Evangelhos Dominicais Comentados

9 de novembro de 2008
32º Domingo do Tempo Comum
Evangelho: Jo 2,13-22 (Dedicação da Basílica de Latrão)
1ª Leit.: Sb 6,12-16
Sl 62(63)
2ª Leit.: 1Ts 4,13-18

Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam sentados. Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, com as ovelhas e os bois; espalhou moedas e derrubou as mesas dos cambistas. E disse aos que vendiam pombas: "Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!". Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, de que a Escritura diz: "O zelo por tua casa me consumirá". Então os judeus perguntaram a Jesus: "Que sinal nos mostras para agir assim?". Ele respondeu: "Destruí este Templo, e em três dias o levantarei". Os judeus disseram: "Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?". Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo. Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e nas palavras dele.

Jesus expulsa os vendilhões do tempo
Hoje é o aniversário da Dedicação da Basílica de Latrão, catedral de Roma, fundada pelo papa Melquíades (311-314). Esta é considerada a mãe de todas as igrejas do mundo; nela se realizaram as sessões de cinco grandes concílios ecumênicos.
Na solenidade da Dedicação da Basílica de Latrão, não se celebra uma construção, mas aquilo que representa. Trata-se de uma festa que recorda o local onde são celebrados os mistérios da salvação.
O texto escolhido é do segundo capítulo de João (Jo 2,13-22), em que Jesus compara o templo com o seu corpo que ressuscitará. Esta cena acontece logo após as Bodas de Caná, na Galiléia. Jesus vai a Jerusalém para a primeira das três páscoas relatadas no quarto Evangelho de João. Para entender sua atitude, devemos lembrar que o templo era o lugar onde o povo de Israel oferecia seus sacrifícios ao Senhor, com oferendas provenientes de todo o país. Todavia, havia se transformado numa espécie de "Banco Central" do povo judeu, um centro de arrecadação de impostos, câmbio e venda de animais para os sacrifícios. Vendo que "a casa do Pai tinha se tornado um mercado", Jesus expulsou os mercadores e suas mercadorias, bem como o culto praticado ali.
A imagem de Jesus com o chicote em punho, expulsando do templo de Jerusalém cambistas e comerciantes e derrubando as mesas pelo chão, não se coaduna com aquela de "Jesus manso e humilde" (Mt 11,29) que temos; mas é preciso recordar que, quando ataca o comércio, Ele está impedindo que funcione alimentando o sistema explorador e opressor do povo. O templo de pedras será substituído pelo próprio corpo e, a partir disso, o verdadeiro templo serão as pessoas, o povo da nova aliança.
Jesus desafia as autoridades judaicas do templo, dizendo que, se este fosse destruído, Ele o reergueria em três dias (v.19). Para João, em Jesus, edifica-se um novo templo com um novo culto, que será reerguido em três dias. No novo edifício, vai se manifestar a glória de Deus e todos o adorarão em espírito e verdade.
A mensagem é clara: o primeiro templo de Deus é formado pelas pessoas muitas vezes oprimidas. A verdadeira prova da grandeza da fé de uma comunidade não está no tamanho de sua igreja, mas no cuidado com os mais sofridos entre o povo. Nosso Deus não é o Deus dos tijolos ou da areia, mas das pessoas. O verdadeiro culto acontece em "espírito e verdade" (Jo 4,24), no zelo pelos sofridos e fracos!

16 de novembro de 2008
33º Domingo do Tempo Comum
Evangelho: Mt 25,14-30
1ª Leit.: Pr 31,10-13.19-20.30-31
Sl 127(128)
2ª Leit.: 1Ts 5,1-6

Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos: "Um homem ia viajar para o estrangeiro.
Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. A um deu cinco talentos, a outro deu dois e ao terceiro deu um; a cada qual de acordo com sua capacidade. Em seguida viajou. O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles e lucrou outros cinco. Do mesmo modo, o que havia recebido dois lucrou outros dois. Mas aquele que havia recebido um só saiu, cavou um buraco na terra e escondeu o dinheiro de seu patrão. Depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar contas com os empregados. O empregado que havia recebido cinco talentos entregou-lhe mais cinco, dizendo: 'Senhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco que lucrei'. O patrão lhe disse: 'Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!'. Chegou também o que havia recebido dois talentos e disse: 'Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei'. O patrão lhe disse: 'Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!'. Por fim, chegou aquele que havia recebido um talento e disse: 'Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste. Por isso, fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence'. O patrão lhe respondeu: 'Servo mau e preguiçoso! Tu sabias que colho onde não plantei e ceifo onde não semeei? Então, devias ter depositado meu dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse em juros o que me pertence'. Em seguida o patrão ordenou: 'Tirai dele o talento e dai-o àquele que tem dez! Porque a todo aquele que tem será dado mais e terá em abundância, mas daquele que não tem até o que tem lhe será tirado. Quanto a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes!'".

Parábola dos talentos
O Evangelho de Mateus (25,14-30) está emoldurado pelo encerramento do Ano Litúrgico de 2008. Neste horizonte, a liturgia propõe-nos uma perícope extraída do discurso escatológico de Mateus 25. A expectativa e a vigilância convertem-se em responsabilidade pela transformação do mundo. A parábola dos talentos ressalta a vigilância como atitude de quem se sente responsável pelo Reino. E quem recebeu talentos e não os faz render, pode ser demitido por "justa causa" do Reino.
Por trás da parábola dos talentos, há um tempo de expectativa e de sofrimento. Na época em que Mateus escreveu o Evangelho, muitos cristãos estavam desanimados diante da demora da segunda vinda do Messias. Além disso, o converter-se à fé cristã acarretava perseguição e até morte. As comunidades se esvaziavam e o ardor por Jesus Cristo esmorecia. O Evangelista escreve com o objetivo de reanimar a fé.
Jesus apresenta-se como um senhor que, antes de empreender uma viagem, reúne seus empregados e reparte com eles sua riqueza para que a administrem. A um deu cinco talentos, a outro dois, e um ao terceiro: a cada um segundo sua capacidade. E viajou para longe. No retorno, ele pede contas. Os dois primeiros fizeram que os talentos rendessem em dobro. O último devolveu o talento tal qual tinha recebido, pois, com medo de arriscar, havia enterrado o talento. Curioso é o motivo de tal procedimento. Não tomou tal atitude por preguiça, mas por medo da severidade de seu senhor. Em conseqüência, os dois primeiros foram elogiados e recompensados pela eficiente administração e o último foi demitido por justa causa.
O terceiro empregado devolvendo ao senhor o talento que recebera, nem mais nem menos, em termos de justiça, está quite. Ele personifica os membros das comunidades que não traduzem em seus relacionamentos os dons recebidos de Deus ou daqueles que, observando rigorosamente a Lei, se consideram perfeitos cumpridores da vontade do Senhor, mas que na verdade desconhecem a exigência fundamental do Messias, que é de gratidão e iniciativa. Por isso, são castigados por sua mediocridade.
"Enterrar os talentos" é sinônimo de eximir-se de responsabilidade diante da missão que o Ressuscitado confiou a seus discípulos como suas testemunhas e continuadores da obra que Ele mesmo recebeu do Pai: salvar a humanidade (cf. At 1,6-11). Enterrar os talentos é privar a comunidade de dons de que ela está necessitando. A omissão é um pecado que prejudica a edificação da comunidade. É instalar-se para não correr riscos. Para aqueles que aderiram à fé, não basta serem bons evitando o mal a fim de serem aprovados como solícitos administradores dos bens do Reino. O que se exige deles é a capacidade de correr o risco com a responsabilidade e o compromisso. Jesus alerta as comunidades a viverem o tempo presente em fidelidade ativa como um preparo ao juízo final. Quando voltar, o Senhor recompensará os bons administradores com a salvação - isto é, com a alegria de seu convívio na Jerusalém celeste.


23 de novembro de 2008
33º Domingo do Tempo Comum
Evangelho: Mt 25,31-46 (Festa de Cristo Rei)
1ª Leit.: Ez 34,11-12.15-17
Sl 22(23)
2ª Leit.: 1Co 15,20-26.28

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: "Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: 'Vinde, benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar'. Então os justos lhe perguntarão; 'Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?'. Então o Rei lhes responderá: 'Em verdade eu vos digo que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos foi a mim que o fizestes!'. Depois o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: 'Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos. Pois eu estava com fome e não me destes de comer; eu estava com sede e não me destes de beber; eu era estrangeiro e não me recebestes em casa; eu estava nu e não me vestistes; eu estava doente e na prisão e não fostes me visitar'. E responderão também eles: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome ou com sede e não te servimos?'. Então o Rei lhes responderá: 'Em verdade, eu vos digo: todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos foi a mim que não o fizestes!'. Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna".

O último julgamento
No último Domingo do Ano Litúrgico, temos uma parábola retirada da vida cotidiana dos pastores. O Senhor será nosso juiz agindo como o pastor que, ao anoitecer, separa as "ovelhas dos cabritos". Tal passagem nos faz recordar a parábola do joio e do trigo que crescem juntos, mas na hora da colheita são separados (Mt 13,24-30). Ou dos pescadores que na praia separam os peixes bons dos ruins (Mt 13,47-50).
O Filho do Homem, juiz da história, reconhecido como Rei, faz a declaração final: salvação para uns e condenação eterna para outros. O critério de avaliação final surpreende tanto os bons quanto os maus: "Senhor, quanto foi que te vimos...". A prática do amor e da misericórdia para com os irmãos é o critério de participação ou de exclusão do Reino de Cristo. O Rei chamará de "abençoados por meu Pai" (benditos) aqueles que, como Ele, foram em busca dos pecadores, curaram as feridas de tantos desalentados, restituíram a saúde a quem precisava e zelaram pelos enfraquecidos, famintos, desabrigados e oprimidos. Segundo o evangelista Mateus, seremos julgados por nossa capacidade de praticar a justiça e a misericórdia, sendo fiéis e criativos em traduzir o amor em gestos concretos de solidariedade. Notemos que Jesus, o Senhor do universo, fala de realidades bem concretas e vitais: comer, beber, vestir, visitar etc., ou seja, se nos dedicamos a criar condições favoráveis à justiça e à vida digna.
O que qualifica a nossa vida não é tanto o que dizemos, mas aquilo que praticamos, em nosso dia-a-dia. O julgamento que acontecerá com Deus, na realidade é o ápice do encontro com Deus que veio e que vem em Jesus na pessoa de irmão, especialmente nos mais pequeninos e excluídos. Jesus identifica-se com os necessitados: famintos, sedentos, forasteiros, nus, enfermos, encarcerados. "Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes" (Mt 25,40). "Amor a Deus e amor ao próximo fundem-se num todo: no mais pequenino, encontramos o próprio Jesus e, em Jesus, encontramos Deus" (Bento XVI, Deus Caritas est, 15).
O Evangelho de Mateus (25,31-44) é, pois, um alerta para a sociedade que cada vez mais cultua o mercado, a propriedade, o dinheiro aplicado, o crescimento do PIB, o aumento das exportações, o rigor fiscal, o consumo de bens etc., sem a menor preocupação com as pessoas (salvo algumas exceções), com os sem-escola, os sem-saúde, os sem-terra, os sem-teto e os sem-identidade. Isto é uma sociedade que descuida daqueles que têm fome, sede e são imagens vivas de Cristo. Serão premiados com o Reino definitivo aqueles que na existência se ocuparam na promoção e na defesa da dignidade de quem passava fome e sede e soube acolher os peregrinos etc. Proclamemos a realeza de Cristo Ressuscitado pela vivência do amor misericordioso para com todos, particularmente os pobres e excluídos. Sejamos gratos pelo litúrgico que se encerra!

30 de novembro de 2008
1º Domingo do Advento
Evangelho: Mc 13,33-37
1ª Leit.: Is 63,16b-17.19;64,2b-7
Sl 79(80)
2ª Leit.: 1Co 1,3-9

Naquele tempo, disse Jesus aos discípulos: "Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento. É como um homem que, ao partir para o estrangeiro, deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua tarefa. E mandou o porteiro ficar vigiando. Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem: à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer. Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: Vigiai!".

A vigilância
Esta é a recomendação ao mandamento do Senhor: "Vigiai!". Tal vigilância é uma postura própria do discípulo. Quando partiu, o Senhor deixou-nos sua casa e nos deu seu poder (cf. Mc 13,34); portanto, é nossa incumbência zelar por sua casa e usar seu poder agindo da mesma forma que ele. Vê-se, portanto, que a vigilância é uma atitude prenhe de fidelidade operosa. É seguimento! Isso nos plenifica de responsabilidade, pois a vinha do Senhor a nós, agora, é o nosso caminhar para Ele.
A história é o lugar do discernimento cuja principal condição é a espera vigilante, resultando na operosidade fiel. A vigilância constante consiste em ter os olhos do coração voltados para o seu Senhor (cf. Sl 123[122],2) para vê-lo enquanto vem, em cada momento. O seguimento fiel e a operosidade que realizam, com responsabilidade, o encargo recebido. O Senhor já atingiu sua meta. Sua ausência, agora, é a distância que nos cabe preencher, percorrendo seu caminho, até quando estaremos para sempre com Ele. Jesus foi-se, mas não nos abandonou. Ele nos deixou tudo o que tinha: "sua casa e seu poder" (Mc 13,34). Com efeito, batizou-nos em seu Espírito, para que pudéssemos entrar em sua casa e viver da mesma forma que Ele. O discípulo deve precaver-se do fanatismo de quem espera com agitação, especulando sobre datas que marcam o fim dos tempos, como também da desilusão de quem não espera nada e "dorme". Ele sabe que o Reino de Deus não está aqui nem acolá, mas sim em nós (Lc 17,21), como responsabilidade pessoal e intransferível de seguir o Senhor em seu caminho. Iniciemos com empenho o novo ano litúrgico e, ao mesmo tempo, nosso preparo para a festa do Natal do Senhor.