Histórico Franciscano
Origem do nome
"Frades Menores"
Franciscanos
Minoritas
1517: divisão
definitiva da Ordem

Franciscanos
Menores
OFM


Franciscanos Menores
Conventuais
OFM Conv

Franciscanos Menores
Capuchinhos
OFM Cap
O Hábito Franciscano Chegada da Província São Francisco de Assis no Brasil

Origem do nome "Frades Menores"
A minoridade Franciscana

Antes da aprovação da Regra, o grupo de frades de Rivotorto não tinha uma denominação específica e se apresentava simplesmente como "Penitentes de Assis", porque ainda não eram uma Ordem. Somente depois da aprovação da Regra ou forma de vida por parte de Inocêncio III começaram a chamar-se Frades Menores, mas graças ao testemunho do cronista Buscardo de Ursperg sabemos que no princípio se chamavam Pobres Menores, em sintonia com outros movimentos de seu tempo, heréticos ou não, que se chamavam Pobres de Lion, Pobres Lombardos, Pobres católicos, etc.
Tal relação com outros grupos religiosos contemporâneos não é de se estranhar: Francisco, ainda que dirigido e orientado sempre por inspiração divina, nunca viveu a mercê das inquietudes de seus contemporâneos, nem seu projeto de vida foi alheio aos novos projetos de vida religiosa que se deflagrava ao seu redor. Basta comparar seu ideal de pobreza, itinerância, pregação da penitência e demais práticas evangélicas e apostólicas para comprovar que não era diferente dos demais grupos. Portanto, a originalidade franciscana não está ali, mas na radicalidade de vida, que superou a todos, na catolicidade insubornável e, sobretudo, no modo humilde e serviçal -minoridade- com que se apresentava ante os demais.
Para salvaguardar a humildade do grupo foi que o santo substituiu em seguida o nome de Pobres pelo de Frades, como refere o mesmo Buscardo de Ursperg ao descrever seu estilo de vida; "Estes -os menores- ao contrário daqueles (os pobres lombardos): andavam realmente descalços, tanto no verão como no inverno, e não recebiam dinheiro nem outras coisas, salvo o alimento ou, todo o mais, a roupa necessária, se alguém lhes desse espontaneamente, pois nada pediam a ninguém. Eles mesmos, andando no mundo, ao se dar conta de que as vezes a fama de muita humildade pode levar a vanglória e de envaidecer-se diante de Deus por motivo de pobreza, como ocorre com muitos, preferiram chamar-se Frades Menores, em vez de Pobres Menores, submetidos totalmente à Sé apostólica".
AoSubmeter-se totalmente à Sé apostólica, Francisco impediu que sua Ordem tropeçasse na mesma pedra que outros contemporâneos seus, caindo na arrogância e na vanglória. Não aconteceu isso por graça de Deus e porque o bispo de Assis Guido I teve suficiente sabedoria desde o princípio para evitar esse desastre. O mesmo Santo se mostrava agradecido, quando dizia aos seus irmãos: "O Senhor nos enviou para propagar a sua fé e dos prelados e clérigos de nossa Santa Mãe Igreja. Por isso, devemos, na medida do possível, amá-los sempre e honrá-los e respeitá-los. Os irmãos se chamem Menores porque, como no nome, também sejam humildes pela conduta e exemplo com todos os homens deste mundo. Porque no princípio de minha conversão, quando me separei de meu pai carnal e do mundo, o Senhor pôs suas palavras na boca do bispo de Assis para dar-me conselho e ânimo no serviço de Cristo. Por essa razão e por outras muitas qualidades eminentes que aprecio nos prelados, quero amá-los, venerá-los e tê-los como meus senhores; e não somente aos bispos, mas também aos sacerdotes pobrezinhos". Como diziam seus companheiros, Francisco, com a ajuda de Deus e como sábio arquiteto, se fundamentou a si mesmo e a sua Ordem sobre a rocha firme, quer dizer, sobre a altíssima pobreza e humildade do Filho de Deus, chamando-a "Religião dos Frades Menores".
Muito se tem escrito sobre a eleição desse título, mas tem que se descartar absolutamente que tivesse que ver com uma opção de classes. É certo que em Assis, como no resto da Itália, existiam duas classes sociais, os menores ou classe urbana, a qual ele pertencia, e os maiores ou nobres, a qual ele aspirava pertencer. Mas nada, nem em seus escritos nem nas demais fontes, dá a entender que fosse assim; antes disso, escolheu o caminho da minoridade evangélica, como se quisesse dar uma lição não somente nos maiores e poderosos, mas também nos que, chamados menores, aspiravam, pela riqueza e poder, colocar-se a altura da classe feudal dominante. Disse frei Tomás de Celano que Francisco elegeu o nome de Menores ao rever a Regra que ele mesmo havia redigido, onde se dizia: "Os irmãos sejam menores". Foi então que exclamou: "Quero que esta fraternidade se chame Ordem dos Frades Menores". Com efeito, em vários capítulos da Regra de 1221, que parecem remontar-se ao texto primitivo, aparece o termo menores, sempre com uma indiscutível raiz evangélica.
No capítulo 5º se lê: " Nenhum irmão tenha poder ou domínio, e menos entre eles; pois, como diz o Senhor no evangelho; 'Os comandantes dos povos os dominam e os que são maiores exercem poder sobre eles'. Não será assim entre os irmãos. Todo aquele que quer ser maior entre eles seja seu ministro e servo; e o que quer ser o maior entre eles, que seja o menor. E nenhum irmão cause dano ou fale mal de outro, mas, pela caridade do espírito, sirvam e obedeçam uns aos outros de boa vontade. E esta é a verdadeira e santa obediência de Nosso Senhor Jesus Cristo".
Nos capítulos 6º e 7º está escrito: "A ninguém se chame de prior, mas todos, sem exceção se chamem de frades menores. E lavem os pés uns dos outros... Os irmãos, onde quer que se encontrem, servindo ou trabalhando em casas de outros, não sejam secretários nem estejam à frente deles nem aceitem nenhum ofício que provoque escândalo ou cause dano a sua alma; mas sejam menores e sejam submissos a todos os que vivem na mesma casa".
Também se conta que Francisco incluiu o nome de menores na regra por revelação divina, porque quis fundamentar-se a si mesmo e a sua família sobre a rocha firme da humildade e pobreza do Filho de Deus. Um testemunho pouco conhecido de frei Gil o explica deste modo: "Dizer 'frade menor' é como dizer 'estar aos pés de todos'. Quanto maior seja a humilhação, maior será a exaltação. Por isso São Francisco dizia que o Senhor lhe havia revelado que deviam chamar-se 'Frades Menores'".

A essa revelação se referia seguramente quando dizia a seus íntimos: " A Ordem dos Frades Menores é um pequeno rebanho que o Filho de Deus pediu ao Pai nestes últimos tempos, dizendo: 'Pai, quisera que me desses um povo novo e humilde que se distinga, por sua humildade e pobreza, de todos os que o tem precedido, e se conforme com ter somente a mim'. E o Pai lhe concedeu. Por isso quis o Senhor que se chamem Menores, pois eles são esse povo que o Filho de Deus pediu ao Pai e do qual diz o evangelho: 'Não temais, meu pequeno rebanho, pois o Pai tem se comprometido em dar-lhes o reino'. E também: 'O que fizestes a um destes meus irmãos menores, a mim mesmo fizestes'. Quando o Senhor falou assim, se referia, sem dúvida, a todos os pobres de espírito, mas, principalmente, predisse o nascimento em sua Igreja da Ordem dos Frades Menores".

Em outra ocasião dirá: "Deus quis que se chamassem Frades Menores porque devem mostrar-se inferiores e mais humildes e pobres, pela humildade de coração, nas palavras, em obras e no hábito; e nunca pretendam ser maiores na Igreja, mas peçam e permaneçam sempre na maior e mais profunda humildade".
Minoridade, portanto, como sinônimo de humildade, em seu mais pleno sentido. Assim o reconhece, por exemplo, Tomás de Celano quando escreve: "Certamente, eram frades menores aqueles que, submissos a todos, buscavam sempre o último lugar e tratavam de trabalhar nos ofícios que tinham alguma aparência de desonra, a fim de que, fundados na verdadeira humildade, merecessem ser edificados perfeitamente no edifício espiritual de todas as virtudes".
São Boaventura é do mesmo parecer: "Francisco, exemplo de humildade, quis que os irmãos se chamassem menores, e os superiores de sua Ordem, ministros (servos), para usar as mesmas palavras do evangelho, cuja observância havia prometido, para que seus discípulos se dessem conta de que tinham vindo à escola de Cristo humilde para aprender a humildade".
E o bispo Jacques de Vitry, que conheceu pessoalmente a Francisco e seus companheiros, em fevereiro de 1220, em vida do santo, escreveu: " Esta é a Ordem dos verdadeiros pobres do crucificado, que é também Ordem de Pregadores, os chamados Frades Menores. Por certo, menores e mais humildes que todos os religiosos deste tempo, no hábito, na nudez e no desprezo do mundo".

Por último, como dado de curiosidade, Ângelo Clareno assegura que Francisco não quis que sua família religiosa se chamasse Ordem, mas "Vida" dos Menores. Ignoramos de onde tirou esta notícia, mas o certo é que nas versões conhecidas da Regra, e em todos os seus escritos, nunca aparece a palavra Ordem, mas Religião, Fraternidade ou Vida, como quando diz: "Esta é a vida do Evangelho", "Esta é a regra e vida dos Frades Menores", "Se alguém quiser abraçar esta vida"...

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Franciscanos Minoritas
Os Frades Menores nos séculos XIII-XIV

Crescimento e evolução da Ordem
A Primeira Ordem Franciscana nasceu em Rivotorto, quando os irmãos eram apenas uma dúzia, e foi aprovada oralmente pelo papa Inocêncio III na primavera de 1209. Doze anos depois eram mais de 3.000 frades, e uns 20.000 no final do século XIII. Desde então o número de franciscanos tem oscilado sempre entre 30.000 e 60.000, o qual nos dá uma idéia da importância que tem a Ordem dos Menores ao longo dos séculos. Já nos começos, ao multiplicar-se na Ordem o número de sacerdotes e de mestres de teologia e a chagada massiva de jovens que deviam ser formados para os diferentes ministérios pastorais, foi necessário a criação de estúdios teológicos regulares em todas as províncias. Isto trouxe consigo a progressiva transferência de residência dos frades, dos arredores para o interior das cidades, solicitados pelo mesmo povo que lhes construía casas e igrejas mais amplas. Este processo começou já com São Francisco quando autorizou a Santo Antônio de Pádua a abrir uma escola em Bolonha; continuou com o novo ministro geral frei João Parenti (1227-1232); e se generalizou com frei Elias de Assis (1232-1239).

Frei Elias e a clericalização da Ordem
Frei Elias gozou da estima de São Francisco, que o teve como vigário durante cinco anos, de Santa Clara, do papa Gregório IX e do próprio imperador Frederico II, mas seu governo personalista e autoritário, seu enfrentamento com os grandes mestres da Ordem, partidários da clericalização da Ordem, e sua aposta pelo imperador, excomungado pelo papa, lhe fez cair em desgraça. Sua deposição em 1239 e a substituição por frei Alberto de Pisa (1239-1240) marcou uma nova etapa, como demonstram as palavras deste, no mesmo dia de sua eleição: "Hoje, pela primeira vez na Ordem, um ministro geral celebrou a Eucaristia". No Capítulo de 1239 foram criadas as primeiras Constituições, os Capítulos gerais e provinciais se tornaram mais representativos e participativos e se favoreceu a aceitação e promoção de candidatos ao sacerdócio, o geral seguinte, frei Haymón de Favershan (1240-1244), primeiro mestre de teologia de Paris a ingressar na Ordem em 1224, limitava a entrada aos leigos e os inabilitava para exercer cargos ou ofícios na Ordem.

A mentalidade escolástica da época, o exemplo dos Dominicanos e a solicitude do povo e da própria hierarquia eclesiástica também favoreceram este processo de clericalização.
Pouco a pouco, junto aos pequenos conventos e eremitérios ou em substituição a eles, se iniciaram a construção de igrejas monumentais e grandes conventos, capazes de abrigar comunidades numerosas dedicadas a atividades pastorais e culturais, favorecidas pela hierarquia eclesiástica e pelos superiores da Ordem. Seria um trabalho muito extenso descrever toda a contribuição dos franciscanos dos séculos XIII-XIV na orientação da Igreja por uma nova espiritualidade, na evangelização da Europa, no cultivo da teologia, nas ciências e nas artes, na preservação do ocidente cristão das culturas árabe e oriental ou no diálogo com a igreja ortodoxa (houve uma séria tentativa de reunificação, liderado pelos frades menores). De tal vitalidade da Ordem dão testemunho os numerosos santos e beatos "minoritas" deste período.

Os frades zelantes
O evidente contraste entre o antigo e o novo suscitou, entretanto, não pouca desconfiança e polêmicas. Fora da Ordem, o clero secular e mestres universitários viam neles fortes competidores; dentro dela, os que tinham vivido os tempos heróicos com o Fundador, pensavam que se estava traindo o espírito e sentido original. Em 1230 Gregório IX teve que interferir no modo de interpretar certas passagens polêmicas ou difíceis da Regra, como o dilema do uso de dinheiro-pobreza absoluta e a obrigatoriedade ou não do Testamento de São Francisco. O papa negava todo valor jurídico ao Testamento e para a administração de bens "em uso" da Ordem instituiu os núncios apostólicos, substituídos logo por "procuradores" designados pelos mesmos frades, e por "síndicos" mais tarde. Estes administravam em favor da Ordem os bens cuja propriedade correspondia a Santa Sé ou a outras instituições, como os municípios. Frei Elias e o sucessor de frei Haymón, Crescêncio de Iesi (1244-1247), tiveram que fazer frente a algumas turbulências provocadas pelos "zelantes" da Regra, que encontraram certo apoio no geral seguinte, frei João Buralli de Parma (1247-1257). Mas este, douto e estimado por muitos, ficou comprometido por sua adesão aberta às teorias joaquimitas, admitidas pelos zelantes, e teve que apresentar sua demissão.

São Boaventura
Também São Boaventura (1257-1274) teve que enfrentar, com força e sabedoria, os ataques dos mestres e prelados seculares por um lado, que viam os frades como arrogantes competidores; os exageros dos rigoristas ou espirituais por outro e, finalmente, o temível perigo de laxismo dos menos rigorosos. São Boaventura, na qualidade de ministro geral e mestre de teologia santo, tratou de conciliar o ideal do Fundador com a evolução natural da Ordem e sua benéfica atividade apostólica, dando preferência aa vida comunitária em grandes conventos (durante seu mandato se ampliaram as casas de Assis e de Paris), por considerá-los mais adequados para a formação e para a disciplina, para o exercício do culto sagrado e da pregação e para o atendimento pastoral do povo, dentro da cidade. Suas Constituições de Narbona foram uma reforma e adaptação das de 1239; com seus escritos mostrou aos frades as características essenciais da vocação franciscana; acrescentou o uso moderado e pobre das coisas; defendeu o ideal da vida evangélica e mendicante frente aos ataques dos teólogos de Paris, e a abertura dos religiosos a atividade científica e apostólica; não duvidou em solicitar da Santa Sé os favores e privilégios necessários para a Ordem; reprimiu o joaquimismo e rechaçou as pretensões dos zelantes de devolver à Ordem o estilo de vida primitivo.

Os frades "espirituais" ou "fraticelli" e a questão da pobreza
Os espirituais foram presença de fato na Ordem a partir de 1274, quando havia rumores de que o Concílio de Lion pretendia eliminar a pobreza absoluta dos Menores. Estes sucessores dos zelantes foram se agrupando em torno de alguns líderes, como frei Liberado de Macerata e frei Ângelo Clareno nas Marcas, frei Ubertino de Casale na Toscana e frei Pedro de João Olivi na Provença e Languedoc. Este último, o mais seguido e o mais moderado de todos, propunha uma reforma dentro da Ordem, na obediência aos superiores. Os italianos, mais turbulentos e radicais, chegaram a questionar a legitimidade da forma de vida de toda a comunidade franciscana e as declarações pontifícias, proclamando a inflexibilização da Regra (síntese do Evangelho ditada por Cristo). Eles alimentaram tais teorias divulgando supostas profecias de São Francisco sobre a decadência e restauração da Ordem, e as doutrinas joaquimitas sobre o eminente advento de uma nova Igreja reformada "pobre e espiritual". Reprimidos pelo primeiro papa franciscano Nicolau IV (1288-1292) e apoiados depois pelo geral Raimundo Godefroy (1289-1295) e o papa Celestino V (1294), fundaram a congregação dos "Pobres ermitões do papa Celestino". Bonifácio VIII os suprimiu em 1295, mas eles seguiram atuando dentro e fora da Ordem.

O Concílio de Viena tratou de concilia-los com o resto da comunidade, mas Clemente V, em 1312, ainda que exortasse a todos à observância fiel da Regra e à obediência, união e compreensão fraternas, confirmou o estilo de vida e apostolado da comunidade conventual da Ordem. Os desacordos e contrastes continuaram durante o pontificado de João XXII (1316-1334), que os escutou, mas lhes negou a separação que pediam, lhes fazendo ver que a caridade e a obediência valem mais que a pobreza. Mas a radicalidade dos espirituais era algo mais que uma reivindicação prática de vida. Suas idéias sobre a pobreza absoluta de Cristo e dos apóstolos nocauteava o ideal de vida franciscano e punha em discussão a legitimidade da vida espiritual, da propriedade e do poder temporal da Igreja. Como conseqüência disso, a Ordem entrou em conflito com o papa, que revogou os síndicos e a propriedade apostólica sobre os bens da Ordem, exceto as igrejas e conventos, e declarou herética a sentença franciscana sobre a questão. O conflito teve ressonâncias políticas. O geral franciscano Miguel Fushi de Cesena (1316-1328) fugiu de Avinhão e se colocou sob a proteção do imperador Luis da Baviera, enquanto este coroava em Roma o antipapa franciscano frei Pedro Rainallucci de Corvaro com o nome de Nicolau V (1328-1330).

Entre o rigor e a decadência
Os "fraticelli", como eram chamados os membros destes grupos dissidentes ainda continuaram sua vida independente, alternando repressões e processos inquisitoriais no sul da França, na Catalunha e, sobretudo, na Itália. Como reação talvez, e pressionada pela cúria romana e pelo novo ministro geral frei Gerardo Oddoni (1329-1342), a Ordem viu mitigada cada vez mais a prática da pobreza, por outro lado se renovavam as Constituições e se compilavam os Estatutos beneditinos aprovados por Bento XII (1336), com prescrições minuciosas ao estilo monástico. Sinal desta evolução era o hábito, que, ainda conservando a cor cinza original, foi se tornando cada vez mais folgado e preparado.
Os religiosos eram 35.000 naquele momento, distribuídos em 34 províncias, 211 custódias, 5 vicariados missionários (desde a Rússia até o extremo Oriente) e 1422 conventos. Sua atividade abrangia todos os campos de apostolado: serviço em grandes igrejas, pregação, estudo, atividade missionária e serviço à Igreja em multiplicidade de cargos eclesiásticos, como inquisidores, bispos, cardeais e núncios apostólicos, ainda que eles participassem da decadência comum que afetava aos demais religiosos e instituições eclesiais, e a mesma sociedade ao longo de todo o século XIV. As causas da decadência são muito conhecidas: a Peste Negra em toda Europa (1348-1362), a Guerra dos Cem Anos na França (1339-1453) e o Cisma papal que dividiu a Igreja e a Ordem em duas ou três obediências (1378-1417).

Não obstante, entre os Menores não faltou a vontade reformadora de alguns papas, de ministros gerais como frei Marcos de Viterbo (1359-1366) e Antônio Vinitti de Pereto (1405-1408), do beato Enrique Alfieri de Asti (1378-1405) e de outros. Fruto de tais esforços foi a aparição de novos fermentos de vida eremítica e de restauração religiosa, segundo o modelo do ideal primitivo. A reforma mais importante foi a Regular Observância de frei Paoluccio Trinci de Foligno, iniciada no eremitério de Brogliano em 1368. Favorecido pelos pontífices e pelos ministros gerais, seu movimento se desenvolveu extraordinariamente, até converter-se em uma grande força de renovação no seio da Ordem, deixando a salvo a unidade. Por desgraça, a reforma de Trinci seria mais tarde motivo de novas divisões, que converteram a Ordem em um amálgama de famílias e correntes internas, que as vezes se enfrentavam entre si. Os efeitos de tais divisões ainda duram até hoje, pois são três as Ordens franciscanas que existem na atualidade, como três ramos de um único tronco primitivo: os Frades Menores Conventuais, de que se separaram as diferentes reformas, os Frades Menores (resultantes da união da Regular Observância com outras reformas em 1517 e finais do século XIX) e os Frades Menores Capuchinhos (desgarrados do ramo Observante no século XVI).

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1517: divisão definitiva da Ordem
(a bula "Ite Vos" e suas conseqüências)

Até a irremediável ruptura
O fracasso do Capítulo "Generalíssimo" de 1506, convocado pelo Ministro Geral Conventual Frei Gil Delfini de Amélia na tentativa de reunificar uma Ordem franciscana dividida pelas reformas, não desanimou o sucessor, Frei Rainaldo de Cotignola, e o estreito colaborador de ambos, o coletano francês Frei Bonifácio de Ceva. Ambos desejavam que as Constituições "julianas", de inspiração coletana, obrigasse a todos os franciscanos, conventuais e reformados, incluídos os da observância. No entanto, o ministro geral não teve o apoio nem do papa Júlio II, nem dos próprios conventuais.
Quatro anos depois, em maio de 1510, Frei Rainaldo foi substituído no cargo por Frei Felipe Porcacci de Bagnacavallo, que tinha sido secretário de Delfini. O novo geral confirmou Frei Bonifácio como ministro provincial da França e o designou comissário pleno seu para o convento e para a escola teológica de Paris. Este provocou situações muito tensas em sua controvérsia contra os Observantes, que obrigaram os organismos judiciais públicos e a Faculdade teológica de Paris a interferir. Em 1516 o assunto chegou ao Parlamento de Paris, que por sua vez comunicou a Leão X e aos padres conciliares participantes do V concílio lateranense. O papa confiou a questão a uma comissão de 4 cardeais, e estes, considerando que era um "assunto complexo referente a toda a Ordem", concluíram que era necessário a convocação de um novo Capítulo "generalíssimo" para Pentecostes do ano seguinte.

Entre janeiro e abril de 1517 Frei Bonifácio de Ceva recorria pela enésima vez ao Parlamento francês, com um "Defensorium elucidarium", em resposta ao "Tractatus dictus Defensorium fratrum Minorum de Observantia et família", do observante Frei Boaventura Neveu. O Parlamento se inclinou para este último, e Bonifácio morreu, derrotado, um mês depois, aos 12 de abril. Sua morte coincidia com um enfraquecimento dos observantes "sub ministris" e dos conventuais, não somente na França, mas também na Espanha, onde o arcebispo de Toledo, o observante Frei Francisco Ximenes de Cisneros, com o apoio dos poderosos Reis Católicos, tinha decidido exterminar os conventuais da província de Castela, e tornar o rei D. Fernando inimigo da Província de Aragão, até ameaçá-los, em 1517, com a expulsão de seus reinos.
Por outro lado, na Alemanha, o vigário provincial de Estrasburgo, Frei Gaspar Schatzgeyer, contrapunha ao defensorium de Frei Bonifácio sua "Apologia Fratrum Minorum de Observantia", na qual propunha como solução ao conflito que a Ordem se colocasse sob a autoridade de ministros observantes, porque só a união de todos os reformados, os submetidos aos vigários observantes e os submetidos aos ministros conventuais, garantiria uma única formação religiosa autenticamente renovada, pois já não se podia prolongar mais a convivência com os frades "não-reformados". Estas serão as teses que triunfarão poucos dias depois.

A bula "Ite Vos" e a Observância
Às vésperas do Capítulo generalíssimo de Pentecostes, como vinha sendo habitual, se multiplicaram as pressões diplomáticas dos príncipes europeus a favor de um ou outro bando. No Final se impôs a solução proposta por Frei Gaspar Schatzgeyer. Na bula "Ite Vos", de 29 de maio de 1517, Leão X explica que o estado de divisão e contínuo enfrentamento entre observantes e conventuais exigia uma intervenção firme e definitiva, tanto pela caridade cristã da Ordem em questão, como pelas ininterruptas súplicas da cristandade através de seus reis, príncipes e autoridades. Também explica que estas disposições foram tomadas por investigação prévia de uma comissão cardinalícia nomeada para isto, e traz uma madura reflexão do papa e do colégio cardinalício.
A "Ite Vos" atribui as discussões entre franciscanos a 3 causas principais: a multiplicidade de prelados (ministros conventuais e vigários de diferentes obediênicas), a perpetuidade de alguns cargos e a vida "não-reformada" dos "não-observantes". Por isso se conclui o seguinte:
a) Segundo a Regra, o ministro geral devia ser um só, e que seu mandato não devia durar mais de 6 anos;
b) O conjunto dos ministros provinciais e custódios podem destituí-lo, se não o considerarem apto para o serviço e comum utilidade dos religiosos;
c) A eleição do ministro geral compete somente aos ministros e custódios reformados, tanto cismontanos (italianos) como ultramontanos (resto da Europa), porque têm voz ativa e passiva somente aqueles aos quais a Congregação julgar como reformados. Isto explica porque no Capítulo generalíssimo foram admitidos representantes dos reformados sob a autoridade dos ministros, quer dizer, amadeístas, clarenos e do santo evangelho ou do capucho;
d) Sancionado o predomínio da Observância, a bula estabelece a alternância e a colaboração entre os dois grupos majoritários da mesma: a um ministro geral de procedência cismontana, devia suceder outro ultramontano, e vice-versa, e cada ministro devia ser assistido por um comissário geral do outro grupo.

A bula especifica também a que se refere o termo "reformado": "Queremos e declaramos que sob o nome de Reformados, quer dizer, daqueles que observam a Regra de São Francisco pura e simplesmente, tem que compreender a todos e a cada um dos mencionados frades: ou seja , os observantes, tanto da família quanto os reformados sob os ministros, quer dizer, os frades de Amadeo ( de Silva), os coletanos, os clarenos, os do santo Evangelho ou da capucha, também chamados descalços, e outros similares, de qualquer maneira que se lhes chame, mas que observam a mesma Regra do Bem-aventurado Francisco de modo puro e simples: fazendo deles um só corpo, os unimos entre si para sempre. Assim, de agora em diante, abandonada a diversidade de denominações, seja em seu conjunto ou em suas partes, chamem-se e podem e devem ser chamados, Frades Menores de São Francisco da regular Observância".
Deste modo estava alterada a originária e simples denominação de "Frades Menores", ao mesmo tempo em que desapareciam o resto de denominações, de modo que não mais podiam ser chamados de: privilegiados, coletanos, amadeístas, clarenos, do Evangelho ou da capucha, bigotti (beatos), nem com qualquer outro nome.

A bula Omnipotens Deus e os Conventuais
A "Ite Vos" possibilita o assunto dos conventuais a posteriores disposições, que chegaram a 12 de junho de 1517 com a bula "Omnipotens Deus". Antes disso, a 29 de maio, Frei Bernardino Prati de Chieri, último geral conventual "de toda a Ordem", havia sido nomeado bispo de Atenas por Leão X, e no dia seguinte os conventuais procederam à eleição de um "mestre geral", na pessoa de Frei Antônio Marcelo de Cherso. A partir da "Ite Vos"", o Capítulo deixou de ser "generalíssimo". A 1 de junho se reuniam em Santa Maria de Araceli de Roma os custódios e vigários provinciais da observância com os delegados das distintas reformas, para a eleição do primeiro ministro geral observante. O cargo recaiu por maioria absoluta na pessoa de Frei Cristobal Numai de Forlí, vigário geral cismontano. Um mês mais tarde, a 1 de julho, o papa o nomeava cardeal, junto com outros 30 prelados. Não está de todo clara a relação entre o apoio incondicional de Leão X aos observantes e a crise que atravessava o papado nesses dias, com uma conjura cardinalícia que tratou de envenená-lo, e o fracassado intento de reconquista do território de Urbino para os Estados pontifícios.
A bula "Omnipotens Deus" referente aos Conventuais mudou o título dos "ministros" gerais e provinciais pelo de "mestres". Esses cargos deviam ser confirmados pelos ministros observantes. Os papéis haviam se invertido. O ex-frade observante alemão Conrado Pellikan, passado às filas luteranas, escrevia a respeito: "Não ocorreu ali outra coisa que a troca do magistério da Ordem, do cargo do generalato e do regime, dos Menores conventuais- que eram contrários, recalcitrantes e que discutiam sobre o estabelecido- aos frades chamados observantes".

A autonomia dos conventuais estava, no entanto, garantida. Segundo a "Omnipotens Deus", o ministro geral observante não teria nenhuma autoridade jurídica sobre eles, como tampouco antes a havia tido o ministro conventual sobre os vigários da Observância. As casas masculinas e monastérios femininos que antes da "Ite Vos" estavam sob a jurisdição do ministro geral conventual, continuavam agora sob o mestre geral. Também conservavam os mestres a autoridade sobre os lugares com menos de 10 frades que quisessem reformar-se, somente os membros de casas mais numerosas teriam o direito de eleger, por maioria, a "obediência" sob a qual queriam viver a reforma. Os conventuais podiam também passar livremente sob a obediência observante, sem a permissão de seus mestres. A predominância dos observantes estava também patente na precedência destes sobre os conventuais, em procissões, funerais e cerimônias públicas.
A solução não evitou o descontentamento dos conventuais, nem as duríssimas críticas contra os observantes, acusados de haver "comprado" a primazia na Ordem com o dinheiro recolhido com a venda de indulgências para a construção da nova basílica de São Pedro. Dava crédito a eles o fato de que, entre julho de 1526 e junho de 1517, os observantes entregaram à Igreja 26.041 ducados, frente aos 1.200 recolhidos pelos conventuais, e os 8.740 do resto dos arrecadadores.

A "Ite Vos" foi chamada bula "de união" e a "Omnipotens Deus", bula "de concórdia", mas a realidade foi que a Ordem dos Frades Menores ficou definitivamente dividida no plano institucional e organizativo. A divisão não foi justa, devido ao pleno apoio concedido por Leão X à "regular observância", a ponto de forçar a realidade com uma interpretação ideológica da história, como se pode constatar neste texto tomado da bula "Licet Alias", de 6 de junho de 1517: "Declaramos... que os frades da Observância e os Reformados tinham sido,sem sombra de dúvida, verdadeiros frades da Ordem do Bem-aventurado Francisco, e que, sem interrupção alguma ou divisão, sempre têm observado (...) sua Regra, desde que ela foi publicada pelo Bem-aventurado Francisco até hoje, e têm militado e todavia hoje militam sob a Regra do mesmo Bem-aventurado Francisco; portanto, decretamos e mandamos que assim tenham de ser tidos e observados em todo e assim se há de dizer".
Concluímos o tema recordando que, nem a autoridade papal, nem o respaldo à Observância lograram seu objetivo de resolver o problema das reformas e as inevitáveis divisões provocadas por elas. Novas reformas e divisões surgiram no seio da Observância nos anos e séculos posteriores: alcantarinos, recoletos, reformados, capuchinhos... Estes últimos lograram constituir-se em Ordem franciscana autônoma, os outros se viram obrigados a unificar-se com os observantes em 1897, por decreto de Leão XIII. E o mais curioso de tudo isso é que toda reforma franciscana desemboca sempre em uma "conventualização". Ironias da história. (Fratefrancesco.org)

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Franciscanos Menores
OFM

Frades Menores "da União Leonina"
A 4 de outubro de 1897 o papa Leão XIII, pela Constituição Apostólica "Felicitate quadam", reunia quatro reformas franciscanas: Observantes, Reformados, Descalços ou Alcantarinos e Recoletos, com a simples denominação de "Frades Menores", título que compartilham com os Frades Menores Conventuais e com os Frades Menores Capuchinhos.

Origem da Observância
A reforma Observante ou da Regular Observância, versão moderada do movimento dos frades Espirituais ou Fraticelli, começou na Itália em 1368, por obra do beato frei Paoluccio Trinci de Foligno, no eremitério de Brogliano, entre Foligno e Camerino. Quando morreu em 1391, os eremitérios e conventinhos sob sua jurisdição eram já 16, todos eles no centro da Itália, entre as regiões da Úmbria e Marcas. O beato Paoluccio, no entanto, só fundou o de São Bartolomeu de Marano (Foligno); os demais, a Ordem lhe havia sedido, quer dizer, os chamados Conventuais, a cujos superiores legítimos estavam sujeitos. As reformas observantes se estenderam em seguida pela Itália, França, Espanha e Portugal, e foram reconhecidas pelo Concílio de Constança, com a Constituição apostólica "Supplicationibus personarum" de 23 de setembro de 1415.

Com as bulas "Vinea Domini" de 15 de março de 1431 e "Ut sacra" de 11 de janeiro de 1446, o papa Eugênio IV separou praticamente a Observância dos Conventuais, e a transformou em uma espécie de ordem dentro da ordem, já que a dependência dos ministros gerais conventuais era simplesmente nominal.
A nova família franciscana ficou organizada, desde então, em dois vicariados gerais, autônomos entre si: um Cismontano (Itália) e outro Ultramontano (o resto da Europa), ambos divididos em vicariados provinciais. Os quatro pilares que organizaram e consolidaram a reforma observante foram São Bernardino de Sena, frei Alberto de Sarteano, São João de Capistrano e São Jaime das Marcas, animados por uma sincera vontade de adaptar genuinamente os ideais de São Francisco a seu tempo. Pelo exemplo, e em virtude de seu enérgico e acertado governo, a reforma cresceu e se estendeu rapidamente, e cogitou abandonar os eremitérios e se dedicar aos estudos, imprescindíveis para o apostolado popular, missionário, caritativo e social, no que se distinguiram não poucos santos e beatos.

Difícil convivência
As relações com o resto da Ordem não foram sempre exemplares. Frente aos Franciscanos Conventuais ou Claustrais, que defendiam uma vida estável de observância da Regra com orientações pontifícias, sem as quais pensavam que não podiam fazer frente ao acúmulo de atividades que a mesma Igreja lhes encomendava, muitos Observantes não viam mais solução que a radical supressão dos mesmos, coisa que conseguiram na Espanha e em seus reinos com o poderoso apoio dos reis católicos e de Felipe II. A mesma intransigência excludente mostraram contra as outras reformas (Villacrecianos, Amadeitas, Alcantarinos, frades da Capucha, etc.), que defendiam seu legítimo direito a observar a regra sem ter que romper a comunhão com a Ordem. Tampouco ajudaram a melhorar as relações os mil e um litígios surgidos em torno à possessão dos conventos, já que os Observantes, cujo crescimento era irrefreável, em certos lugares, tendiam a apropriar-se das casas conventuais, para não ter o trabalho de fundar outras novas.

Sob o sinal das divisões

Nesse ambiente de discórdia, todos os esforços para reunificar a Ordem fracassaram, de modo que a 29 de maio de 1517, com a bula "Ite vos", o papa Leão X terminou de romper o fio simbólico que ainda mantinha unidas a ambas as famílias, concedendo aos frades da Regular Observância o primado jurídico da Ordem, que até esse momento era dos Conventuais. E quanto as outras reformas, o mesmo papa obrigou a unir-se a uma ou outra Ordem. Nesse momento, os Observantes eram já 30.000, repartidos em 1.500 conventos. Os Conventuais eram outros tantos.
No século XVI, a Observância já não é a de antes: não recusa os estudos, constrói grandes conventos e igrejas enormes sem maiores escrúpulos de consciência. Nada há, pois, de estranho que, apenas um ano depois da divisão, apareceram os Frades Menores Reformados da Estrita Observância, aprovados por Clemente VII a 16 de novembro de 1532, com a bula "In suprema". O mesmo papa, quatro anos antes, tinha aprovado a reforma dos Frades Menores Capuchinhos, desgarrados igualmente da Observância. Os Alcantarinos, Reformados e Recoletos, ainda dependendo do ministro geral observante, gozavam de ampla autonomia, com aprovação da Igreja.

Tantas divisões podiam ser motivo de escândalo para alguns, mas não deixavam de ser, na realidade, um sinal da grande vitalidade da árvore plantada por Francisco, cujos filhos nunca deixaram de competir -não sempre de maneira mais apropriada- para alcançar a meta da perfeição evangélica, estimulados sempre pelos exemplos e palavras do santo fundador.
Exceto os Capuchinhos, que conquistaram e mantiveram sua independência, as outras famílias franciscanas reformadas continuaram sendo parte da família Observante, compartilhando com eles o mesmo ministro geral e os trabalhos apostólicos e missionários, distinguindo-se, de maneira especial, na América espanhola, onde ainda são muito numerosos e constituem uma força importante da Igreja Católica.

Crise e reunificação
Os diferentes ramos Observantes também foram vítimas do ciclo revolucionário europeu dos séculos XIX e XX, mas sua forte vitalidade interna, a rápida fundação de novos seminários e do Colégio Internacional Romano (1890) para os estudos superiores, a ereção de novas províncias, a criação de novos conventos e a recuperação de antigos lhes assegurou uma forte recuperação e uma presença ainda mais numerosa e prestigiosa que antes.
A reunificação de Leão XIII de 4 de outubro de 1897 pôs fim à secular divisão da família observante, ainda que Pio XII tivesse que intervir em 1940, para fazer frente a certas resistências, devidas, sobretudo, a motivos políticos e nacionais.

Presença e atividades hoje no mundo
Hoje, Os Frades Menores estão em todo o mundo e são a força missionária mais importante da Igreja Católica. A 31 de dezembro de 1991 eram 16.008 professos solenes (6 cardeais, 9 arcebispos, 92 bispos, 12.492 sacerdotes, 69 diáconos permanentes, 678 clérigos e 2.856 irmãos leigos). Os professos simples eram 2.153 (1475 estudantes de teologia e 678 irmãos leigos) e os noviços, 577, que somavam no total 18.738 religiosos.
Os Frades Menores têm a seu cargo importantes santuários do franciscanismo primitivo, como São Damião, os Cárceres e a Porciúncula em Assis, o Alverne, Araceli em Roma e os santuários do vale de Rieti. Também têm sob sua custódia os Santos Lugares da Terra Santa. O "Ateneo Antonoano" de Roma, com suas faculdades de teologia, filosofia e direito, desenvolvem uma ampla atividade científica e cultural. O Colégio São Boaventura de Quaracchi (agora Grottaferrata) que é célebre por suas edições monumentais de autores e documentação franciscana. Dignos de menção são também a Comissão Escotista e o Instituto Bíblico de Jerusalém, os centros Angelicum de Milão e Antoniano de Bolonha. Mas não só cultural. Os Menores também desenvolvem uma intensa atividade missionária e pastoral em uma multiplicidade de paróquias, igrejas e santuários em todo o mundo.
O grupo franciscano mais numeroso se caracteriza pelo hábito marrom ou café, que substituiu o cinza tradicional do século XIX, um capuz curto que não cai sobre os ombros e as típicas sandálias.
A cúria geral, depois da derrubada do convento de Araceli para a construção do gigantesco monumento a Victor Manuel II, se transferiu ao convento de Santa Maria Mediadora, na colina do Gelsomino de Roma.

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Franciscanos Menores Conventuais
OFM Conv

Conventuais
Os Franciscanos Conventuais são o tronco original da Ordem, de que brotaram as diferentes reformas. Já a 5 de abril de 1250, o papa Inocêncio IV quis tutelar o eficaz trabalho pastoral dos Menores, declarando "conventuais" suas igrejas, quer dizer, concedendo-lhes a mesma prerrogativa que as colegiadas (paróquias diocesanas). Os frades, no entanto, só receberam tal denominação a partir da segunda metade do século XIV, para distingui-los dos que se retiravam em eremitérios, em busca de uma melhor "observância" da regra.

Os religiosos que seguiam vivendo nos eremitérios, como nos tempos heróicos de São Francisco, eram muito poucos. A grande maioria, quer dizer os frades "da comunidade" estavam nas cidades, dedicados à pregação, aos sacramentos e aos ensinamentos. Empreitaram a construção e ampliação de grandes conventos, como os de Assis, Pádua, Veneza, Florença, Bolonha, Ferrara, Piacenza, Parma, Arezzo, Sena, Pisa, Palermo, Viterbo, Nápoles, Vicenza, Friburgo, Cracóvia, Colônia, Würzburg, Viena, Praga, Barcelona, Valencia, Sevilha, Paris, Oxford, etc. A Ordem fundada por São Francisco estava formada, em grande parte, por irmãos leigos, mas, um século depois de sua morte era uma Ordem douta e clerical, com dezenas de milhares de religiosos que serviam à Igreja em múltiplas atividades: pastorais, missionárias, diplomáticas, ecumênicas, universitárias, chegando muitos deles a ocupar cátedras episcopais, cardinalícias e inclusive papais.

Mitigações e tenções
A sustentação de grandes conventos não permitia a observância da pobreza absoluta, mas os papas, interessados em manter os benefícios pastorais que sustentavam a Igreja, mitigaram com privilégios e declarações a observância da Regra. A isto se opuseram os frades Zelantes, Espirituais ou Fraticelli, partidários de uma pobreza mais radical, sem interpretações pontifícias, até o extremo de acusar a Ordem de relaxamento no Concílio de Viena (1311-1312) e de negar ao Papa o direito de interpretar a Regra. Foi por esse motivo que o papa João XXII (1317-1318) acabou condenando os fraticelli como hereges.
Na mesma linha dos Fraticelli, mas com atitudes e comportamentos mais ortodoxos, em 1368 nasceram os Frades Menores Observantes ou da Regular Observância, por obra do beato Paoluccio Trinci. Estes tiveram mais êxito e foram crescendo e distinguindo-se cada vez mais do resto da Ordem, as vezes entre fortes tensões, até sua total independência (1517). Os Conventuais, no entanto, ante a pressão da Observância, trataram de eliminar os evidentes abusos, mas defenderam e continuaram aquela forma de vida que os permitia desenvolver dignamente as atividades tradicionais que a complexidade da Ordem e a Igreja requeriam. Convém recordar que, exceto Nicolau IV (Jerônimo Masci, 1288-1292) que era Minorita, foram Conventuais os papas Alexandre V (Pitros Philargis, 1409-1410), Sixto IV (Francisco della Rovere, 1471-1484), Sixto V (Félix Peretti de Montalto, 1585-1590) e Clemente XIV (Lorenzo Ganganelli, 1769-1774).
O irrefreável crescimento e separação dos frades da Observância provocou não poucas tensões entre ambas correntes da Ordem, já que estes, não conformando-se com os eremitérios, empreenderam ocupar também os grandes conventos urbanos dos Conventuais e a absorver todas aquelas reformas que preferiam seguir submissas ao Ministro Geral Conventual, como sinal de unidade e de comunhão com a Ordem. Na Espanha, os frades Conventuais ou Claustrais foram suprimidos, a instâncias dos Observantes, pelos Reis Católicos no início do século XVI, e por Felipe II em 1568.

Separação e renovação
Cinqüenta anos antes, a 29 de maio de 1517, o papa Leão X, com a bula "Ite vos", havia dividido definitivamente a Ordem em duas, obrigando as reformas menores a unir-se aos Observantes ou aos Conventuais. Foi um duro golpe para os Conventuais, que se viram obrigados a ceder a primazia e o título de Frades Menores aos Observantes. Não obstante, no século XVII e parte do XVIII, os Conventuais, purificados pelas provas de séculos anteriores, demonstraram uma grande vitalidade, como demonstra o testemunho de alguns santos e beatos daquele período. Por desgraça, o flanco crescimento da Ordem foi freado bruscamente pela Revolução francesa, das perseguições napoleônicas e dos governos maçônicos do século XIX e da supressão comunista das ordens religiosas em vários países do leste europeu. Tudo isso pôs em perigo a existência da Ordem mesma. Muitos religiosos se viram obrigados a secularizar-se e grande parte dos conventos foram transformados em quartéis, hospitais, escolas, asilos, cárceres, oficinas, etc. Os quase 30.000 membros com que contava a Ordem Conventual no século XV foram reduzidos, em 1883, a somente 1481. Entretanto, desde então não tem deixado de crescer e estender-se, sobretudo, ultimamente, nos continentes americano e asiático e no leste europeu, até alcançar o número atual de 4.500 religiosos. È o ramo menos numeroso da Ordem, mas está presente em todo o mundo.

Presença e atividade hoje no mundo
A Ordem Conventual está atualmente comprometida com a Igreja nas mais variadas tarefas de apostolado, que são expressão de sua própria razão de ser. Centenas de Igrejas e 19 basílicas -as mais antigas da Ordem- são o campo de ação de uma intensa atividade litúrgica e pastoral. A cúria geral OFM Conv e os organismos diretivos têm sua sede na Basílica romana dos Santos Doze Apóstolos, confiada à Ordem por Pio II em 1463, depois que a sede anterior, Santa Maria de Araceli, foi entregue por Eugênio IV aos Observantes (1445). O coração da Ordem é, por outro lado, a Basílica de São Francisco em Assis, com o Sacro Convento anexo, declarado "Cabeça e Mãe" da Ordem pelo fundador da igreja Gregório IX em 1230, nas vésperas da transladação do corpo de São Francisco à mesma.
Os Conventuais têm também a seu cargo a Basílica de Santo Antônio em Pádua, meta de peregrinos de todo o mundo e centro de intensa atividade litúrgica, pastoral, cultural, editorial e caritativa; e a Basílica da Santa Cruz de Florença, verdadeira jóia da arte italiana, Santa Maria Gloriosa "dei Frari" de Veneza; e as igrejas de São Lourenço de Nápoles e de São Francisco de Bolonha e de Ravena (com a tumba de Dante Alighieri).

Trabalham, ainda, como penitenciários pontifícios na Basílica de São Pedro do Vaticano e regem a Pontifícia Faculdade de Teologia São Boaventura no Colégio "Seraphicum" de Roma, com sua filial de Pádua, o Instituto de Teologia "Santo Antônio Doutor" o Colégio São Máximo. A ele temos que acrescentar o instituto Teológico de Assis, agregado à Faculdade de Sagrada Teologia da Pontifícia Universidade Lateranense. Nas últimas décadas a Ordem Conventual tem redescoberto sua vocação missionária, abrindo novas Províncias e Custódias em todo o mundo.
O hábito conventual é o tradicional: túnica e capuz cinza com o cordão. Na época napoleônica trocou-se pelo preto, mas hoje se veste de cinza em vários países da Europa e no resto do mundo.

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Franciscanos Menores Capuchinhos
OFM Cap

Os "frades da vida eremítica" ou Capuchinhos
A terceira grande família surgiu do tronco dos Frades menores Observantes em 1525, apenas 8 anos depois que estes obtiveram a total separação e o primado jurídico sobre os Conventuais. Então os Observantes já eram várias dezenas de milhares em todo o mundo e a evolução interna e os fins apostólicos os haviam levado a uma situação nova, muito diferente dos humildes começos em eremitérios e pequenos conventos. Era, portanto, inevitável, que alguém, de dentro reivindicasse o direito de observar a Regra ao pé da letra, com todo o seu rigor. Isso é o que fizeram o jovem sacerdote Mateus Serafini de Bascio (1495-1552) e os irmãos Ludovico e Rafael Tenaglia, da mesma família observante, a qual fez o que pode para reabsorvê-los e conter a hemorragia. De nada serviram cárcere, fugas e outras peripécias dos primeiros 3 anos: A 3 de julho de 1528, por mediação da duquesa de Camerino Catarina Cybo, sobrinha do papa, Clemente VII lhes concedeu a bula "Religionis zelus", que marca o nascimento da família Capuchinha. Entre outras coisas, o papa lhes concedeu vestir o hábito com capuz piramidal e usar barba, como sinal de pobreza, simplicidade e austeridade.

Recebida a bula papal, outros frades da Observância se uniram a eles, tais como João de fano, Bernardino de Asti e Bernardino de Ochino. Em 1536, os " Irmãos ou frades menores da vida eremítica", que assim se chamavam então, já eram 500 e, surpreendentemente, 3.300 em 1571. Nem a obstinada oposição da família de origem, nem o clamoroso contra testemunho de seu vigário geral Bernardino Ochino, que passou à heresia protestante, impediram que a nova reforma seguisse crescendo a sombra dos Frades Menores Conventuais, a cuja jurisdição foram acolhidos antes de conseguir de Paulo V, em 1619, a faculdade de dispor de Ministro Geral próprio, com plena autonomia. Então, eram já um exército de 14.000 religiosos comprometidos em todos os campos de apostolado católico, principalmente na assistência aos doentes e no ministério da pregação popular.

Evolução da Ordem

Também para eles, como era previsível, a entrada em massa no apostolado ativo missionário, caritativo-social e -mais lentamente- científico, causou uma evolução interna; no entanto, ao longo da história franciscana, os Capuchinhos têm representado sempre a linha mais rígida e austera. Para evitar fáceis concessões e contradições com a pobreza em questão de igrejas e conventos, eles são os únicos que se dotaram em seguida de uma legislação concreta e minuciosa, prescrevendo que "as igrejas sejam pequenas, pobres e honestas... segundo a santíssima pobreza... E para este fim seja feito um pequeno modelo, segundo o qual se construa".
Por seu apostolado caritativo e social, os frades Capuchinhos têm sido sempre bem acolhidos pelo povo, como bem reflete o escritor italiano Alexandre Manzini, que em seu célebre romance "Os noivos" abordou admirav