Origem do nome "Frades
Menores"
A minoridade Franciscana
Antes da aprovação da Regra,
o grupo de frades de Rivotorto não
tinha uma denominação específica
e se apresentava simplesmente como "Penitentes
de Assis", porque ainda não eram
uma Ordem. Somente depois da aprovação
da Regra ou forma de vida por parte de Inocêncio
III começaram a chamar-se Frades Menores,
mas graças ao testemunho do cronista
Buscardo de Ursperg sabemos que no princípio
se chamavam Pobres Menores, em sintonia com
outros movimentos de seu tempo, heréticos
ou não, que se chamavam Pobres de Lion,
Pobres Lombardos, Pobres católicos,
etc.
Tal relação com outros grupos
religiosos contemporâneos não
é de se estranhar: Francisco, ainda
que dirigido e orientado sempre por inspiração
divina, nunca viveu a mercê das inquietudes
de seus contemporâneos, nem seu projeto
de vida foi alheio aos novos projetos de vida
religiosa que se deflagrava ao seu redor.
Basta comparar seu ideal de pobreza, itinerância,
pregação da penitência
e demais práticas evangélicas
e apostólicas para comprovar que não
era diferente dos demais grupos. Portanto,
a originalidade franciscana não está
ali, mas na radicalidade de vida, que superou
a todos, na catolicidade insubornável
e, sobretudo, no modo humilde e serviçal
-minoridade- com que se apresentava ante os
demais.
Para salvaguardar a humildade do grupo foi
que o santo substituiu em seguida o nome de
Pobres pelo de Frades, como refere o mesmo
Buscardo de Ursperg ao descrever seu estilo
de vida; "Estes -os menores- ao contrário
daqueles (os pobres lombardos): andavam realmente
descalços, tanto no verão como
no inverno, e não recebiam dinheiro
nem outras coisas, salvo o alimento ou, todo
o mais, a roupa necessária, se alguém
lhes desse espontaneamente, pois nada pediam
a ninguém. Eles mesmos, andando no
mundo, ao se dar conta de que as vezes a fama
de muita humildade pode levar a vanglória
e de envaidecer-se diante de Deus por motivo
de pobreza, como ocorre com muitos, preferiram
chamar-se Frades Menores, em vez de Pobres
Menores, submetidos totalmente à Sé
apostólica".
AoSubmeter-se totalmente à Sé
apostólica, Francisco impediu que sua
Ordem tropeçasse na mesma pedra que
outros contemporâneos seus, caindo na
arrogância e na vanglória. Não
aconteceu isso por graça de Deus e
porque o bispo de Assis Guido I teve suficiente
sabedoria desde o princípio para evitar
esse desastre. O mesmo Santo se mostrava agradecido,
quando dizia aos seus irmãos: "O
Senhor nos enviou para propagar a sua fé
e dos prelados e clérigos de nossa
Santa Mãe Igreja. Por isso, devemos,
na medida do possível, amá-los
sempre e honrá-los e respeitá-los.
Os irmãos se chamem Menores porque,
como no nome, também sejam humildes
pela conduta e exemplo com todos os homens
deste mundo. Porque no princípio de
minha conversão, quando me separei
de meu pai carnal e do mundo, o Senhor pôs
suas palavras na boca do bispo de Assis para
dar-me conselho e ânimo no serviço
de Cristo. Por essa razão e por outras
muitas qualidades eminentes que aprecio nos
prelados, quero amá-los, venerá-los
e tê-los como meus senhores; e não
somente aos bispos, mas também aos
sacerdotes pobrezinhos". Como diziam
seus companheiros, Francisco, com a ajuda
de Deus e como sábio arquiteto, se
fundamentou a si mesmo e a sua Ordem sobre
a rocha firme, quer dizer, sobre a altíssima
pobreza e humildade do Filho de Deus, chamando-a
"Religião dos Frades Menores".
Muito se tem escrito sobre a eleição
desse título, mas tem que se descartar
absolutamente que tivesse que ver com uma
opção de classes. É certo
que em Assis, como no resto da Itália,
existiam duas classes sociais, os menores
ou classe urbana, a qual ele pertencia, e
os maiores ou nobres, a qual ele aspirava
pertencer. Mas nada, nem em seus escritos
nem nas demais fontes, dá a entender
que fosse assim; antes disso, escolheu o caminho
da minoridade evangélica, como se quisesse
dar uma lição não somente
nos maiores e poderosos, mas também
nos que, chamados menores, aspiravam, pela
riqueza e poder, colocar-se a altura da classe
feudal dominante. Disse frei Tomás
de Celano que Francisco elegeu o nome de Menores
ao rever a Regra que ele mesmo havia redigido,
onde se dizia: "Os irmãos sejam
menores". Foi então que exclamou:
"Quero que esta fraternidade se chame
Ordem dos Frades Menores". Com efeito,
em vários capítulos da Regra
de 1221, que parecem remontar-se ao texto
primitivo, aparece o termo menores, sempre
com uma indiscutível raiz evangélica.
No capítulo 5º se lê: "
Nenhum irmão tenha poder ou domínio,
e menos entre eles; pois, como diz o Senhor
no evangelho; 'Os comandantes dos povos os
dominam e os que são maiores exercem
poder sobre eles'. Não será
assim entre os irmãos. Todo aquele
que quer ser maior entre eles seja seu ministro
e servo; e o que quer ser o maior entre eles,
que seja o menor. E nenhum irmão cause
dano ou fale mal de outro, mas, pela caridade
do espírito, sirvam e obedeçam
uns aos outros de boa vontade. E esta é
a verdadeira e santa obediência de Nosso
Senhor Jesus Cristo".
Nos capítulos 6º e 7º está
escrito: "A ninguém se chame de
prior, mas todos, sem exceção
se chamem de frades menores. E lavem os pés
uns dos outros... Os irmãos, onde quer
que se encontrem, servindo ou trabalhando
em casas de outros, não sejam secretários
nem estejam à frente deles nem aceitem
nenhum ofício que provoque escândalo
ou cause dano a sua alma; mas sejam menores
e sejam submissos a todos os que vivem na
mesma casa".
Também se conta que Francisco incluiu
o nome de menores na regra por revelação
divina, porque quis fundamentar-se a si mesmo
e a sua família sobre a rocha firme
da humildade e pobreza do Filho de Deus. Um
testemunho pouco conhecido de frei Gil o explica
deste modo: "Dizer 'frade menor' é
como dizer 'estar aos pés de todos'.
Quanto maior seja a humilhação,
maior será a exaltação.
Por isso São Francisco dizia que o
Senhor lhe havia revelado que deviam chamar-se
'Frades Menores'".
A essa revelação se referia
seguramente quando dizia a seus íntimos:
" A Ordem dos Frades Menores é
um pequeno rebanho que o Filho de Deus pediu
ao Pai nestes últimos tempos, dizendo:
'Pai, quisera que me desses um povo novo e
humilde que se distinga, por sua humildade
e pobreza, de todos os que o tem precedido,
e se conforme com ter somente a mim'. E o
Pai lhe concedeu. Por isso quis o Senhor que
se chamem Menores, pois eles são esse
povo que o Filho de Deus pediu ao Pai e do
qual diz o evangelho: 'Não temais,
meu pequeno rebanho, pois o Pai tem se comprometido
em dar-lhes o reino'. E também: 'O
que fizestes a um destes meus irmãos
menores, a mim mesmo fizestes'. Quando o Senhor
falou assim, se referia, sem dúvida,
a todos os pobres de espírito, mas,
principalmente, predisse o nascimento em sua
Igreja da Ordem dos Frades Menores".
Em outra ocasião dirá: "Deus
quis que se chamassem Frades Menores porque
devem mostrar-se inferiores e mais humildes
e pobres, pela humildade de coração,
nas palavras, em obras e no hábito;
e nunca pretendam ser maiores na Igreja, mas
peçam e permaneçam sempre na
maior e mais profunda humildade".
Minoridade, portanto, como sinônimo
de humildade, em seu mais pleno sentido. Assim
o reconhece, por exemplo, Tomás de
Celano quando escreve: "Certamente, eram
frades menores aqueles que, submissos a todos,
buscavam sempre o último lugar e tratavam
de trabalhar nos ofícios que tinham
alguma aparência de desonra, a fim de
que, fundados na verdadeira humildade, merecessem
ser edificados perfeitamente no edifício
espiritual de todas as virtudes".
São Boaventura é do mesmo parecer:
"Francisco, exemplo de humildade, quis
que os irmãos se chamassem menores,
e os superiores de sua Ordem, ministros (servos),
para usar as mesmas palavras do evangelho,
cuja observância havia prometido, para
que seus discípulos se dessem conta
de que tinham vindo à escola de Cristo
humilde para aprender a humildade".
E o bispo Jacques de Vitry, que conheceu pessoalmente
a Francisco e seus companheiros, em fevereiro
de 1220, em vida do santo, escreveu: "
Esta é a Ordem dos verdadeiros pobres
do crucificado, que é também
Ordem de Pregadores, os chamados Frades Menores.
Por certo, menores e mais humildes que todos
os religiosos deste tempo, no hábito,
na nudez e no desprezo do mundo".
Por último, como dado de curiosidade,
Ângelo Clareno assegura que Francisco
não quis que sua família religiosa
se chamasse Ordem, mas "Vida" dos
Menores. Ignoramos de onde tirou esta notícia,
mas o certo é que nas versões
conhecidas da Regra, e em todos os seus escritos,
nunca aparece a palavra Ordem, mas Religião,
Fraternidade ou Vida, como quando diz: "Esta
é a vida do Evangelho", "Esta
é a regra e vida dos Frades Menores",
"Se alguém quiser abraçar
esta vida"...
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Franciscanos
Minoritas
Os Frades Menores nos séculos XIII-XIV
Crescimento
e evolução da Ordem
A Primeira Ordem Franciscana nasceu em Rivotorto,
quando os irmãos eram apenas uma dúzia,
e foi aprovada oralmente pelo papa Inocêncio
III na primavera de 1209. Doze anos depois
eram mais de 3.000 frades, e uns 20.000 no
final do século XIII. Desde então
o número de franciscanos tem oscilado
sempre entre 30.000 e 60.000, o qual nos dá
uma idéia da importância que
tem a Ordem dos Menores ao longo dos séculos.
Já nos começos, ao multiplicar-se
na Ordem o número de sacerdotes e de
mestres de teologia e a chagada massiva de
jovens que deviam ser formados para os diferentes
ministérios pastorais, foi necessário
a criação de estúdios
teológicos regulares em todas as províncias.
Isto trouxe consigo a progressiva transferência
de residência dos frades, dos arredores
para o interior das cidades, solicitados pelo
mesmo povo que lhes construía casas
e igrejas mais amplas. Este processo começou
já com São Francisco quando
autorizou a Santo Antônio de Pádua
a abrir uma escola em Bolonha; continuou com
o novo ministro geral frei João Parenti
(1227-1232); e se generalizou com frei Elias
de Assis (1232-1239).
Frei
Elias e a clericalização da
Ordem
Frei Elias gozou da estima de São Francisco,
que o teve como vigário durante cinco
anos, de Santa Clara, do papa Gregório
IX e do próprio imperador Frederico
II, mas seu governo personalista e autoritário,
seu enfrentamento com os grandes mestres da
Ordem, partidários da clericalização
da Ordem, e sua aposta pelo imperador, excomungado
pelo papa, lhe fez cair em desgraça.
Sua deposição em 1239 e a substituição
por frei Alberto de Pisa (1239-1240) marcou
uma nova etapa, como demonstram as palavras
deste, no mesmo dia de sua eleição:
"Hoje, pela primeira vez na Ordem, um
ministro geral celebrou a Eucaristia".
No Capítulo de 1239 foram criadas as
primeiras Constituições, os
Capítulos gerais e provinciais se tornaram
mais representativos e participativos e se
favoreceu a aceitação e promoção
de candidatos ao sacerdócio, o geral
seguinte, frei Haymón de Favershan
(1240-1244), primeiro mestre de teologia de
Paris a ingressar na Ordem em 1224, limitava
a entrada aos leigos e os inabilitava para
exercer cargos ou ofícios na Ordem.
A mentalidade escolástica da época,
o exemplo dos Dominicanos e a solicitude do
povo e da própria hierarquia eclesiástica
também favoreceram este processo de
clericalização.
Pouco a pouco, junto aos pequenos conventos
e eremitérios ou em substituição
a eles, se iniciaram a construção
de igrejas monumentais e grandes conventos,
capazes de abrigar comunidades numerosas dedicadas
a atividades pastorais e culturais, favorecidas
pela hierarquia eclesiástica e pelos
superiores da Ordem. Seria um trabalho muito
extenso descrever toda a contribuição
dos franciscanos dos séculos XIII-XIV
na orientação da Igreja por
uma nova espiritualidade, na evangelização
da Europa, no cultivo da teologia, nas ciências
e nas artes, na preservação
do ocidente cristão das culturas árabe
e oriental ou no diálogo com a igreja
ortodoxa (houve uma séria tentativa
de reunificação, liderado pelos
frades menores). De tal vitalidade da Ordem
dão testemunho os numerosos santos
e beatos "minoritas" deste período.
Os
frades zelantes
O evidente contraste entre o antigo e o novo
suscitou, entretanto, não pouca desconfiança
e polêmicas. Fora da Ordem, o clero
secular e mestres universitários viam
neles fortes competidores; dentro dela, os
que tinham vivido os tempos heróicos
com o Fundador, pensavam que se estava traindo
o espírito e sentido original. Em 1230
Gregório IX teve que interferir no
modo de interpretar certas passagens polêmicas
ou difíceis da Regra, como o dilema
do uso de dinheiro-pobreza absoluta e a obrigatoriedade
ou não do Testamento de São
Francisco. O papa negava todo valor jurídico
ao Testamento e para a administração
de bens "em uso" da Ordem instituiu
os núncios apostólicos, substituídos
logo por "procuradores" designados
pelos mesmos frades, e por "síndicos"
mais tarde. Estes administravam em favor da
Ordem os bens cuja propriedade correspondia
a Santa Sé ou a outras instituições,
como os municípios. Frei Elias e o
sucessor de frei Haymón, Crescêncio
de Iesi (1244-1247), tiveram que fazer frente
a algumas turbulências provocadas pelos
"zelantes" da Regra, que encontraram
certo apoio no geral seguinte, frei João
Buralli de Parma (1247-1257). Mas este, douto
e estimado por muitos, ficou comprometido
por sua adesão aberta às teorias
joaquimitas, admitidas pelos zelantes, e teve
que apresentar sua demissão.
São
Boaventura
Também São Boaventura (1257-1274)
teve que enfrentar, com força e sabedoria,
os ataques dos mestres e prelados seculares
por um lado, que viam os frades como arrogantes
competidores; os exageros dos rigoristas ou
espirituais por outro e, finalmente, o temível
perigo de laxismo dos menos rigorosos. São
Boaventura, na qualidade de ministro geral
e mestre de teologia santo, tratou de conciliar
o ideal do Fundador com a evolução
natural da Ordem e sua benéfica atividade
apostólica, dando preferência
aa vida comunitária em grandes conventos
(durante seu mandato se ampliaram as casas
de Assis e de Paris), por considerá-los
mais adequados para a formação
e para a disciplina, para o exercício
do culto sagrado e da pregação
e para o atendimento pastoral do povo, dentro
da cidade. Suas Constituições
de Narbona foram uma reforma e adaptação
das de 1239; com seus escritos mostrou aos
frades as características essenciais
da vocação franciscana; acrescentou
o uso moderado e pobre das coisas; defendeu
o ideal da vida evangélica e mendicante
frente aos ataques dos teólogos de
Paris, e a abertura dos religiosos a atividade
científica e apostólica; não
duvidou em solicitar da Santa Sé os
favores e privilégios necessários
para a Ordem; reprimiu o joaquimismo e rechaçou
as pretensões dos zelantes de devolver
à Ordem o estilo de vida primitivo.
Os
frades "espirituais" ou "fraticelli"
e a questão da pobreza
Os espirituais foram presença de fato
na Ordem a partir de 1274, quando havia rumores
de que o Concílio de Lion pretendia
eliminar a pobreza absoluta dos Menores. Estes
sucessores dos zelantes foram se agrupando
em torno de alguns líderes, como frei
Liberado de Macerata e frei Ângelo Clareno
nas Marcas, frei Ubertino de Casale na Toscana
e frei Pedro de João Olivi na Provença
e Languedoc. Este último, o mais seguido
e o mais moderado de todos, propunha uma reforma
dentro da Ordem, na obediência aos superiores.
Os italianos, mais turbulentos e radicais,
chegaram a questionar a legitimidade da forma
de vida de toda a comunidade franciscana e
as declarações pontifícias,
proclamando a inflexibilização
da Regra (síntese do Evangelho ditada
por Cristo). Eles alimentaram tais teorias
divulgando supostas profecias de São
Francisco sobre a decadência e restauração
da Ordem, e as doutrinas joaquimitas sobre
o eminente advento de uma nova Igreja reformada
"pobre e espiritual". Reprimidos
pelo primeiro papa franciscano Nicolau IV
(1288-1292) e apoiados depois pelo geral Raimundo
Godefroy (1289-1295) e o papa Celestino V
(1294), fundaram a congregação
dos "Pobres ermitões do papa Celestino".
Bonifácio VIII os suprimiu em 1295,
mas eles seguiram atuando dentro e fora da
Ordem.
O Concílio de Viena tratou de concilia-los
com o resto da comunidade, mas Clemente V,
em 1312, ainda que exortasse a todos à
observância fiel da Regra e à
obediência, união e compreensão
fraternas, confirmou o estilo de vida e apostolado
da comunidade conventual da Ordem. Os desacordos
e contrastes continuaram durante o pontificado
de João XXII (1316-1334), que os escutou,
mas lhes negou a separação que
pediam, lhes fazendo ver que a caridade e
a obediência valem mais que a pobreza.
Mas a radicalidade dos espirituais era algo
mais que uma reivindicação prática
de vida. Suas idéias sobre a pobreza
absoluta de Cristo e dos apóstolos
nocauteava o ideal de vida franciscano e punha
em discussão a legitimidade da vida
espiritual, da propriedade e do poder temporal
da Igreja. Como conseqüência disso,
a Ordem entrou em conflito com o papa, que
revogou os síndicos e a propriedade
apostólica sobre os bens da Ordem,
exceto as igrejas e conventos, e declarou
herética a sentença franciscana
sobre a questão. O conflito teve ressonâncias
políticas. O geral franciscano Miguel
Fushi de Cesena (1316-1328) fugiu de Avinhão
e se colocou sob a proteção
do imperador Luis da Baviera, enquanto este
coroava em Roma o antipapa franciscano frei
Pedro Rainallucci de Corvaro com o nome de
Nicolau V (1328-1330).
Entre
o rigor e a decadência
Os "fraticelli", como eram chamados
os membros destes grupos dissidentes ainda
continuaram sua vida independente, alternando
repressões e processos inquisitoriais
no sul da França, na Catalunha e, sobretudo,
na Itália. Como reação
talvez, e pressionada pela cúria romana
e pelo novo ministro geral frei Gerardo Oddoni
(1329-1342), a Ordem viu mitigada cada vez
mais a prática da pobreza, por outro
lado se renovavam as Constituições
e se compilavam os Estatutos beneditinos aprovados
por Bento XII (1336), com prescrições
minuciosas ao estilo monástico. Sinal
desta evolução era o hábito,
que, ainda conservando a cor cinza original,
foi se tornando cada vez mais folgado e preparado.
Os religiosos eram 35.000 naquele momento,
distribuídos em 34 províncias,
211 custódias, 5 vicariados missionários
(desde a Rússia até o extremo
Oriente) e 1422 conventos. Sua atividade abrangia
todos os campos de apostolado: serviço
em grandes igrejas, pregação,
estudo, atividade missionária e serviço
à Igreja em multiplicidade de cargos
eclesiásticos, como inquisidores, bispos,
cardeais e núncios apostólicos,
ainda que eles participassem da decadência
comum que afetava aos demais religiosos e
instituições eclesiais, e a
mesma sociedade ao longo de todo o século
XIV. As causas da decadência são
muito conhecidas: a Peste Negra em toda Europa
(1348-1362), a Guerra dos Cem Anos na França
(1339-1453) e o Cisma papal que dividiu a
Igreja e a Ordem em duas ou três obediências
(1378-1417).
Não obstante, entre os Menores não
faltou a vontade reformadora de alguns papas,
de ministros gerais como frei Marcos de Viterbo
(1359-1366) e Antônio Vinitti de Pereto
(1405-1408), do beato Enrique Alfieri de Asti
(1378-1405) e de outros. Fruto de tais esforços
foi a aparição de novos fermentos
de vida eremítica e de restauração
religiosa, segundo o modelo do ideal primitivo.
A reforma mais importante foi a Regular Observância
de frei Paoluccio Trinci de Foligno, iniciada
no eremitério de Brogliano em 1368.
Favorecido pelos pontífices e pelos
ministros gerais, seu movimento se desenvolveu
extraordinariamente, até converter-se
em uma grande força de renovação
no seio da Ordem, deixando a salvo a unidade.
Por desgraça, a reforma de Trinci seria
mais tarde motivo de novas divisões,
que converteram a Ordem em um amálgama
de famílias e correntes internas, que
as vezes se enfrentavam entre si. Os efeitos
de tais divisões ainda duram até
hoje, pois são três as Ordens
franciscanas que existem na atualidade, como
três ramos de um único tronco
primitivo: os Frades Menores Conventuais,
de que se separaram as diferentes reformas,
os Frades Menores (resultantes da união
da Regular Observância com outras reformas
em 1517 e finais do século XIX) e os
Frades Menores Capuchinhos (desgarrados do
ramo Observante no século XVI).
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1517:
divisão definitiva da Ordem
(a bula "Ite Vos" e suas conseqüências)
Até
a irremediável ruptura
O fracasso do Capítulo "Generalíssimo"
de 1506, convocado pelo Ministro Geral Conventual
Frei Gil Delfini de Amélia na tentativa
de reunificar uma Ordem franciscana dividida
pelas reformas, não desanimou o sucessor,
Frei Rainaldo de Cotignola, e o estreito colaborador
de ambos, o coletano francês Frei Bonifácio
de Ceva. Ambos desejavam que as Constituições
"julianas", de inspiração
coletana, obrigasse a todos os franciscanos,
conventuais e reformados, incluídos
os da observância. No entanto, o ministro
geral não teve o apoio nem do papa
Júlio II, nem dos próprios conventuais.
Quatro anos depois, em maio de 1510, Frei
Rainaldo foi substituído no cargo por
Frei Felipe Porcacci de Bagnacavallo, que
tinha sido secretário de Delfini. O
novo geral confirmou Frei Bonifácio
como ministro provincial da França
e o designou comissário pleno seu para
o convento e para a escola teológica
de Paris. Este provocou situações
muito tensas em sua controvérsia contra
os Observantes, que obrigaram os organismos
judiciais públicos e a Faculdade teológica
de Paris a interferir. Em 1516 o assunto chegou
ao Parlamento de Paris, que por sua vez comunicou
a Leão X e aos padres conciliares participantes
do V concílio lateranense. O papa confiou
a questão a uma comissão de
4 cardeais, e estes, considerando que era
um "assunto complexo referente a toda
a Ordem", concluíram que era necessário
a convocação de um novo Capítulo
"generalíssimo" para Pentecostes
do ano seguinte.
Entre janeiro e abril de 1517 Frei Bonifácio
de Ceva recorria pela enésima vez ao
Parlamento francês, com um "Defensorium
elucidarium", em resposta ao "Tractatus
dictus Defensorium fratrum Minorum de Observantia
et família", do observante Frei
Boaventura Neveu. O Parlamento se inclinou
para este último, e Bonifácio
morreu, derrotado, um mês depois, aos
12 de abril. Sua morte coincidia com um enfraquecimento
dos observantes "sub ministris"
e dos conventuais, não somente na França,
mas também na Espanha, onde o arcebispo
de Toledo, o observante Frei Francisco Ximenes
de Cisneros, com o apoio dos poderosos Reis
Católicos, tinha decidido exterminar
os conventuais da província de Castela,
e tornar o rei D. Fernando inimigo da Província
de Aragão, até ameaçá-los,
em 1517, com a expulsão de seus reinos.
Por outro lado, na Alemanha, o vigário
provincial de Estrasburgo, Frei Gaspar Schatzgeyer,
contrapunha ao defensorium de Frei Bonifácio
sua "Apologia Fratrum Minorum de Observantia",
na qual propunha como solução
ao conflito que a Ordem se colocasse sob a
autoridade de ministros observantes, porque
só a união de todos os reformados,
os submetidos aos vigários observantes
e os submetidos aos ministros conventuais,
garantiria uma única formação
religiosa autenticamente renovada, pois já
não se podia prolongar mais a convivência
com os frades "não-reformados".
Estas serão as teses que triunfarão
poucos dias depois.
A
bula "Ite Vos" e a Observância
Às vésperas do Capítulo
generalíssimo de Pentecostes, como
vinha sendo habitual, se multiplicaram as
pressões diplomáticas dos príncipes
europeus a favor de um ou outro bando. No
Final se impôs a solução
proposta por Frei Gaspar Schatzgeyer. Na bula
"Ite Vos", de 29 de maio de 1517,
Leão X explica que o estado de divisão
e contínuo enfrentamento entre observantes
e conventuais exigia uma intervenção
firme e definitiva, tanto pela caridade cristã
da Ordem em questão, como pelas ininterruptas
súplicas da cristandade através
de seus reis, príncipes e autoridades.
Também explica que estas disposições
foram tomadas por investigação
prévia de uma comissão cardinalícia
nomeada para isto, e traz uma madura reflexão
do papa e do colégio cardinalício.
A "Ite Vos" atribui as discussões
entre franciscanos a 3 causas principais:
a multiplicidade de prelados (ministros conventuais
e vigários de diferentes obediênicas),
a perpetuidade de alguns cargos e a vida "não-reformada"
dos "não-observantes". Por
isso se conclui o seguinte:
a) Segundo a Regra, o ministro geral devia
ser um só, e que seu mandato não
devia durar mais de 6 anos;
b) O conjunto dos ministros provinciais e
custódios podem destituí-lo,
se não o considerarem apto para o serviço
e comum utilidade dos religiosos;
c) A eleição do ministro geral
compete somente aos ministros e custódios
reformados, tanto cismontanos (italianos)
como ultramontanos (resto da Europa), porque
têm voz ativa e passiva somente aqueles
aos quais a Congregação julgar
como reformados. Isto explica porque no Capítulo
generalíssimo foram admitidos representantes
dos reformados sob a autoridade dos ministros,
quer dizer, amadeístas, clarenos e
do santo evangelho ou do capucho;
d) Sancionado o predomínio da Observância,
a bula estabelece a alternância e a
colaboração entre os dois grupos
majoritários da mesma: a um ministro
geral de procedência cismontana, devia
suceder outro ultramontano, e vice-versa,
e cada ministro devia ser assistido por um
comissário geral do outro grupo.
A bula especifica também a que se refere
o termo "reformado": "Queremos
e declaramos que sob o nome de Reformados,
quer dizer, daqueles que observam a Regra
de São Francisco pura e simplesmente,
tem que compreender a todos e a cada um dos
mencionados frades: ou seja , os observantes,
tanto da família quanto os reformados
sob os ministros, quer dizer, os frades de
Amadeo ( de Silva), os coletanos, os clarenos,
os do santo Evangelho ou da capucha, também
chamados descalços, e outros similares,
de qualquer maneira que se lhes chame, mas
que observam a mesma Regra do Bem-aventurado
Francisco de modo puro e simples: fazendo
deles um só corpo, os unimos entre
si para sempre. Assim, de agora em diante,
abandonada a diversidade de denominações,
seja em seu conjunto ou em suas partes, chamem-se
e podem e devem ser chamados, Frades Menores
de São Francisco da regular Observância".
Deste modo estava alterada a originária
e simples denominação de "Frades
Menores", ao mesmo tempo em que desapareciam
o resto de denominações, de
modo que não mais podiam ser chamados
de: privilegiados, coletanos, amadeístas,
clarenos, do Evangelho ou da capucha, bigotti
(beatos), nem com qualquer outro nome.
A
bula Omnipotens Deus e os Conventuais
A "Ite Vos" possibilita o assunto
dos conventuais a posteriores disposições,
que chegaram a 12 de junho de 1517 com a bula
"Omnipotens Deus". Antes disso,
a 29 de maio, Frei Bernardino Prati de Chieri,
último geral conventual "de toda
a Ordem", havia sido nomeado bispo de
Atenas por Leão X, e no dia seguinte
os conventuais procederam à eleição
de um "mestre geral", na pessoa
de Frei Antônio Marcelo de Cherso. A
partir da "Ite Vos"", o Capítulo
deixou de ser "generalíssimo".
A 1 de junho se reuniam em Santa Maria de
Araceli de Roma os custódios e vigários
provinciais da observância com os delegados
das distintas reformas, para a eleição
do primeiro ministro geral observante. O cargo
recaiu por maioria absoluta na pessoa de Frei
Cristobal Numai de Forlí, vigário
geral cismontano. Um mês mais tarde,
a 1 de julho, o papa o nomeava cardeal, junto
com outros 30 prelados. Não está
de todo clara a relação entre
o apoio incondicional de Leão X aos
observantes e a crise que atravessava o papado
nesses dias, com uma conjura cardinalícia
que tratou de envenená-lo, e o fracassado
intento de reconquista do território
de Urbino para os Estados pontifícios.
A bula "Omnipotens Deus" referente
aos Conventuais mudou o título dos
"ministros" gerais e provinciais
pelo de "mestres". Esses cargos
deviam ser confirmados pelos ministros observantes.
Os papéis haviam se invertido. O ex-frade
observante alemão Conrado Pellikan,
passado às filas luteranas, escrevia
a respeito: "Não ocorreu ali outra
coisa que a troca do magistério da
Ordem, do cargo do generalato e do regime,
dos Menores conventuais- que eram contrários,
recalcitrantes e que discutiam sobre o estabelecido-
aos frades chamados observantes".
A autonomia dos conventuais estava, no entanto,
garantida. Segundo a "Omnipotens Deus",
o ministro geral observante não teria
nenhuma autoridade jurídica sobre eles,
como tampouco antes a havia tido o ministro
conventual sobre os vigários da Observância.
As casas masculinas e monastérios femininos
que antes da "Ite Vos" estavam sob
a jurisdição do ministro geral
conventual, continuavam agora sob o mestre
geral. Também conservavam os mestres
a autoridade sobre os lugares com menos de
10 frades que quisessem reformar-se, somente
os membros de casas mais numerosas teriam
o direito de eleger, por maioria, a "obediência"
sob a qual queriam viver a reforma. Os conventuais
podiam também passar livremente sob
a obediência observante, sem a permissão
de seus mestres. A predominância dos
observantes estava também patente na
precedência destes sobre os conventuais,
em procissões, funerais e cerimônias
públicas.
A solução não evitou
o descontentamento dos conventuais, nem as
duríssimas críticas contra os
observantes, acusados de haver "comprado"
a primazia na Ordem com o dinheiro recolhido
com a venda de indulgências para a construção
da nova basílica de São Pedro.
Dava crédito a eles o fato de que,
entre julho de 1526 e junho de 1517, os observantes
entregaram à Igreja 26.041 ducados,
frente aos 1.200 recolhidos pelos conventuais,
e os 8.740 do resto dos arrecadadores.
A "Ite Vos" foi chamada bula "de
união" e a "Omnipotens Deus",
bula "de concórdia", mas
a realidade foi que a Ordem dos Frades Menores
ficou definitivamente dividida no plano institucional
e organizativo. A divisão não
foi justa, devido ao pleno apoio concedido
por Leão X à "regular observância",
a ponto de forçar a realidade com uma
interpretação ideológica
da história, como se pode constatar
neste texto tomado da bula "Licet Alias",
de 6 de junho de 1517: "Declaramos...
que os frades da Observância e os Reformados
tinham sido,sem sombra de dúvida, verdadeiros
frades da Ordem do Bem-aventurado Francisco,
e que, sem interrupção alguma
ou divisão, sempre têm observado
(...) sua Regra, desde que ela foi publicada
pelo Bem-aventurado Francisco até hoje,
e têm militado e todavia hoje militam
sob a Regra do mesmo Bem-aventurado Francisco;
portanto, decretamos e mandamos que assim
tenham de ser tidos e observados em todo e
assim se há de dizer".
Concluímos o tema recordando que, nem
a autoridade papal, nem o respaldo à
Observância lograram seu objetivo de
resolver o problema das reformas e as inevitáveis
divisões provocadas por elas. Novas
reformas e divisões surgiram no seio
da Observância nos anos e séculos
posteriores: alcantarinos, recoletos, reformados,
capuchinhos... Estes últimos lograram
constituir-se em Ordem franciscana autônoma,
os outros se viram obrigados a unificar-se
com os observantes em 1897, por decreto de
Leão XIII. E o mais curioso de tudo
isso é que toda reforma franciscana
desemboca sempre em uma "conventualização".
Ironias da história. (Fratefrancesco.org)
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Franciscanos
Menores
OFM
Frades
Menores "da União Leonina"
A 4 de outubro de 1897 o papa Leão
XIII, pela Constituição Apostólica
"Felicitate quadam", reunia quatro
reformas franciscanas: Observantes, Reformados,
Descalços ou Alcantarinos e Recoletos,
com a simples denominação de
"Frades Menores", título
que compartilham com os Frades Menores Conventuais
e com os Frades Menores Capuchinhos.
Origem
da Observância
A reforma Observante ou da Regular Observância,
versão moderada do movimento dos frades
Espirituais ou Fraticelli, começou
na Itália em 1368, por obra do beato
frei Paoluccio Trinci de Foligno, no eremitério
de Brogliano, entre Foligno e Camerino. Quando
morreu em 1391, os eremitérios e conventinhos
sob sua jurisdição eram já
16, todos eles no centro da Itália,
entre as regiões da Úmbria e
Marcas. O beato Paoluccio, no entanto, só
fundou o de São Bartolomeu de Marano
(Foligno); os demais, a Ordem lhe havia sedido,
quer dizer, os chamados Conventuais, a cujos
superiores legítimos estavam sujeitos.
As reformas observantes se estenderam em seguida
pela Itália, França, Espanha
e Portugal, e foram reconhecidas pelo Concílio
de Constança, com a Constituição
apostólica "Supplicationibus personarum"
de 23 de setembro de 1415.
Com as bulas "Vinea Domini" de 15
de março de 1431 e "Ut sacra"
de 11 de janeiro de 1446, o papa Eugênio
IV separou praticamente a Observância
dos Conventuais, e a transformou em uma espécie
de ordem dentro da ordem, já que a
dependência dos ministros gerais conventuais
era simplesmente nominal.
A nova família franciscana ficou organizada,
desde então, em dois vicariados gerais,
autônomos entre si: um Cismontano (Itália)
e outro Ultramontano (o resto da Europa),
ambos divididos em vicariados provinciais.
Os quatro pilares que organizaram e consolidaram
a reforma observante foram São Bernardino
de Sena, frei Alberto de Sarteano, São
João de Capistrano e São Jaime
das Marcas, animados por uma sincera vontade
de adaptar genuinamente os ideais de São
Francisco a seu tempo. Pelo exemplo, e em
virtude de seu enérgico e acertado
governo, a reforma cresceu e se estendeu rapidamente,
e cogitou abandonar os eremitérios
e se dedicar aos estudos, imprescindíveis
para o apostolado popular, missionário,
caritativo e social, no que se distinguiram
não poucos santos e beatos.
Difícil
convivência
As relações com o resto da Ordem
não foram sempre exemplares. Frente
aos Franciscanos Conventuais ou Claustrais,
que defendiam uma vida estável de observância
da Regra com orientações pontifícias,
sem as quais pensavam que não podiam
fazer frente ao acúmulo de atividades
que a mesma Igreja lhes encomendava, muitos
Observantes não viam mais solução
que a radical supressão dos mesmos,
coisa que conseguiram na Espanha e em seus
reinos com o poderoso apoio dos reis católicos
e de Felipe II. A mesma intransigência
excludente mostraram contra as outras reformas
(Villacrecianos, Amadeitas, Alcantarinos,
frades da Capucha, etc.), que defendiam seu
legítimo direito a observar a regra
sem ter que romper a comunhão com a
Ordem. Tampouco ajudaram a melhorar as relações
os mil e um litígios surgidos em torno
à possessão dos conventos, já
que os Observantes, cujo crescimento era irrefreável,
em certos lugares, tendiam a apropriar-se
das casas conventuais, para não ter
o trabalho de fundar outras novas.
Sob
o sinal das divisões
Nesse ambiente de discórdia, todos
os esforços para reunificar a Ordem
fracassaram, de modo que a 29 de maio de 1517,
com a bula "Ite vos", o papa Leão
X terminou de romper o fio simbólico
que ainda mantinha unidas a ambas as famílias,
concedendo aos frades da Regular Observância
o primado jurídico da Ordem, que até
esse momento era dos Conventuais. E quanto
as outras reformas, o mesmo papa obrigou a
unir-se a uma ou outra Ordem. Nesse momento,
os Observantes eram já 30.000, repartidos
em 1.500 conventos. Os Conventuais eram outros
tantos.
No século XVI, a Observância
já não é a de antes:
não recusa os estudos, constrói
grandes conventos e igrejas enormes sem maiores
escrúpulos de consciência. Nada
há, pois, de estranho que, apenas um
ano depois da divisão, apareceram os
Frades Menores Reformados da Estrita Observância,
aprovados por Clemente VII a 16 de novembro
de 1532, com a bula "In suprema".
O mesmo papa, quatro anos antes, tinha aprovado
a reforma dos Frades Menores Capuchinhos,
desgarrados igualmente da Observância.
Os Alcantarinos, Reformados e Recoletos, ainda
dependendo do ministro geral observante, gozavam
de ampla autonomia, com aprovação
da Igreja.
Tantas divisões podiam ser motivo de
escândalo para alguns, mas não
deixavam de ser, na realidade, um sinal da
grande vitalidade da árvore plantada
por Francisco, cujos filhos nunca deixaram
de competir -não sempre de maneira
mais apropriada- para alcançar a meta
da perfeição evangélica,
estimulados sempre pelos exemplos e palavras
do santo fundador.
Exceto os Capuchinhos, que conquistaram e
mantiveram sua independência, as outras
famílias franciscanas reformadas continuaram
sendo parte da família Observante,
compartilhando com eles o mesmo ministro geral
e os trabalhos apostólicos e missionários,
distinguindo-se, de maneira especial, na América
espanhola, onde ainda são muito numerosos
e constituem uma força importante da
Igreja Católica.
Crise
e reunificação
Os diferentes ramos Observantes também
foram vítimas do ciclo revolucionário
europeu dos séculos XIX e XX, mas sua
forte vitalidade interna, a rápida
fundação de novos seminários
e do Colégio Internacional Romano (1890)
para os estudos superiores, a ereção
de novas províncias, a criação
de novos conventos e a recuperação
de antigos lhes assegurou uma forte recuperação
e uma presença ainda mais numerosa
e prestigiosa que antes.
A reunificação de Leão
XIII de 4 de outubro de 1897 pôs fim
à secular divisão da família
observante, ainda que Pio XII tivesse que
intervir em 1940, para fazer frente a certas
resistências, devidas, sobretudo, a
motivos políticos e nacionais.
Presença
e atividades hoje no mundo
Hoje, Os Frades Menores estão em todo
o mundo e são a força missionária
mais importante da Igreja Católica.
A 31 de dezembro de 1991 eram 16.008 professos
solenes (6 cardeais, 9 arcebispos, 92 bispos,
12.492 sacerdotes, 69 diáconos permanentes,
678 clérigos e 2.856 irmãos
leigos). Os professos simples eram 2.153 (1475
estudantes de teologia e 678 irmãos
leigos) e os noviços, 577, que somavam
no total 18.738 religiosos.
Os Frades Menores têm a seu cargo importantes
santuários do franciscanismo primitivo,
como São Damião, os Cárceres
e a Porciúncula em Assis, o Alverne,
Araceli em Roma e os santuários do
vale de Rieti. Também têm sob
sua custódia os Santos Lugares da Terra
Santa. O "Ateneo Antonoano" de Roma,
com suas faculdades de teologia, filosofia
e direito, desenvolvem uma ampla atividade
científica e cultural. O Colégio
São Boaventura de Quaracchi (agora
Grottaferrata) que é célebre
por suas edições monumentais
de autores e documentação franciscana.
Dignos de menção são
também a Comissão Escotista
e o Instituto Bíblico de Jerusalém,
os centros Angelicum de Milão e Antoniano
de Bolonha. Mas não só cultural.
Os Menores também desenvolvem uma intensa
atividade missionária e pastoral em
uma multiplicidade de paróquias, igrejas
e santuários em todo o mundo.
O grupo franciscano mais numeroso se caracteriza
pelo hábito marrom ou café,
que substituiu o cinza tradicional do século
XIX, um capuz curto que não cai sobre
os ombros e as típicas sandálias.
A cúria geral, depois da derrubada
do convento de Araceli para a construção
do gigantesco monumento a Victor Manuel II,
se transferiu ao convento de Santa Maria Mediadora,
na colina do Gelsomino de Roma.
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Franciscanos
Menores Conventuais
OFM Conv
Conventuais
Os Franciscanos Conventuais são o tronco
original da Ordem, de que brotaram as diferentes
reformas. Já a 5 de abril de 1250,
o papa Inocêncio IV quis tutelar o eficaz
trabalho pastoral dos Menores, declarando
"conventuais" suas igrejas, quer
dizer, concedendo-lhes a mesma prerrogativa
que as colegiadas (paróquias diocesanas).
Os frades, no entanto, só receberam
tal denominação a partir da
segunda metade do século XIV, para
distingui-los dos que se retiravam em eremitérios,
em busca de uma melhor "observância"
da regra.
Os religiosos que seguiam vivendo nos eremitérios,
como nos tempos heróicos de São
Francisco, eram muito poucos. A grande maioria,
quer dizer os frades "da comunidade"
estavam nas cidades, dedicados à pregação,
aos sacramentos e aos ensinamentos. Empreitaram
a construção e ampliação
de grandes conventos, como os de Assis, Pádua,
Veneza, Florença, Bolonha, Ferrara,
Piacenza, Parma, Arezzo, Sena, Pisa, Palermo,
Viterbo, Nápoles, Vicenza, Friburgo,
Cracóvia, Colônia, Würzburg,
Viena, Praga, Barcelona, Valencia, Sevilha,
Paris, Oxford, etc. A Ordem fundada por São
Francisco estava formada, em grande parte,
por irmãos leigos, mas, um século
depois de sua morte era uma Ordem douta e
clerical, com dezenas de milhares de religiosos
que serviam à Igreja em múltiplas
atividades: pastorais, missionárias,
diplomáticas, ecumênicas, universitárias,
chegando muitos deles a ocupar cátedras
episcopais, cardinalícias e inclusive
papais.
Mitigações
e tenções
A sustentação de grandes conventos
não permitia a observância da
pobreza absoluta, mas os papas, interessados
em manter os benefícios pastorais que
sustentavam a Igreja, mitigaram com privilégios
e declarações a observância
da Regra. A isto se opuseram os frades Zelantes,
Espirituais ou Fraticelli, partidários
de uma pobreza mais radical, sem interpretações
pontifícias, até o extremo de
acusar a Ordem de relaxamento no Concílio
de Viena (1311-1312) e de negar ao Papa o
direito de interpretar a Regra. Foi por esse
motivo que o papa João XXII (1317-1318)
acabou condenando os fraticelli como hereges.
Na mesma linha dos Fraticelli, mas com atitudes
e comportamentos mais ortodoxos, em 1368 nasceram
os Frades Menores Observantes ou da Regular
Observância, por obra do beato Paoluccio
Trinci. Estes tiveram mais êxito e foram
crescendo e distinguindo-se cada vez mais
do resto da Ordem, as vezes entre fortes tensões,
até sua total independência (1517).
Os Conventuais, no entanto, ante a pressão
da Observância, trataram de eliminar
os evidentes abusos, mas defenderam e continuaram
aquela forma de vida que os permitia desenvolver
dignamente as atividades tradicionais que
a complexidade da Ordem e a Igreja requeriam.
Convém recordar que, exceto Nicolau
IV (Jerônimo Masci, 1288-1292) que era
Minorita, foram Conventuais os papas Alexandre
V (Pitros Philargis, 1409-1410), Sixto IV
(Francisco della Rovere, 1471-1484), Sixto
V (Félix Peretti de Montalto, 1585-1590)
e Clemente XIV (Lorenzo Ganganelli, 1769-1774).
O irrefreável crescimento e separação
dos frades da Observância provocou não
poucas tensões entre ambas correntes
da Ordem, já que estes, não
conformando-se com os eremitérios,
empreenderam ocupar também os grandes
conventos urbanos dos Conventuais e a absorver
todas aquelas reformas que preferiam seguir
submissas ao Ministro Geral Conventual, como
sinal de unidade e de comunhão com
a Ordem. Na Espanha, os frades Conventuais
ou Claustrais foram suprimidos, a instâncias
dos Observantes, pelos Reis Católicos
no início do século XVI, e por
Felipe II em 1568.
Separação
e renovação
Cinqüenta anos antes, a 29 de maio de
1517, o papa Leão X, com a bula "Ite
vos", havia dividido definitivamente
a Ordem em duas, obrigando as reformas menores
a unir-se aos Observantes ou aos Conventuais.
Foi um duro golpe para os Conventuais, que
se viram obrigados a ceder a primazia e o
título de Frades Menores aos Observantes.
Não obstante, no século XVII
e parte do XVIII, os Conventuais, purificados
pelas provas de séculos anteriores,
demonstraram uma grande vitalidade, como demonstra
o testemunho de alguns santos e beatos daquele
período. Por desgraça, o flanco
crescimento da Ordem foi freado bruscamente
pela Revolução francesa, das
perseguições napoleônicas
e dos governos maçônicos do século
XIX e da supressão comunista das ordens
religiosas em vários países
do leste europeu. Tudo isso pôs em perigo
a existência da Ordem mesma. Muitos
religiosos se viram obrigados a secularizar-se
e grande parte dos conventos foram transformados
em quartéis, hospitais, escolas, asilos,
cárceres, oficinas, etc. Os quase 30.000
membros com que contava a Ordem Conventual
no século XV foram reduzidos, em 1883,
a somente 1481. Entretanto, desde então
não tem deixado de crescer e estender-se,
sobretudo, ultimamente, nos continentes americano
e asiático e no leste europeu, até
alcançar o número atual de 4.500
religiosos. È o ramo menos numeroso
da Ordem, mas está presente em todo
o mundo.
Presença
e atividade hoje no mundo
A Ordem Conventual está atualmente
comprometida com a Igreja nas mais variadas
tarefas de apostolado, que são expressão
de sua própria razão de ser.
Centenas de Igrejas e 19 basílicas
-as mais antigas da Ordem- são o campo
de ação de uma intensa atividade
litúrgica e pastoral. A cúria
geral OFM Conv e os organismos diretivos têm
sua sede na Basílica romana dos Santos
Doze Apóstolos, confiada à Ordem
por Pio II em 1463, depois que a sede anterior,
Santa Maria de Araceli, foi entregue por Eugênio
IV aos Observantes (1445). O coração
da Ordem é, por outro lado, a Basílica
de São Francisco em Assis, com o Sacro
Convento anexo, declarado "Cabeça
e Mãe" da Ordem pelo fundador
da igreja Gregório IX em 1230, nas
vésperas da transladação
do corpo de São Francisco à
mesma.
Os Conventuais têm também a seu
cargo a Basílica de Santo Antônio
em Pádua, meta de peregrinos de todo
o mundo e centro de intensa atividade litúrgica,
pastoral, cultural, editorial e caritativa;
e a Basílica da Santa Cruz de Florença,
verdadeira jóia da arte italiana, Santa
Maria Gloriosa "dei Frari" de Veneza;
e as igrejas de São Lourenço
de Nápoles e de São Francisco
de Bolonha e de Ravena (com a tumba de Dante
Alighieri).
Trabalham, ainda, como penitenciários
pontifícios na Basílica de São
Pedro do Vaticano e regem a Pontifícia
Faculdade de Teologia São Boaventura
no Colégio "Seraphicum" de
Roma, com sua filial de Pádua, o Instituto
de Teologia "Santo Antônio Doutor"
o Colégio São Máximo.
A ele temos que acrescentar o instituto Teológico
de Assis, agregado à Faculdade de Sagrada
Teologia da Pontifícia Universidade
Lateranense. Nas últimas décadas
a Ordem Conventual tem redescoberto sua vocação
missionária, abrindo novas Províncias
e Custódias em todo o mundo.
O hábito conventual é o tradicional:
túnica e capuz cinza com o cordão.
Na época napoleônica trocou-se
pelo preto, mas hoje se veste de cinza em
vários países da Europa e no
resto do mundo.
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Franciscanos
Menores Capuchinhos
OFM Cap
Os
"frades da vida eremítica"
ou Capuchinhos
A terceira grande família surgiu do
tronco dos Frades menores Observantes em 1525,
apenas 8 anos depois que estes obtiveram a
total separação e o primado
jurídico sobre os Conventuais. Então
os Observantes já eram várias
dezenas de milhares em todo o mundo e a evolução
interna e os fins apostólicos os haviam
levado a uma situação nova,
muito diferente dos humildes começos
em eremitérios e pequenos conventos.
Era, portanto, inevitável, que alguém,
de dentro reivindicasse o direito de observar
a Regra ao pé da letra, com todo o
seu rigor. Isso é o que fizeram o jovem
sacerdote Mateus Serafini de Bascio (1495-1552)
e os irmãos Ludovico e Rafael Tenaglia,
da mesma família observante, a qual
fez o que pode para reabsorvê-los e
conter a hemorragia. De nada serviram cárcere,
fugas e outras peripécias dos primeiros
3 anos: A 3 de julho de 1528, por mediação
da duquesa de Camerino Catarina Cybo, sobrinha
do papa, Clemente VII lhes concedeu a bula
"Religionis zelus", que marca o
nascimento da família Capuchinha. Entre
outras coisas, o papa lhes concedeu vestir
o hábito com capuz piramidal e usar
barba, como sinal de pobreza, simplicidade
e austeridade.
Recebida a bula papal, outros frades da Observância
se uniram a eles, tais como João de
fano, Bernardino de Asti e Bernardino de Ochino.
Em 1536, os " Irmãos ou frades
menores da vida eremítica", que
assim se chamavam então, já
eram 500 e, surpreendentemente, 3.300 em 1571.
Nem a obstinada oposição da
família de origem, nem o clamoroso
contra testemunho de seu vigário geral
Bernardino Ochino, que passou à heresia
protestante, impediram que a nova reforma
seguisse crescendo a sombra dos Frades Menores
Conventuais, a cuja jurisdição
foram acolhidos antes de conseguir de Paulo
V, em 1619, a faculdade de dispor de Ministro
Geral próprio, com plena autonomia.
Então, eram já um exército
de 14.000 religiosos comprometidos em todos
os campos de apostolado católico, principalmente
na assistência aos doentes e no ministério
da pregação popular.
Evolução
da Ordem
Também para eles, como era previsível,
a entrada em massa no apostolado ativo missionário,
caritativo-social e -mais lentamente- científico,
causou uma evolução interna;
no entanto, ao longo da história franciscana,
os Capuchinhos têm representado sempre
a linha mais rígida e austera. Para
evitar fáceis concessões e contradições
com a pobreza em questão de igrejas
e conventos, eles são os únicos
que se dotaram em seguida de uma legislação
concreta e minuciosa, prescrevendo que "as
igrejas sejam pequenas, pobres e honestas...
segundo a santíssima pobreza... E para
este fim seja feito um pequeno modelo, segundo
o qual se construa".
Por seu apostolado caritativo e social, os
frades Capuchinhos têm sido sempre bem
acolhidos pelo povo, como bem reflete o escritor
italiano Alexandre Manzini, que em seu célebre
romance "Os noivos" abordou admirav