida da qual nenhum frade menor está dispensado . Por isso, a Regra franciscana não é um conjunto de normas e proibições, como outras regras, mas uma direção para fazer-se frade menor em cada situação que a vida apresenta, justamente por isso pode ser flexibilizada de acordo com as circunstâncias.
Avisado por uma pitonisa e confirmado pela visita do dito "frade leigo", Francisco decidiu retornar à Itália. Mas, para enfrentar a grande perturbação pela qual a Ordem passava, seu carisma já não seria suficiente, então levou consigo o especialista em direito Frei Pedro Cattani, o organizador Frei Elias e o biblista Frei Cesário de Espira. Além disso, desviou-se do vale de Espoleto e foi para Roma a fim de conseguir do papa Honório III um cardeal protetor.
O papa concedeu-lhe o cardeal Hugolino, bispo de Óstia. O primeiro trabalho do cardeal protetor foi corrigir a situação de perturbação da Ordem, pois Francisco preferiu não interferir pessoalmente, então expulsou Frei João da Capella da cúria romana, exonerou Frei Filipe do cuidado das Damas Pobres, revogou as cartas que o mesmo havia recebido e reformou a Ordem pela atuação de Francisco, enquanto que os perturbadores foram acalmados.
Por orientação do cardeal Hugolino, São Francisco convocou um capítulo para a festa de São Miguel Arcanjo de 1220. Neste mesmo capítulo, São Francisco renunciou ao governo da Ordem em favor de Frei Pedro Cattani, e se decidiu a redigir uma nova Regra, auxiliado por Frei Cesário de Espira nas referências bíblicas. O texto da Regra foi apresentado no capítulo de Pentecostes de 1221 e foi aprovado para toda a Ordem pelos capitulares. No entanto, o texto apresentado ao papa e que recebeu a bula a 29 de novembro de 1223 foi outro, ou seja, foi o mesmo texto reformulado. Temos as duas Regras na íntegra, sendo que a primeira chamamos de Regra Não-bulada (RNB) e a segunda Regra Bulada (RB).
Mesmo que a Regra franciscana não tenha um conteúdo juridicista, que seja espiritual, toda normatização causa um engessamento do espírito e não foi diferente com os franciscanos. Francisco percebeu que a Regra poderia não ser suficiente para garantir a fidelidade dos irmãos à minoridade evangélica, então redigiu um "Testamento", onde procurou resgatar sua própria experiência de descoberta da vida evangélica e traçou o caminho ideal para o futuro da fraternidade.
4- A necessidade de ter uma Regra confirmada com bula papal
Até a renúncia ao governo da Ordem, Francisco tinha sido por demais homem de ação para se preocupar em colocar por escrito seu pensamento, porém, então passa a ter uma chance singular. Francisco não perde tempo e começa a redigir a Regra segundo sua inspiração e experiência como irmão menor.
Tal Regra, como já foi mencionado anteriormente, foi aprovada pelo capítulo de Pentecostes de 1221. No entanto, Sabatier afirma categoricamente que "somente a de 1210 é verdadeiramente franciscana" . Segundo Sabatier, a Regra de 1223 tem todos os indícios de ser indiretamente uma obra da Igreja, pois seu esforço é de assimilar o novo movimento e transformá-lo de acordo com seus interesses. Enquanto que a Regra de 1221 tem um papel intermediário, é o perfeito retrato da alma de Francisco dividido entre a fidelidade à sua inspiração e a necessidade de obedecer às intervenções eclesiásticas, entre o espírito de pobreza primitivo e a meteórica evolução da ordem.
A tese de Sabatier é reforçada pela ausência de informações sobre a redação da Regra Bulada. O que se sabe é que Francisco, auxiliado por Cesário de Espira nas citações bíblicas, escreveu uma Regra que foi aprovada pelo capítulo de Pentecostes de 1221. No entanto, o texto apresentado ao papa Honório III, e que recebeu a bula de confirmação a 29 de novembro de 1223, foi outro.
No entanto, temos razões muito claras para acreditar que os elementos essenciais da Regra de 1221 eram elaborações de sucessivos capítulos de Pentecostes, desde a aprovação da Proto-regra por Inocêncio III, em 1209. Trata-se de um testemunho externo à Ordem, ou seja, a carta de Jacques de Vitry sobre os inícios da nova Ordem, escrita em outubro de 1216, que dita o seguinte: "Os homens daquela Ordem reúnem-se, com muito proveito, uma vez por ano, num lugar predeterminado para, em conjunto, comer e alegrar-se no Senhor. Valendo-se do conselho de pessoas entendidas, fazem e promulgam leis santas que depois são confirmadas pelo Papa".
Nesta perspectiva, o trabalho realizado por Francisco foi o de organizar todo o material produzido pela experiência dos frades ao longo dos anos, portanto, não redigiu simplesmente o que lhe vinha à cabeça para impor aos irmãos. Podemos presumir também, com bases nessas informações, que a Regra apresentada ao papa Honório III, em novembro de 1223, é a evolução daquela aprovada pelo capítulo de Pentecostes de 1221, pois podemos acreditar que houveram ainda outros dois capítulos de pentecostes nesse ínterim. Além disso, a bula Solet annuere é destinada a Frei Francisco e aos demais irmãos da Ordem, e a Regra é escrita em primeira pessoa, portanto, temos aqui praticamente excluída a re-elaboração do documento por parte da cúria romana. Então, Sabatier, embora seja uma das maiores referências nos estudos das fontes franciscanas, parece estar equivocado quanto a interferência e imposição eclesiástica na Regra.
5- A Regra e suas implicações práticas
Como a Regra, ao receber a bula de confirmação, passou a ser considerada um documento eclesiástico, o capítulo de Pentecostes já não teria mais nenhum poder para re-elaborá-la, como acontecia todos os anos. Mas a Ordem ainda era muito jovem e em constante transformação, por isso a Regra precisava se adequar às novas realidades que nem sempre eram contempladas pelo texto original.
A título de exemplo, podemos destacar a questão dos estudos, pois até então os frades mais eruditos já entravam na Ordem preparados, como Santo Antônio. Mas na época da confirmação da Regra os frades já estavam em Paris, e em 1224 os frades chegam a Oxford, estes são os dois grandes centros de estudos da Europa no século XIII. Por outro lado, os frades, que até então eram pregadores populares, estavam começando a receber as primeiras igrejas.
Diante desse quadro, era necessário posicionar-se, e o que parece que Francisco fez foi incentivar os estudos a partir do espírito franciscano, ou seja, sem se apropriar do conhecimento e isso podemos perceber em uma de suas admoestações:
São mortos pela letra aqueles religiosos que não querem seguir o espírito da letra divina, mas só cobiçam saber mais palavras e interpretá-las para os outros. E são vivificados pelo espírito da letra divina os que não atribuem a si toda a letra que sabem e cobiçam saber. Mas, pela palavra e pelo exemplo, devolvem-na ao altíssimo Senhor Deus, de quem é todo o bem .

Já ao que se refere aos templos, vale o que prevê o capítulo 6 da Regra, embora ainda não contemple igrejas: "Os irmãos de nada se apropriem, nem de casa, nem de lugar, nem de coisa alguma. E, como peregrinos e estrangeiros neste século, sirvam ao Senhor na pobreza e na humildade" . A solução foi recebê-las como empréstimo ou por aluguel, a própria igreja de Santa Maria dos Anjos era alugada dos monges beneditinos do monte Subásio, e todos os anos Francisco mandava aos ditos monges uma cesta cheia de peixinhos conhecidos como cadozes .
Porém, a cada dia surgiam novas situações que clamavam por respostas e Francisco sentia suas forças se esvaindo, não podia morrer sem deixar uma herança à qual os frades pudessem recorrer sempre que estivessem em necessidades. Já no último ano de sua vida, ferido pelos estigmas, pela cegueira e pela impossibilidade de se fazer presente onde os irmãos mais necessitassem de sua assistência, ditou seu Testamento, que pretendia ser uma resposta aos novos tempos, além de ser uma reafirmação da Regra. Na verdade, o Testamento é a interpretação de Francisco à Regra a partir de sua experiência de vida e de seu desejo para o futuro da Ordem.
O Testamento é o último suspiro de São Francisco na estruturação da Ordem dos Menores (OMin). Pouco depois, 3 de outubro de 1226, Francisco partiu para a eternidade e foi canonizado por Gregório IX a 16 de julho de 1228. Contudo, foi traído pela fama de santidade, quando para preservar sua memória, os frades, dirigidos por Frei Elias, se viram obrigados a construir uma imensa basílica em sua honra.
Francisco havia se tornado alguém demasiadamente famoso e a igreja de São Jorge não era suficientemente segura para comportar seus restos mortais. Então, a construção de uma igreja mais imponente não era apenas uma questão de luxo, mas uma necessidade. Entretanto, a execução de tal obra feria de cheio o ideal primitivo ainda muito presente no coração da maioria dos frades, que se escandalizavam com a manipulação de imensas quantidades de dinheiro para o projeto, ainda mais que Regra proibia o contato com dinheiro. Temos instalado um grande impasse que os frades, por própria conta, já não tinham competência para resolver.

 

 

 

 


III- DEFINIÇÃO DA QUO ELONGATI E DIVISÃO FRANCISCANA
1- Construção da basílica de São Francisco
Sabatier considera Gregório IX, desde que assumiu a função de cardeal protetor da Ordem dos Menores, como inspirador do grupo que depreciava e comprometia o ideal primitivo de Francisco. Sendo assim, também o acusa de comprometer o futuro da Ordem quando ordenou a construção de uma majestosa basílica em honra do novo Santo, e já no dia seguinte à sua canonização lançar a pedra fundamental da igreja, isto é, 26 de julho de 1228. No entanto, o perdoa desse pecado: "Construída sob a inspiração de Gregório IX e sob a direção de Frei Elias, essa maravilhosa basílica é, ela também, um dos documentos dessa história e talvez eu não tenha razão em negligenciá-la".
Mas o que nos importa aqui é o rebuliço que essa construção causou em toda a Ordem, principalmente em relação à mudança estrutural que essa incomum decisão estava causando. O que podemos afirmar é que , ainda em vida, Francisco foi obrigado a normatizar a respeito de recepção de igrejas porque, provavelmente, os frades já haviam recebido alguma igreja: "Cuidem-se os irmãos de receber, de modo algum, igrejas, pequenas e pobres, habitações e tudo o que for construído para eles, a não ser que sejam como convém à santa Pobreza".
Se não era conveniente receber igrejas pequenas e pobres, para não ferir a santa Pobreza professada pela Regra, então como podem os frades construírem uma tão exuberante igreja em honra do "Pobrezinho de Assis" e à conselho do Papa. Mas, mesmo com a oposição de muitos frades, a obra será levada a termo pela persistência de Frei Elias, o que lhe custará a cabeça mais tarde, e com o consentimento do mesmo Papa que o tinha incentivado na construção da dita igreja. Segundo frei Jordão de Jano, a oposição da maioria dos frades se baseava no seguinte: "Frei Elias, eleito Ministro Geral, quis concluir a igreja que começara em Assis. Para poder concluir a obra iniciada, fez cobranças em toda a Ordem". Além disso, dispersou seus opositores por diversos lugares e deixou de convocar o capítulo, que só foi convocado por Gregório IX para a sua deposição.
Entretanto, já era projeto da cúria romana a canonização de Frei Francisco como bandeira do pontificado de Gregório IX, pois este passava por um momento de crise com o imperador Frederico II, inclusive tendo que fugir de Roma, devido a revolta dos cidadãos, e se instalar em Perusa. A canonização do novo santo, com toda fama que ele já desfrutava em toda a Europa, devolveria o prestígio e o poder que o papado possuía nos tempos de Inocêncio III. Entretanto, o São Francisco criado pela cúria romana, que podemos conhecer pela biografia encomendada pelo Papa a Tomás de Celano, já em 1228, não possuía uma experiência de vida possível de ser seguida, era diferente daquele da primeira hora que havia recrutado muitos seguidores. Esse São Francisco institucionalizado, carregado de um aparato normativo, que o Poverello havia recusado, era estranho ao genuíno seguimento de Cristo, isto é, "viver segundo a forma do Santo Evangelho".
"Com a carta Recolentes qualiter, de 29 de abril de 1228, Gregório IX concede uma indulgência de quarenta dias a quem fizesse ofertas para a construção da igreja em que deverá ser conservado o corpo do 'bem-aventurado Francisco'". Portanto, Gregório IX estava decidido a difundir a devoção ao amigo, mas nos moldes da cúria romana, como foi sempre seu esforço no cargo de cardeal protetor quando Francisco ainda vivia, e a construção da igreja era parte desse projeto.

 

2- Projeto da Cúria Romana para a Ordem dos Menores
Desde sua conversão Francisco colocara-se sob custódia eclesiástica ao não aceitar a convocação civil para devolver os bens do pai, mas ao responder, de boa vontade, aos apelos do bispo Guido. Quando o número dos frades começou a aumentar, o bispo de Assis se convenceu de ter agido corretamente na acolhida de Francisco e de seu movimento de penitentes, pois seus exemplos começaram a dar bons frutos em toda a região. Por isso, entristeceu-se ao encontrar o pequeno grupo de frades em Roma, pois imaginou que eles haviam abandonado a região do vale de Espoleto.
Francisco e seus companheiros foram a Roma porque queriam que Inocêncio III aprovasse sua forma de vida. Teve como grande postulador de sua causa o bispo da Sabina, o cardeal João de São Paulo, que primeiro tentou fazer com que eles passassem para alguma Ordem monástica, mas foi vencido pela perseverança deles. Segundo Celano, esse cardeal "se destacava entre os outros príncipes e dignitários da Cúria Romana por 'desprezar as coisas terrenas e aspirar às celestiais'". Considerando que essas qualidades deveriam estar, dentro da normalidade, presentes em todos aqueles que buscam consagrar sua vida ao serviço eclesiástico, a partir desse testemunho, podemos imaginar o tipo de pessoas que integravam o episcopado naquele período.
Mas, as preocupações de Inocêncio III, nesse período, eram as heresias, principalmente dos cátaros que, com seu ideal de pureza, vinha conquistando o apoio popular. Num grande esforço diplomático já tinha resgatado das fileiras heréticas alguns movimentos, como os valdenses, em 1207. Por isso, acatou ao pedido de Francisco e do próprio cardeal João de São Paulo, não sem hesitações, pois não foi de forma definitiva, "na esperança de que arrebatariam a bandeira da heresia".
A novidade dos mendicantes fez com que setores da Igreja repensassem sua estruturação, uma vez que os cargos eclesiásticos eram loteados entre pessoas que não tinham o menor interesse pela difusão do Evangelho, além de que os párocos já não se preocupavam com a pregação popular, e ainda muitos outros vícios assolavam a nave de Pedro. Por isso, os novos movimentos apareciam como uma nova aurora no horizonte da Igreja.
O cardeal Hugolino era um desses sonhadores que via no franciscanismo e em outros movimentos penitenciais a solução da crise eclesiástica. A Segunda Vida de São Francisco, escrita por Tomás de Celano, testemunha uma oferta que o bispo de Óstia teria feito a São Francisco e a São Domingos: " Na Igreja primitiva , os pastores da Igreja eram pobres e homens de caridade, não desejosos de cobiça. Por que não fazemos Bispos e prelados os vossos frades que se destacam entre os outros pela doutrina e pelo exemplo?"
Os dois santos, segundo o mesmo relato, recusaram humildemente a oferta do bispo, cada qual com suas explicações. No entanto, o prelado parece que não ficou satisfeito com a resposta, embora tenha se dobrado à vontade de ambos, pois, como papa, com o nome de Gregório IX, fez eleger muitos bispos dominicanos e o franciscano Frei Leão Valvassori como arcebispo de Milão, embora sua confirmação tenha ocorrido somente em 1244, por causa da morte do Papa em agosto de 1241.
Depois dessa exceção, a Igreja veio sempre mais pedindo frades para o colégio episcopal, sem considerar a intuição de Francisco de que o poder pode corromper a alma do frade menor, levando-o à disputa por cargos. No entanto, a eleição de bispos não foi, nem de longe, a causa definitiva do distanciamento do espírito franciscano primitivo, mas o recurso à cúria romana sempre que aparecia alguma querela dentro da Ordem e a concessão de bulas por parte da Igreja.
3- Conflito em torno da observância do Testamento
Frei Francisco tinha plena consciência de sua finitude, de sua condição humana e da proximidade de seu fim. Sua experiência religiosa levou-o a diagnosticar, num olhar retrospectivo, os perigos possíveis no itinerário de sua querida fraternidade, o resultado foi o perfeito retrato de sua alma minorítica, e a isso ele chamou de Testamento.
Na sua ausência não faltaria um manual onde os frades pudessem encontrar soluções para as novas situações que costumam aparecer. Porém, o leitor poderia se perguntar: como um documento que não completa mais do que três páginas poderia ser suficiente para responder às novas situações que pudessem aparecer? Qualquer pessoa que venha a apreciar o Testamento logo notará que não se trata de um texto normativo, mas da narração da experiência de conversão de São Francisco e de conselhos, como de pai, para a procedência dos frades, portanto, é a expressão do espírito do seráfico pai. Sendo assim, a resposta aos sinais dos tempos o frade vai encontrar no espírito franciscano, ou seja, cada qual fará sua própria experiência a partir do discernimento da experiência de Francisco. Ora, "Frei Francisco é, certamente, o elemento primeiro e luminoso da identidade franciscana".
Contudo, bem cedo apareceu na Ordem uma interpretação legalista que fez o Testamento parecer um peso a mais nos ombros dos frades, já calejados pela necessidade de suportar o peso da Regra. Nem os que queriam observa-lo ao pé da letra, nem os que desejavam aboli-lo parece que entenderam o verdadeiro objetivo do mesmo.
Francisco, como um homem evangélico, tinha consciência de que a Regra devia ser um elemento facilitador na vivência do ideal primitivo. Contudo, constatava-se uma interpretação juridicista da mesma. Por isso redigiu o Testamento, que logo tornou-se, na concepção de boa parte dos frades mais um código de normas a ser seguido.
Na realidade, ao frades menores estavam desorientados no momento imediatamente posterior à morte do patriarca. A presença de Francisco no seio da Ordem, por si mesma, já era um código de conduta, e ainda que já existisse a Regra a validade da mesma era medida pela observação da experiência dele. Portanto, ainda que tenha renunciado à direção da Ordem dos Menores, Francisco nunca deixou de exercer um comando espiritual. Mas, na sua ausência, começam a aparecer os pontos duvidosos na interpretação da Regra, somados à necessidade ou não de observar o Testamento. Tanto que Tomás de Eccleston, no tempo do generalato de Frei Aimão, não deixou passar despercebido o sonho de Frei João de Bannister, no qual São Francisco mostra-lhe um poço profundo, então Frei João lamenta-se: "'Pai, eis que os padres querem explicar a Regra. Ah, se tu mesmo, antes, nos explicasses a Regra'. Respondeu São Francisco: 'dirige-te aos frades leigos e eles te exporão a tua Regra'".
Contudo, no Testamento Francisco proíbe qualquer interpretação ao afirmar: "e ordeno firmemente por obediência a todos os meus Irmãos, clérigos e leigos, que não façam glosas na Regra nem nestas palavras dizendo:'Assim devem ser entendidas'". O ministro geral, Frei João Parenti, precisava agir rápido, pois podia perder o controle da situação. Então, decidiu apresentar a questão a Gregório IX, que fora cardeal protetor da Ordem e amigo de Francisco, por isso, além de autoridade jurídica, também possuía autoridade moral para interpretar a Regra e o Testamento.
"Cabia ao Papa responder a estas questões; mas o fato de alguns poderem colocar estas questões fala claro da passagem do espírito à Lei, da moral aberta à moral fechada, que a Ordem estava prestes a viver".

4- Quo Elongati, uma bula necessária?
O ministro geral, Frei João Parenti, organizou uma comissão de frades, da qual participou Santo Antônio, Frei Aimão de Faversham, futuro ministro geral, e Frei Leão Valvassori, futuro arcebispo de Milão e primeiro franciscano elevado à dignidade episcopal, para tratar com o Papa acerca das dificuldades em observar a Regra ao pé da letra. Embora, a observância de leis à letra, sem a intuição de seu espírito inspirador, seja inconcebível à mentalidade hodierna, a aplicação da Regra estava se tornando um problema insuperável para a direção da Ordem naquele período.
O pivô da crise era, contudo, o Testamento. Por isso, Gregório IX foi enfático ao afirmar que os irmãos não eram obrigados a observar também o Testamento, e começa sua argumentação pela autoridade de sua familiaridade com São Francisco. Entretanto, o Papa, quando cardeal de Óstia e antes mesmo de ser protetor da Ordem, já exercia certa influência sobre Francisco, e o primeiro exemplo claro de sua autoridade sobre o santo patriarca é quando o convence a permanecer no vale de Espoleto. Este episódio se deu após o capítulo de Pentecostes de 1217, quando Francisco se decidiu também partir em missão, e a terra escolhida foi a França, que era uma região muito estimada por ele, seu passatempo favorito era cantar louvores ao Altíssimo em francês, até seu nome era uma homenagem àquelas terras; mas encontrou o cardeal Hugolino em Florença, que o desencorajou da viagem em prol da sustentação da espiritualidade da Ordem. Então, o argumento da familiaridade é insuficiente, uma vez que essa familiaridade começa com o cerceamento da liberdade.
Todavia, o Papa favoreceu a perpetuação do texto original da Regra Bulada quando, no 3º parágrafo da "Quo elongati", lembrou o dado da "intenção de Francisco". Ora, mesmo tendo desautorizado o Testamento, suas respostas à comissão de frades não passa de conselhos sobre a melhor forma de observar a Regra. No entanto, a aquisição desse documento já é uma violação à vontade de Francisco expressa no Testamento, isto é, "não ousem pedir algum rescrito à Cúria Romana" , que abre precedente a inúmeros documentos dirigidos à Ordem dos Menores.
5- Uma Ordem dividida
A bula "Quo elongati", ao invés de esclarecer os frades, causou um racha na fraternidade. A intenção dos irmãos que queriam preservar e observar o Testamento não era questionar a boa vontade e autoridade do Papa, que eles bem sabiam que fora muito próximo de São Francisco, mas ser fiéis ao mandato do fundador e inspirador do espírito minorítico.
Paul Sabatier, após suas pesquisas de historiografia franciscana, pode afirmar que "o Testamento foi confiscado e destruído, chegou-se até a queimá-lo sobre a cabeça de um irmão que se obstinava a querer observá-lo" . No entanto, houve irmãos, chamados espirituais, que, em resistência aos frades da comunidade, fugiram e conseguiram preservar cópias do mesmo. Por causa dessa desobediência temos hoje o texto completo do Testamento.
Fato bastante polêmico, que marcou uma enorme guinada na Ordem, foi a deposição de Frei Elias do generalato, em 1239, e a eleição de Frei Alberto de Pisa. Tal eleição marcou a vitória do partido dos clérigos, pois até então nenhum ministro geral fora sacerdote, como jamais um frade leigo será ministro geral depois disso. Ao término do capítulo, Frei Alberto de Pisa celebrou uma missa em que afirmou orgulhosamente: "Vós acabais de ouvir uma Missa, jamais celebrada por um Ministro Geral em nossa Ordem".
Os Papas foram, a partir de então, cumulando a Ordem com privilégios. O próprio Gregório IX, que nos anos 30 do séc. XIII não ousaria eleger um bispo minorita, com a clericalização da Ordem se anima a eleger Frei Leão Valvassori para o arcebispado de Milão. Como os frades não podiam tocar em dinheiro, Inocêncio IV, com a bula "Quanto studiosius", de 1247, dá aos provinciais a faculdade de nomear um procurador para agir em nome dos frades. Inocêncio IV também, com a bula "Cum tamquam veri", de 1250, eleva as igrejas dos frades à dignidade de "conventuais", isto é, o que antes era apenas capela particular dos frades passa a ter os mesmos direitos e deveres de qualquer igreja paroquial.
Esse processo de institucionalização foi aprofundando uma crise na Ordem, até que um grupo de reformadores da Ordem foi tomando corpo e acabou sendo conhecido como "espirituais franciscanos", contudo, não era um grupo homogêneo, pois existiam desde facções mais sérias de retorno às origens até aqueles que se aprofundaram nas heresias joaquimitas . No entanto, eles foram desaparecendo depois da calorosa batalha entre os franciscanos e João XXII que, com a bula "Cum inter nonnullos", de 1323, declarou herética a afirmação de que Jesus e os apóstolos não possuíam bens, nem em comum nem individualmente. Na prática, os espirituais franciscanos foram declarados heréticos, mas a comunidade da Ordem também foi afetada, pois, o Papa revogou a reserva pela Sé apostólica dos bens franciscanos com a bula "Exiit qui seminat", e a Ordem se viu obrigada a administrá-los.
Mas o desejo de retorno às origens não morreu no seio da Ordem dos Menores. Já no ano de 1368 o irmão leigo Frei Paulúcio Trinci, sob licença do ministro geral Frei Tomás de Frignano, foi fazer a experiência da regular observância com mais 4 ou 5 companheiros no eremitério de Brogliano. No início do século XV, a Regular Observância não possuía nem 20 conventos, mas despontou como importante reforma a partir do ingresso dos freis São Bernardino de Sena, São João de Capistrano, Alberto Sarteano e São Tiago das Marcas, que ficaram conhecidos como as "quatro colunas da reforma observante", dos quais somente São João de Capistrano nunca pertenceu a porção não reformada da Ordem, ou seja, à conventualidade, pois já ingressou entre os observantes em 1414.
No tempo das "quatro colunas da reforma" brigava-se para recuperar o espírito originário, frente a uma Ordem franciscana demasiadamente institucionalizada, conventualizada e, como a Igreja, em franca decadência. Porém, no início do século XVI a querela se dava em torno da primazia jurídica da Ordem, uma vez que o número de frades, pela primeira vez tinha alcançado o equilíbrio, pois os Conventuais contavam algo em torno de 30.000 e as reformas juntas somavam em torno de 30.000 também.
Entretanto, a 29 de maio de 1517, diante da recusa dos Conventuais de se reformarem e de aceitarem um ministro geral reformado, Leão X decretou a separação total entre as duas vertentes da Ordem com a bula "Ite vos", passando a representatividade da Ordem aos Observantes e reduzindo o título do ministro geral Conventual a "mestre geral". Essa manobra foi muito contestada, pois as evidências de compra de influências eram muitas,
No período compreendido entre julho de 1516 e junho de 1517, os Observantes depositaram nos cofres da Igreja romana bem 26.041 ducados, contra os 1.200 dos Conventuais e os 8.740 de outros, estranhos à Ordem. O que obteve a Observância em 1517? .

A troca de papéis, em todos os sentidos, ficou clara no impulso da reforma Capuchinha, que começou já em 1525 com Frei Mateus de Bascio, com o nome de "Frades Menores da Vida Eremítica", mas foram logo apelidados pelo povo de "Capuchinhos" por causa do capuz piramidal. Como a nova reforma estivesse sofrendo muitas perseguições por parte de seus antigos superiores observantes, Clemente VII concedeu-lhes a bula "Religionis zelus", de 3 de julho de 1528, sujeitando-os aos superiores Conventuais, condição em que permaneceram até sua independência jurídica em 1619.
Como pudemos comprovar, a bula "Quo elongati" gerou a "Ite vos", portanto, os frades implantaram no seio da Ordem o germe da separação ao contrariar aquele mandato: "Ordeno firmemente pela obediência a todos os Irmãos, onde estiverem, que não ousem pedir algum rescrito à Cúria Romana, nem através de si ou de pessoa intermediária, nem em favor de uma igreja, ou de outro lugar, nem em vista de pregação, nem diante da própria perseguição corporal".


CONCLUSÃO


São Francisco de Assis não foi o fundador da Ordem dos Menores no sentido próprio do termo, pois foi o crucifixo de São Damião que determinou sua missão. Além disso, os primeiros irmãos não obedeceram a um chamado de Francisco para seguí-lo, mas se juntaram a ele porque se sentiram atraídos pelo seu exemplo de vida. Portanto, foi Deus mesmo que suscitou os franciscanos no seio da Igreja para que ela recuperasse os valores evangélicos que, por soberba e ganância, havia perdido ao longo dos séculos.
Ponto determinante da conversão de Francisco é, sem dúvida, o encontro com os leprosos, quando ele teve contato profundo com a miséria humana, inclusive a própria, e ao fazer misericórdia com eles tornou-se homem evangélico, pois, segundo seu Testamento, "aquilo que me parecia amargo, converteu-se em doçura da alma e do corpo" . Todas as vezes que os franciscanos se distanciaram dessa experiência do pai seráfico o resultado foi catastrófico para a Ordem, pois também deixaram de entender a Regra e o Testamento. O que pudemos verificar ao longo deste trabalho foi que o "encontro com os leprosos" foi perdendo sempre mais sua significância, e em alguns casos foi relegado ao esquecimento mesmo.
Constatamos também que, quase sempre, se deu ênfase à questão da interpretação das normas contidas na Regra, às implicações do Testamento para a vida prática e à institucionalização da Ordem, em detrimento da fraternidade. Quando fazemos uma análise mais profunda dos dados históricos, percebemos que a fraternidade é um bem de primeira grandeza, pois a Ordem começou como uma comunidade de irmãos, e Frei Francisco foi pedir a Inocêncio III a aprovação de uma Regra de vida para facilitar a convivência. Portanto, a Regra existe para a fraternidade e não o contrário, e na história franciscana muitas vezes se depreciou a fraternidade para privilegiar uma observância mais fiel da Regra. Ora, observa mais fielmente a Regra franciscana quem não se dispensa do amor ao próximo, principalmente ao próximo mais próximo, que é o irmão.
Por tudo isso, a divisão franciscana não foi um escândalo que envolveu somente a Ordem dos Menores, mas toda a Igreja, uma vez que a tarefa da mesma é o testemunho do Evangelho de Jesus Cristo. A quebra da fraternidade franciscana representou a negação da eficiência evangélica, pois se deu como resultado da impossibilidade do diálogo.
Contudo, a vitalidade que a I Ordem franciscana desfruta ainda hoje leva-nos a ter um olhar esperançoso em relação à sua significância para os anseios da Igreja. As três raízes da I Ordem juntas, isto é, Capuchinhos, Conventuais e Menores, somam algo em torno de 30.000 frades, e atualmente são a maior força missionária que a Igreja possui. As decisões mais importantes para os destinos do franciscanismo são tomadas em forma de colegiado entre os três ministros gerais, exemplo disso foi a elaboração da nova fórmula de profissão que é a mesma para as três raízes e para a Terceira Ordem Regular. Além disso, é muito comum aparecerem novos movimentos e congregações religiosas inspiradas no franciscanismo.
A contribuição do presente trabalho está na busca incondicional da verdade histórica, pois houve uma cautela considerável por consulta às fontes históricas e pesquisas que, convencionalmente, são tidas como fidedignas. Ora, esse garimpo das causas da divisão franciscana, longe de alimentar rixas históricas, leva-nos a olhar a história da Ordem dos Menores com mais humildade, pois evidencia a nossa própria fraqueza e incapacidade de manter a unidade com as nossas próprias forças. São Francisco só conseguiu esse feito porque estava imbuído do Espírito do Senhor.
Por outro lado, mesmo não participando daquele momento histórico, como herdeiros da tradição franciscana, somos convidados a pedir perdão pelos pecados de nossos antepassados, seja por excesso de zelo ou por relaxo mesmo. O mais importante é que, como frades menores, testemunhemos a minoridade evangélica que recebemos como herança. É irrelevante se estamos sob a obediência das "Constituições Gerais" dos Capuchinhos, dos Conventuais ou dos Menores, pois somos filhos legítimos do mesmo pai seráfico, São Francisco de Assis, e as reformas foram sempre tentativas mais ou menos eficientes de retorno às origens. Ultimamente, na Ordem franciscana esse retorno às origens tem sido feito, por uma cooperação pacífica entre os franciscanos, através do estudo das Fontes Franciscanas, que foi desencadeado por Paul Sabatier, mas que encontrou sua expressão máxima em Caetano Esser.
Portanto, o espírito franciscano originário não está morto, mas ainda pulsa no coração de cada frade e de cada pessoa que se simpatiza com a minoridade evangélica do "Poverello